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China defende saída política e rejeita uso da força para reabrir o Estreito de Ormuz

Editorial do Global Times afirma que medidas militares agravariam a crise, ampliariam o risco de guerra regional e comprometeriam ainda mais a segurança

Navios cargueiros no Golfo, próximos ao Estreito de Ormuz, vistos do norte de Ras al-Khaimah, perto da fronteira com a governadoria de Musandam, em Omã, em meio ao conflito dos EUA e Israel com o Irã, nos Emirados Árabes Unidos (Foto: Stringer/Reuters)

247 – Um editorial publicado pelo Global Times sustenta que a reabertura do Estreito de Ormuz não pode ser alcançada por meio de “medidas defensivas” que, na prática, mantenham aberta a possibilidade do uso da força. Para o jornal chinês, a escalada militar em torno da passagem estratégica ameaça aprofundar a crise no Oriente Médio, desorganizar ainda mais o comércio marítimo internacional e comprometer um dos principais corredores de energia do planeta.

Segundo o texto original, a discussão ganhou força no Conselho de Segurança da ONU, que voltou a debater as tensões em torno do Estreito de Ormuz. De acordo com múltiplas reportagens citadas pelo editorial, um projeto de resolução apresentado pelo Bahrein previa inicialmente autorizar o uso de “all necessary means” para assegurar a livre navegação na região. Diante da falta de consenso, a proposta foi revisada diversas vezes, passou a incorporar a expressão “defensive measures” e teve sua votação adiada repetidamente.

A controvérsia, segundo o Global Times, expõe uma questão central para a comunidade internacional: como responder à interrupção da navegação no Estreito de Ormuz sem transformar a crise em um conflito ainda mais amplo. O editorial argumenta que, mesmo com a mudança de redação, o problema de fundo permanece o mesmo, porque as chamadas “medidas defensivas” continuam embutindo a possibilidade do uso da força militar.

O jornal observa que, desde que Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã no fim de fevereiro, a navegação normal e a segurança no Estreito de Ormuz foram gravemente abaladas. O texto afirma que o trânsito de navios caiu até 95%, interrompendo cerca de um quinto dos fluxos globais de petróleo, pressionando os preços da energia e impondo forte tensão às cadeias globais de suprimento. Ao mesmo tempo, infraestruturas de países do Conselho de Cooperação do Golfo passaram a sofrer ataques frequentes, com vítimas e danos materiais.

Para os defensores da resolução, a iniciativa serviria para romper o bloqueio atual da navegação e proteger os interesses dos países da região. O editorial, porém, sustenta que essa leitura ignora o risco maior: qualquer autorização ambígua para o uso da força em uma área tão sensível pode sair do controle e abrir caminho para uma guerra de grandes proporções.

O Global Times destaca que o Estreito de Ormuz é um ponto de estrangulamento estratégico que liga o Golfo Pérsico ao Oceano Índico. Por isso, sustenta que autorizar o uso de “all necessary means” em uma zona tão inflamável não apenas carece de definição precisa, como também cria margem para manipulação por potências externas. Na avaliação do jornal, se isso ocorrer, o estreito deixará de ser apenas uma rota sob tensão e poderá se converter em um verdadeiro campo de batalha, afetando de maneira dramática o abastecimento energético global.

O editorial argumenta que, nesse cenário, o objetivo declarado de garantir a passagem segura de embarcações se tornaria contraditório. Em vez de oferecer segurança, a militarização agravaria o conflito e arrastaria os países da região para uma espiral ainda mais profunda de instabilidade. Assim, os Estados do entorno do Golfo não conquistariam corredores marítimos mais protegidos, mas seriam empurrados para uma realidade de guerra mais intensa.

É nesse ponto que o texto situa a posição da China. Segundo o editorial, Pequim tem insistido que qualquer ação do Conselho de Segurança da ONU deve contribuir para reduzir a escalada, interromper os combates e retomar negociações, e não para respaldar atos de guerra considerados ilegais ou alimentar ainda mais a conflagração. O jornal afirma que a China não apoia ataques contra países do Conselho de Cooperação do Golfo e defende esforços internacionais voltados à preservação da navegação pelo Estreito de Ormuz, mas ressalta que o método para isso é decisivo.

Na avaliação expressa pelo Global Times, autorizar Estados-membros a usar a força neste momento equivaleria, na prática, a legitimar o abuso ilegal da força. O texto argumenta que tal medida levaria inevitavelmente a uma escalada adicional, com consequências graves para toda a região. O editorial acrescenta que China, Rússia e França, todos membros permanentes do Conselho de Segurança, apresentaram posições divergentes sobre a proposta, enquanto também há diferenças relevantes entre os membros não permanentes. Para o jornal, isso reflete a preocupação compartilhada da comunidade internacional com o risco de agravamento da crise.

Outro eixo do argumento é que a crise de navegação em Ormuz não pode ser tratada como um problema isolado. O editorial sustenta que a interrupção do tráfego marítimo é um efeito colateral da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Em sua leitura, a causa original está no uso não autorizado da força contra o Irã por Washington e Tel Aviv, sem aprovação do Conselho de Segurança da ONU. Assim, tentar restabelecer a navegação sem enfrentar a guerra em si significaria apenas lidar com os sintomas, e não com a origem do problema.

Por isso, o texto defende que a deterioração da situação só poderá ser contida se Estados Unidos e Israel interromperem suas operações militares. O editorial afirma que apenas um cessar-fogo real e a suspensão efetiva das hostilidades podem dissipar a sombra da guerra sobre o Estreito de Ormuz e oferecer garantias concretas à segurança da via marítima.

Embora reconheça a dificuldade de parar a guerra, o Global Times sustenta que esse desafio reforça, e não diminui, a necessidade de mobilização internacional. O jornal argumenta que os países do Conselho de Cooperação do Golfo, por sua tradição de mediação entre Estados Unidos, Israel e Irã, dispõem de vantagens específicas para compreender as causas estruturais dos conflitos regionais. Por isso, o Conselho de Segurança da ONU deveria, segundo o editorial, atuar de forma objetiva, imparcial e justa, reforçando a comunicação com esses países e ampliando a vontade política em favor de uma solução pacífica.

Na parte final, o editorial insiste que o uso da força não abrirá as rotas marítimas nem produzirá paz duradoura. A saída, diz o jornal, é política. O texto afirma que a China é um parceiro estratégico duradouro e confiável dos países do Oriente Médio e que tem atuado de forma consistente para reduzir tensões na região.

Nesse contexto, o Global Times destaca a iniciativa conjunta apresentada recentemente por China e Paquistão, estruturada em cinco pontos. Segundo o editorial, o núcleo dessa proposta é o cessar das hostilidades, o início rápido de negociações de paz, a proteção de alvos não militares, a segurança das rotas marítimas e a defesa da primazia da Carta da ONU. O jornal afirma ainda que essa iniciativa é aberta e conclama mais países e organizações internacionais a aderirem de forma positiva.

A conclusão do texto é inequívoca: a normalização da navegação no Estreito de Ormuz depende do esfriamento do conflito, e não de sua ampliação. Na formulação do editorial, somente o apagamento das chamas da guerra poderá iluminar novamente as rotas marítimas, e apenas a escolha pela paz poderá assegurar prosperidade. Trata-se, segundo o Global Times, de uma lição repetidamente comprovada pela história e da única via viável para superar o atual impasse no Estreito de Ormuz.

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