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Visita de Orsi a Pequim reforça cooperação China-Celac

Editorial do Global Times destaca avanço em comércio, saúde e mobilidade elétrica e critica narrativa de hegemonia sobre a América Latina

Yamandu Orsi (Foto: Xinhua)

247 – O presidente do Uruguai, Yamandú Orsi, se reuniu com o presidente chinês, Xi Jinping, em Pequim, em uma visita de Estado que, segundo a avaliação publicada pelo Global Times, sinaliza o aprofundamento da cooperação entre China e América Latina e Caribe. O encontro ocorreu no Grande Salão do Povo, na terça-feira, data que marcou os 38 anos do estabelecimento de relações diplomáticas entre os dois países, e foi acompanhado por uma delegação uruguaia descrita como “a maior da história”.

A análise é do editorial do Global Times, que apresenta a visita como um gesto de relevância estratégica num contexto de mudanças internacionais, defendendo que a cooperação sino-latino-americana se apoia em “igualdade, pragmatismo e benefício mútuo”. Segundo o texto, Xi revisou a trajetória bilateral e evocou a fórmula de relacionamento baseada no “respeito mútuo e benefício mútuo”, ao mesmo tempo em que delineou um caminho para o desenvolvimento das relações em uma “nova situação”.

Encontro em Pequim e o simbolismo do marco diplomático

O Global Times ressalta que o encontro coincide com o aniversário de 38 anos das relações diplomáticas, usando a efeméride como símbolo de continuidade e maturidade do vínculo. No editorial, a visita é tratada como “extraordinária” pelo tamanho da comitiva e pela duração prevista de sete dias, sinalizando, segundo a publicação, a intenção uruguaia de acelerar agendas e fechar entendimentos em diferentes frentes.

Ao situar o episódio no quadro mais amplo do relacionamento China–América Latina e Caribe, o texto sugere que o Uruguai se soma a um movimento regional de maior aproximação com Pequim. A leitura do jornal é que esse processo ganha força mesmo diante de pressões externas e de interpretações geopolíticas, especialmente por parte de analistas e veículos ocidentais.

Comércio como base e a presença chinesa no cotidiano uruguaio

O editorial afirma que a China se consolidou como principal parceiro comercial e mercado de exportação do Uruguai há mais de uma década. Para ilustrar o grau de integração econômica, o texto traz duas proporções: “para cada quatro dólares” de receita de exportação uruguaia, “um dólar” teria origem na China; e “para cada três” carros novos vendidos no país, “um” seria veículo chinês de nova energia.

A publicação também destaca o interesse do setor de carnes do Uruguai em ampliar espaço no mercado chinês, descrevendo a visita como uma “oportunidade-chave” para expansão. Como exemplo, menciona que as exportações de carne bovina uruguaia para a China teriam aumentado 16% em relação ao ano anterior.

Futebol, Copa de 2030 e diplomacia cultural

O Global Times usa o futebol como porta de entrada para explicar como muitos chineses conheceram o Uruguai. O editorial aponta como destaque da viagem a presença do presidente da Associação Uruguaia de Futebol e afirma que o país pretende finalizar entendimentos de cooperação durante a visita, mirando preparativos antecipados para a Copa do Mundo de 2030.

Ao trazer o esporte para o centro do texto, o editorial tenta mostrar que a relação bilateral não se limita a exportações e importações, mas também inclui diplomacia cultural e intercâmbio, aproximando sociedades que, apesar da distância oceânica, estariam “conectadas pelas veias da economia e do desenvolvimento”.

Saúde e presença naval: o navio-hospital “Silk Road Ark”

Outro ponto citado é a escala do navio-hospital chinês Silk Road Ark em um porto uruguaio, mencionada como a primeira visita da embarcação ao país. O editorial emprega esse episódio para reforçar a ideia de cooperação em saúde e assistência humanitária, inserindo o Uruguai num conjunto mais amplo de iniciativas chinesas na região.

