Xangai acelera aposta em indústrias do futuro e reforça ambiente de negócios de classe mundial
Conferência global de investimentos apresenta novas plataformas públicas e projetos industriais em sintonia com o novo plano de desenvolvimento da China
247 – Xangai reforçou sua estratégia de se consolidar como um ambiente de negócios de classe mundial ao sediar, em 14 de março, a Conferência Global de Promoção de Investimentos de Xangai 2026, em um movimento alinhado ao novo plano quinquenal de desenvolvimento aprovado pela China na semana anterior. A iniciativa sinaliza estabilidade para investidores e fortalece a mensagem de que o país pretende avançar de forma decisiva nas indústrias emergentes e nas tecnologias do futuro.
Segundo reportagem publicada pelo Global Times, a conferência reuniu uma sessão principal de promoção, duas mesas-redondas empresariais, múltiplos encontros de negócios, eventos temáticos de investimento e uma série de atividades da semana “Invest in Shanghai”, em uma demonstração clara de que a metrópole chinesa quer aprofundar sua posição como polo estratégico para capital nacional e estrangeiro.
No centro dessa ofensiva está a tentativa de remover gargalos que ainda limitam o crescimento empresarial e a transformação tecnológica. Durante a conferência, Xangai apresentou 31 novos vetores de qualidade voltados precisamente para entraves no desenvolvimento das empresas. Entre as medidas anunciadas estão 11 plataformas de serviço público, incluindo uma destinada à coordenação de capacidade computacional, com o objetivo de enfrentar fatores críticos de produção e bloqueios nas cadeias industriais.
A cidade também destacou 10 plataformas de testes em escala piloto para enfrentar um dos maiores desafios da inovação global: a travessia do chamado “Vale da Morte”, estágio em que muitas tecnologias promissoras não conseguem sair do laboratório e alcançar viabilidade comercial. Entre essas iniciativas, está a primeira plataforma-piloto do mundo voltada a componentes de robôs humanoides.
A estratégia de Xangai não se limita à infraestrutura de apoio. Aproveitando sua condição de megacidade, o município apresentou ainda 10 cenários de aplicação considerados exemplares em áreas como inteligência artificial incorporada, direção autônoma e economia de baixa altitude. O objetivo é transformar a cidade em vitrine de uso prático para setores que devem definir a próxima etapa da competição tecnológica global.
Essa movimentação local ocorre em sintonia com a diretriz nacional anunciada por Zheng Shanjie, chefe da Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma, à margem da quarta sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional. De acordo com ele, a China concentrará esforços no desenvolvimento de seis indústrias emergentes de base e seis indústrias orientadas ao futuro.
As indústrias emergentes de base incluem circuitos integrados, aeroespacial, biomedicina, economia de baixa altitude, novos sistemas de armazenamento de energia e robôs inteligentes. Já as indústrias do futuro abrangem tecnologia quântica, biofabricação, hidrogênio verde e energia de fusão nuclear, interfaces cérebro-computador, inteligência incorporada e 6G.
O que a conferência mostrou, na prática, é que grandes empresas já se movimentam para garantir espaço nesse novo ciclo. Mesmo em um contexto internacional marcado por incertezas, companhias chinesas e estrangeiras vêm ampliando seus compromissos com Xangai, apostando que a cidade continuará sendo um dos epicentros da reestruturação produtiva e tecnológica da China.
Martin Fischer, presidente e CEO da Zeiss Greater China, afirmou que a China está liderando o progresso tecnológico em vários campos e destacou a combinação entre inovação e talento qualificado como fator de atração para a empresa. Segundo ele, Xangai abrirá novas oportunidades de desenvolvimento para a companhia em áreas como saúde, inteligência artificial e manufatura avançada.
Fischer ressaltou ainda a importância do mercado chinês para a multinacional. Segundo ele, a China se tornou o maior mercado global da Zeiss. Em fevereiro, a empresa iniciou antes do previsto a construção de seu campus integrado para a sede da Grande China em Xangai, com investimento total de 1,2 bilhão de yuans, cerca de US$ 174,17 milhões. O executivo afirmou que o projeto representa o maior investimento em infraestrutura da Zeiss na China até hoje.
No caso da Carrier Global Corporation, empresa estrangeira com forte presença histórica em Xangai, o principal fator de atração está na disposição da cidade em compartilhar, de forma aberta, cenários concretos de aplicação industrial e tecnológica. A reportagem destaca que o plano mais recente de Xangai propõe “implantar novos tipos de infraestrutura, como capacidade computacional, de maneira prudentemente proativa”, o que abriu novas oportunidades de mercado para a companhia.
