Capital estrangeiro volta-se para a setor de alta tecnologia da China com lançamento de novo plano quinquenal
A aposta no setor tecnológico chinês compreende diversos setores
247 - Com o novo plano quinquenal da China abrindo novas oportunidades comerciais impulsionadas pela inovação tecnológica e pela modernização industrial, o capital estrangeiro está se reposicionando para uma nova onda de investimentos nos setores emergentes do país, informou o Diário do Povo nesta quinta-feira (19).
O esboço do 15º Plano Quinquenal, divulgado na semana passada, incentiva o direcionamento do investimento estrangeiro para manufatura avançada, serviços modernos, indústrias de alta tecnologia, conservação de energia e proteção ambiental — medida que integra o esforço mais amplo do país para ampliar uma “abertura de alto padrão”.
Na última quarta-feira, a gigante farmacêutica norte-americana Eli Lilly anunciou planos de investir US$ 3 bilhões ao longo da próxima década para ampliar sua cadeia de suprimentos e capacidade de manufatura na China, incluindo a produção local em larga escala de um medicamento oral inovador.
Huzur Devletsah, vice-presidente da Lilly e gerente-geral da empresa na China, afirmou que a companhia expandirá a capacidade produtiva de sua unidade existente em Suzhou, na província de Jiangsu, além de ampliar investimentos em Pequim para adicionar capacidade de fabricação de medicamentos sólidos orais.
Desde o início de 2026, um número crescente de multinacionais tem respondido à nova ênfase chinesa em atrair investimentos estrangeiros com maior valor tecnológico agregado.
Entre elas, a farmacêutica britânica AstraZeneca comprometeu-se a investir US$ 15 bilhões no país até 2030 para expandir suas instalações de produção e pesquisa e desenvolvimento.
Nos últimos dois anos, Xangai e Pequim passaram a abrigar dois centros estratégicos globais de pesquisa da AstraZeneca. Empresas como Pfizer e Bayer também estabeleceram centros de inovação na China.
Agora, o objetivo de “atrair vigorosamente empresas estrangeiras para estabelecer sedes regionais e centros de inovação na China” foi incorporado oficialmente ao plano quinquenal nacional.
O setor biofarmacêutico chinês se destaca especialmente ao passar de “seguidor” para “fonte” de inovação, afirmou Zhou Xiaolan, vice-presidente executiva da divisão farmacêutica da Bayer AG, em entrevista à Xinhua. A Bayer pretende investir 750 milhões de yuans (cerca de US$ 109 milhões) em um novo projeto em Qidong, no leste da China, previsto para 2028.
“Investir para pacientes na China também significa investir em inovação, manufatura e exportação desses medicamentos para o resto do mundo”, disse o CEO da AstraZeneca, Pascal Soriot. Dados oficiais mostram que os acordos internacionais de licenciamento de medicamentos inovadores chineses superaram US$ 130 bilhões em valor total em 2025, um recorde histórico.
A aposta no setor tecnológico chinês vai além da biofarmacêutica. A fabricante sul-coreana de equipamentos semicondutores STI assinou em fevereiro um acordo para construir uma base inteligente de fabricação de semicondutores de potência em Guangzhou, polo tecnológico no sul do país. Os substratos cerâmicos produzidos serão utilizados em veículos de nova energia e redes elétricas inteligentes, com operações previstas para começar até o fim do ano.
Uma gigante internacional do setor de pneus também já inaugurou uma fábrica intensiva em tecnologia para acompanhar a transformação tecnológica chinesa. Em janeiro, o grupo Michelin inaugurou em Xangai sua primeira “fábrica do futuro” global, com investimento total de 3 bilhões de yuans. A nova planta conta com sistemas avançados e flexíveis de produção voltados ao crescente mercado chinês de veículos de nova energia.
Recalibração, não retirada
Dados oficiais do Ministério do Comércio da China mostram que 70.392 empresas com investimento estrangeiro foram abertas no país em 2025, alta anual de 19,1%. O ritmo continuou em 2026, com 5.306 novas empresas estrangeiras registradas apenas em janeiro, aumento de 25,5% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O crescimento foi especialmente forte nos setores de alta tecnologia, com o capital estrangeiro efetivamente utilizado em serviços de pesquisa, desenvolvimento e design saltando 175,1% no primeiro mês de 2026 em comparação anual.
Apesar de desafios causados pela desaceleração do investimento global e por tensões geopolíticas, os fluxos totais de capital estrangeiro para a China registraram retração. Ainda assim, sob essa volatilidade ocorre uma transformação estrutural robusta: o investimento em alta tecnologia está crescendo, sinalizando a transição da manufatura intensiva em mão de obra para atividades de maior valor agregado em P&D, além da entrada acelerada de pequenas empresas estrangeiras e startups.
A China vive uma “transição do crescimento a qualquer custo para a modernização industrial”, afirmou Shirley Yinghua Shen, líder de política tributária para a Grande China da Ernst & Young Advisory Limited. Segundo ela, o foco deixou de ser apenas atrair capital e passou a integrar tecnologia estrangeira às novas forças produtivas de qualidade do país.
“Com o início oficial do 15º Plano Quinquenal, a comunidade de investimentos busca continuidade estratégica”, acrescentou.
Jiang Liqin, sócio-gerente da KPMG China, afirmou à Xinhua que, em meio às tendências de “desglobalização”, a política chinesa de abertura de alto padrão funciona tanto como estratégia para lidar com riscos quanto como motor central do crescimento econômico de alta qualidade.
O ministro do Comércio da China, Wang Wentao, declarou recentemente que o país não é apenas um mercado onde empresas estrangeiras obtêm lucros, mas também uma espécie de “academia” onde elas fortalecem sua competitividade por meio da concorrência justa com empresas locais.
Essa visão é compartilhada por Denis Depoux, diretor-geral global da consultoria Roland Berger, que considera a China não apenas um grande mercado, mas “cada vez mais um espaço essencial para aprimorar a competitividade global”.
O novo plano quinquenal também promete maior facilidade para que capital estrangeiro realize investimentos em participações societárias e capital de risco na China, ampliando o acesso aos mercados financeiros do país.
Na última sexta-feira, a startup de interface cérebro-computador StairMed concluiu uma rodada estratégica de financiamento de 500 milhões de yuans, parcialmente apoiada pela LAV, braço de venture capital corporativo da Eli Lilly, enquanto a empresa de Xangai se prepara para testes neste ano de seu sistema implantável sem fio de 256 canais — tecnologia classificada como indústria do futuro no relatório de trabalho do governo chinês.
Nos últimos meses, gigantes financeiros como JPMorgan, UBS e BlackRock vêm aumentando gradualmente suas participações em ações tecnológicas chinesas por meio dos mercados globais de capitais.
“Empresas chinesas demonstram inovação dinâmica em inteligência artificial, manufatura avançada, semicondutores e novas energias — remodelando a percepção global dos investidores sobre ativos chineses”, afirmou Janice Hu, presidente da UBS Securities.
Cada vez mais investidores globais reconhecem que, à medida que o novo plano quinquenal avança, a questão já não é se devem estar na China, mas quão profunda e rapidamente devem se integrar e se beneficiar de seu ecossistema de inovação.