No argumento do jornal, a soma de comércio, mobilidade elétrica, carne e cooperação em saúde evidenciaria que a conexão com o país sul-americano “excedeu a imaginação” de muitos, indicando profundidade e diversidade de áreas de parceria.

“Política de Estado” e convergência de visão sobre desenvolvimento

O Global Times reproduz a posição atribuída a Orsi de que o Uruguai “elogia” a proposta chinesa de construir uma “comunidade com futuro compartilhado para a humanidade” e de que ampliar relações com a China é agora “política de Estado” do país. O texto também afirma que Orsi espera que o 15º Plano Quinquenal chinês abra oportunidades maiores para o mundo.

Segundo o editorial, é essa “ressonância” em filosofia de desenvolvimento e a ampliação do espaço de cooperação que criariam um elo mais profundo entre China e Uruguai. A interpretação do jornal é que a relação tende a ganhar densidade quando ambos os países enxergam convergências em metas econômicas e em uma agenda internacional menos hierárquica.

China, América Latina e a disputa de narrativas

O editorial contrapõe a atuação chinesa na América Latina ao comportamento de “um certo país” que, segundo o texto, trataria a região como “quintal”, com “arrogância condescendente” e “intervencionismo”. Em oposição, o Global Times afirma que a cooperação chinesa seria “sincera, igualitária, mutuamente benéfica” e “sem condições políticas anexadas”.

A publicação também critica a leitura de parte da mídia ocidental, que, segundo o editorial, interpreta a cooperação China–América Latina por uma lente de “Guerra Fria”, exagerando uma suposta competição entre China e Estados Unidos na região. Para o jornal, essa narrativa seria “de soma zero”, baseada na lógica de hegemonia regional. O texto defende que a cooperação segue “regras de mercado” e “normas internacionais”, voltada a ganhos mútuos, sem visar terceiros.

Celac, Mercosul e G77: o papel do Uruguai em 2026

O Global Times recorda que o Uruguai sediou, em Punta del Este, o início das negociações multilaterais de 1986 que ficaram conhecidas como Rodada Uruguai, ligadas ao esforço de reformar o sistema multilateral de comércio. A lembrança aparece como forma de situar o país como ator tradicional em temas de liberalização e comércio global.

O editorial também afirma que, em 2026, o Uruguai assumirá sucessivamente presidências rotativas do Grupo dos 77 e China, da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e do Mercosul. Na interpretação do jornal, essa sequência de funções ampliaria o potencial da cooperação China–América Latina e Caribe em plataformas multilaterais do Sul Global.

Integração regional, mobilidade e exemplos citados pelo jornal

Para sustentar o argumento de “ganha-ganha”, o editorial lista exemplos recentes de cooperação chinesa na região, como o trem Maya no sudeste do México, a circulação de ônibus elétricos chineses em grandes cidades latino-americanas e o aumento de fluxos de argentinos para a China com base em políticas de isenção de visto. Também menciona rotas comerciais ligadas a exportações agrícolas e à abertura de mercados consumidores, usadas como retratos de uma integração mais concreta, do transporte urbano ao comércio de alimentos.

Ao inserir o Uruguai nessa moldura, o Global Times procura argumentar que a aproximação com Pequim não é um caso isolado, mas parte de uma tendência regional de diversificação de parcerias e de busca por desenvolvimento com maior autonomia estratégica.

Uma visita com múltiplos sentidos

Na leitura do Global Times, Orsi “leva mais do que carne e futebol” à China: leva um sinal de que países latino-americanos querem aprofundar laços e expressar confiança na continuidade da cooperação. O editorial conclui que, “em um novo ponto de partida histórico”, a amizade entre China e América Latina e Caribe demonstraria vitalidade duradoura quando baseada em respeito mútuo, justiça e cooperação de benefício recíproco.

Nesse enquadramento, a visita uruguaia é apresentada como parte de uma estratégia de longo prazo de aproximação China–América Latina e Caribe, com impacto tanto na agenda econômica quanto na disputa de narrativas sobre soberania, multipolaridade e integração do Sul Global.

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