Em janeiro, o Projeto Phoenix da Carrier, uma nova linha de produção de unidades resfriadas a ar, entrou oficialmente em operação na base da empresa em Baoshan, distrito de Xangai, com investimento superior a 100 milhões de yuans. A nova linha integra profundamente tecnologias de inteligência artificial, digitalização e automação, permitindo um aumento de aproximadamente 33% na capacidade produtiva em comparação com o período anterior à modernização.
Outro setor acompanhado de perto é o de robôs humanoides, que ganhou destaque especial na conferência. Hou Zongfang, vice-presidente da desenvolvedora UBTECH, afirmou que Xangai possui vantagem estratégica clara por funcionar como centro da integração do Delta do Rio Yangtzé, região onde se concentra a maior parte da cadeia de suprimentos de padrão automotivo. Segundo ele, a empresa avalia investir em uma base de manufatura inteligente para robôs humanoides comerciais em Xangai, ao mesmo tempo em que planeja instalar um instituto voltado a aplicações industriais de inteligência incorporada.
A presença crescente de empresas ligadas à convergência entre inteligência artificial, semicondutores e biomedicina também foi enfatizada. A Shanghai Smartlogic Technology Ltd., unicórnio de alta tecnologia sediado em Xangai, atua no segmento de AI for Science, ou AI4S. O presidente da companhia, Zha Hao, afirmou que o ecossistema industrial abrangente da cidade nas áreas de inteligência artificial e biomedicina funciona como o “solo ideal” para o crescimento da empresa.
Em uma das declarações destacadas pela reportagem, Zha afirmou: “Atuamos como uma ‘fábrica de dados científicos’, fornecendo dados de alta qualidade para as instituições de pesquisa e startups de tecnologia de Xangai. Isso ajuda a acelerar o surgimento de modelos científicos mais precisos e de avanços biomédicos mais originais neste terreno fértil de inovação”.
O discurso de confiança também apareceu no setor de novos materiais energéticos. Fang Zhenying, presidente da Youxing Shark (Shanghai) Technology Co., Ltd., empresa dedicada a materiais-chave para nova energia, afirmou: “Nos próximos cinco anos, investiremos 1 bilhão de yuans em Xangai para construir uma fábrica inteligente com capacidade de produção anual superior a 300 mil toneladas, bem como um centro global de P&D, para o desenvolvimento e a produção de novos produtos de energia e de inteligência incorporada”.
Fang acrescentou que o ambiente de negócios favorável de Xangai deverá ampliar ainda mais a competitividade abrangente da companhia, criando bases para um desenvolvimento mais sustentável. A fala reforça uma percepção recorrente entre os empresários ouvidos na conferência: a de que a cidade não oferece apenas incentivos, mas um ecossistema articulado entre infraestrutura, inovação, serviços públicos e demanda tecnológica.
Em um horizonte ainda mais avançado, o setor de fusão nuclear controlada também aparece como parte relevante da corrida tecnológica em curso. Chen Rui, CEO da Startorus Fusion, afirmou que Xangai vem perseguindo múltiplas rotas tecnológicas no campo da fusão nuclear controlável. Segundo ele, a decisão da empresa de se instalar na cidade se baseia não apenas em condições práticas, mas também em um cálculo estratégico voltado à futura competição tecnológica.
Os números da economia industrial de Xangai ajudam a explicar esse ambiente de confiança. Dados da Comissão Municipal de Economia e Informatização mostram que, em 2025, o investimento industrial da cidade cresceu 20% na comparação anual, enquanto o investimento em manufatura avançou 22,8%. Os indicadores sugerem que a cidade não está apenas formulando planos ambiciosos, mas já vive um ciclo de aceleração concreta na capacidade produtiva.
Tang Wenkan, diretor da comissão, afirmou que o governo municipal seguirá aperfeiçoando os instrumentos de apoio à indústria. Em sua declaração, ele disse: “Em linha com as necessidades do desenvolvimento industrial, continuaremos a iterar e otimizar nossa lista de elementos-chave para acelerar a criação de um ecossistema industrial mais competitivo”.
A mensagem política e econômica que emerge da conferência é direta: Xangai quer ocupar posição central na transição chinesa para uma economia mais intensiva em tecnologia, inovação e produção de alto valor agregado. Com o respaldo das estratégias nacionais e a mobilização de empresas de diferentes setores, a cidade procura se firmar não apenas como destino de investimentos, mas como laboratório real da nova etapa do desenvolvimento chinês.
Ao apostar simultaneamente em plataformas públicas, infraestrutura digital, testes-piloto, inteligência artificial, robótica, biomedicina, energia e fusão nuclear, Xangai apresenta uma síntese da visão de futuro defendida por Pequim. Em vez de esperar a consolidação dos mercados, a cidade busca antecipar tendências, moldar cadeias produtivas e ocupar desde já os espaços decisivos da próxima revolução industrial.



