EUA agora tratam aliados como subordinados, diz analista geopolítico Jiang Xueqin
Entrevista ao professor Glenn Diesen aponta fim da ordem ocidental e ascensão de rivalidades que podem reconfigurar o sistema global
247 – Em entrevista ao professor Glenn Diesen, o analista geopolítico Jiang Xueqin afirmou que os Estados Unidos passaram a tratar seus aliados como subordinados e a priorizar seus próprios interesses de forma mais agressiva, em detrimento de uma ordem internacional multilateral construída no pós-guerra. Jiang avalia que esse movimento coincide com a ascensão da China e representa uma ruptura profunda na arquitetura de poder que orientou as relações entre as grandes potências nas últimas décadas.
Segundo o analista, o panorama internacional atual está marcado por uma redistribuição de poder que desafia o domínio ocidental e cria tensões que vão muito além das disputas tradicionais entre Estados: trata-se de um confronto entre dois modelos de ordem global, que ele descreve como um baseado em cooperação multilateral e outro centrado no uso da coerção estratégica pelos Estados Unidos.
O fim do “consenso” ocidental e uma nova fase de rivalidade
Jiang afirma que a ordem de consenso que predominou desde 1945 era sustentada por um grupo de elites com valores compartilhados e que, por muito tempo, conseguiu esconder profundas disparidades de poder e interesses. Para ele, esse consenso desmancha-se justamente quando os Estados Unidos passaram a encarar uma potência rival de grande escala — a China — que cresce de forma rápida e, até então, pacífica.
Nessa nova fase, afirma Jiang, os EUA abandonaram o foco na construção de consenso e passaram a priorizar a defesa de seus interesses, mesmo que isso signifique pressionar aliados e tratar países parceiros como subordinados a sua estratégia.
Aliados como “vassalos” e a disputa por uma nova ordem global
O analista sustenta que, diante da emergência de uma alternativa chinesa que apela à reciprocidade e à cooperação multilateral, os Estados Unidos reorientaram sua política externa para reforçar sua primazia. Para Jiang, essa mudança de postura afeta não apenas os ajustes estratégicos entre grandes potências, mas também a dinâmica interna das relações entre aliados tradicionais, com os Estados Unidos impondo condições e exigências para manter a cooperação.
Segundo sua análise, isso estaria empurrando potências médias e europeias a reavaliar sua posição no sistema internacional e buscar novos mecanismos de alinhamento que não estejam subordinados às prioridades de Washington.
Trump e a reconfiguração política na Europa
Na entrevista, Jiang aponta o papel do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um catalisador dessa transformação. Para ele, Trump se destaca como um outsider que rejeita os mecanismos e valores tradicionais das elites políticas, buscando remodelar alianças e pressionar líderes europeus a adotar uma postura mais alinhada à sua visão e interesses pessoais.
Jiang argumenta que essa estratégia não significa um afastamento da Europa, mas uma tentativa de remodelar o cenário político do continente, incentivando forças e lideranças que se alinhem mais estreitamente com as prioridades definidas por Washington.
Crise interna e a perda de legitimidade no Ocidente
O analista relaciona essas mudanças externas à crise interna das sociedades ocidentais, marcada pela concentração de riqueza, desconexão entre elites e população e o distanciamento das instituições políticas das demandas populares. Para Jiang, essa crise de legitimidade interna cria um terreno fértil para líderes mais autoritários e polarizadores, que exploram as frustrações sociais em vez de buscar soluções cooperativas.
Ele critica a chamada meritocracia política e acadêmica, afirmando que ela produziu uma elite homogênea e desconectada dos problemas da maioria da população, incapaz de responder às transformações profundas do sistema internacional.
Rivalidade global, protecionismo e desafios futuros
O analista afirma que a atual transição global poderá resultar em maior fragmentação das relações internacionais, competição aberta entre grandes potências e um movimento de retração do comércio global em favor de políticas protecionistas. Ele alerta que, sem um novo consenso ou um quadro de cooperação organizado, o mundo pode se mover para um padrão de conflitos regionais, alianças fluidas e competição estratégica acirrada.
Limitações do “século asiático” e fragilidades estruturais
Embora reconheça os avanços econômicos e educacionais de países asiáticos como China, Japão e Coreia do Sul, Jiang diz não acreditar em um “século asiático” incontestável. Ele aponta desafios demográficos, desequilíbrios sociais, fragilidades econômicas e rivalidades históricas como fatores que dificultam a consolidação de uma liderança regional coesa capaz de substituir o papel ocidental sem enfrentar suas próprias limitações internas.
Além da geopolítica: uma crise de valores
Na parte final da entrevista, Jiang amplia a análise para uma crítica ao modelo econômico dominante, ao consumo exacerbado e à alienação social que, segundo ele, caracterizam grande parte das sociedades modernas. Para ele, essas dinâmicas internas, que alimentam desigualdades e erosionam laços comunitários, acabam por refletir e reforçar a instabilidade política e geopolítica no cenário global.
Jiang defende que, sem um debate profundo sobre valores sociais, propósito coletivo e reconstrução de vínculos comunitários, as tensões externas entre grandes potências podem ser apenas um sintoma de uma crise muito mais ampla que afeta a estrutura das sociedades e instituições em todo o mundo.

