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Pepe Escobar diz que Trump usa acordo com o Irã para ganhar tempo

No programa Pepe Café, analista geopolítico afirma que memorando entre Washington e Teerã não representa paz duradoura

Pepe Escobar, Trump e Pezeskhian (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, assinado de forma remota por Teerã e por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, em Versalhes, é visto por Pepe Escobar não como um acordo de paz sólido, mas como uma manobra norte-americana para ganhar tempo, estabilizar mercados e reorganizar a posição de Washington no Oeste da Ásia.

A análise foi feita por Pepe Escobar no programa Pepe Café, publicado no YouTube sob o título "Por que 'O Chefe' não vai respeitar o acordo com o Irã". Na transcrição, o jornalista sustenta que o documento não altera a lógica estratégica dos Estados Unidos nem elimina o risco de retomada da guerra contra o Irã. Segundo ele, "não é que Trump esteja realmente assinando o memorando de entendimento. O que ele está assinando, basicamente, é um jogo para ganhar tempo".

Para Escobar, o memorando deve ser compreendido dentro de um quadro geopolítico mais amplo, que envolve a guerra contra o Irã, a disputa pelo controle do Oeste da Ásia, a integração da Eurásia, o papel dos BRICS e a aliança estratégica entre Rússia e China. Em sua avaliação, Washington busca administrar uma derrota estratégica sem abrir mão de seus objetivos de longo prazo na região.

Memorando teria duas etapas de negociação

Segundo Pepe Escobar, o memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã teria sido construído em duas fases. A primeira, de 30 dias, envolveria o início das conversações, algum alívio de sanções, a liberação de parte dos bens iranianos confiscados e a normalização do tráfego pelo Estreito de Ormuz.

Ele afirma que o total de recursos iranianos retidos seria de US$ 24 bilhões e que, nessa primeira etapa, estaria previsto o pagamento de metade desse valor. "O total é 24 bilhões de dólares, ou seja, o pagamento de 12 bilhões de dólares nesse primeiro estágio", disse.

Outro ponto central seria o fim do bloqueio aos portos iranianos e a retomada da navegação plena pelo Estreito de Ormuz. Escobar afirma que o tráfego pelo estreito deixaria de funcionar nos mesmos moldes anteriores à guerra, pois haveria a cobrança de taxas administrativas pelo Irã e por Omã.

Segundo ele, "não vai ser pedágio, vai ser taxas administrativas cobradas pelo Irã e vão ser cobradas também por Omã no outro lado do Estreito de Ormuz". O jornalista acrescenta que essa mudança representaria uma nova realidade jurídica e estratégica para a navegação em uma das rotas energéticas mais importantes do mundo.

Bases americanas e reparações estariam no centro da disputa

A segunda etapa, de 60 dias, poderia ser prolongada e incluiria os temas mais sensíveis da negociação. Entre eles, estariam a presença militar dos Estados Unidos no Oeste da Ásia, a discussão sobre recursos financeiros confiscados, eventuais reparações de guerra e a reorganização do sistema de segurança regional.

Pepe Escobar afirma que Teerã defenderia uma nova configuração das bases militares americanas na região. Segundo ele, os iranianos desejariam a retirada total, enquanto os Estados Unidos tentariam preservar posições estratégicas. "Vai ser uma discussão super barra pesada sobre bases americanas no Oeste da Ásia", avaliou.

O analista também destaca a dimensão financeira do conflito. De acordo com a transcrição, o Irã reivindicaria valores relacionados a ativos bloqueados e reparações pelos danos sofridos. "A grana fundamental, follow the money, toda a grana que o Irã quer, porque é sua, foi confiscada pelos americanos", afirmou.

Escobar menciona ainda a cifra de US$ 300 bilhões em reparações de guerra, valor que, segundo ele, estaria no horizonte das reivindicações iranianas. Para o jornalista, esse é um dos pontos que os Estados Unidos dificilmente aceitarão.

Irã emerge como potência regional, diz Escobar

Na avaliação de Pepe Escobar, o resultado da guerra fortaleceu o Irã como potência regional e ampliou sua influência no Sul Global. Ele afirma que Teerã resistiu aos ataques dos Estados Unidos e de Israel por meio de uma estratégia militar descentralizada, coesão interna e apoio popular à defesa da civilização persa-iraniana.

Para o analista, o Irã saiu da guerra em uma posição muito mais forte do que se imaginava meses antes. "O Irã emergindo como a grande potência regional no Oeste da Ásia e uma das grandes potências globais admiradas pelo Sul Global praticamente inteiro", afirmou.

Escobar argumenta que o país não está no mesmo patamar de Estados Unidos, Rússia e China, mas passou a ocupar uma posição de destaque internacional. Ele cita a presença do Irã nos BRICS, na Organização de Cooperação de Xangai e em acordos com a União Econômica Eurasiática como elementos que ampliam seu alcance geopolítico.

Segundo ele, esse novo status torna difícil para Washington admitir a dimensão de sua derrota estratégica. "Os Estados Unidos têm como admitir uma derrota estratégica dessas proporções? Absolutamente impossível", disse.

Trump estaria tentando estabilizar mercados e reorganizar forças

Para Pepe Escobar, a motivação imediata de Trump ao aceitar o memorando é reduzir pressões sobre os mercados globais de energia, especialmente petróleo, e sobre os mercados financeiros. O analista sustenta que a liberação do Estreito de Ormuz seria essencial para conter uma crise mais ampla.

Segundo ele, Trump busca ao mesmo tempo aliviar tensões no curto prazo e preparar os Estados Unidos para uma eventual retomada da guerra no futuro. "Ele tá ganhando tempo ao mesmo tempo que ele está conseguindo mais ou menos acalmar os mercados globais de energia, de petróleo especialmente e os mercados de bônus", afirmou.

Escobar também associa a estratégia ao calendário político norte-americano. Em sua avaliação, Trump tenta evitar um agravamento da situação internacional antes das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos. Ele afirma que uma derrota republicana poderia transformar o governo em um “pato manco” nos anos seguintes.

O jornalista sustenta que o memorando, portanto, não representa uma mudança estrutural de Washington. Em vez disso, seria um expediente para reduzir danos imediatos e manter aberta a possibilidade de novas ações militares ou de desestabilização.

Golfo pressionou contra retomada da guerra, afirma analista

Outro elemento relevante, segundo Pepe Escobar, foi a pressão das monarquias do Golfo para impedir a retomada da guerra contra o Irã. O analista afirma que países da região deixaram claro à administração Trump que não poderiam arcar com as consequências de uma nova escalada militar.

Segundo ele, essa pressão teria ocorrido por meio de mediadores paquistaneses e de contatos diretos envolvendo Qatar e Arábia Saudita. "Nós vamos bloquear tudo que vocês fizeram para retomar essa guerra. Nós não podemos arcar com vocês retomando essa guerra, porque nós vamos estar na frente de batalha", afirmou Escobar, ao descrever a mensagem atribuída às monarquias do Golfo.

O jornalista também menciona uma possível reaproximação entre Abu Dhabi e Teerã, conduzida com mediação paquistanesa. Segundo ele, um avião dos Emirados teria pousado em Teerã com US$ 2 bilhões em dinheiro relativos a fundos iranianos que estavam congelados em Abu Dhabi.

Para Escobar, essa movimentação revela que o equilíbrio regional está sendo redesenhado e que países do Golfo buscam reduzir riscos diante do fortalecimento iraniano.

Pepe Escobar vê resistência da plutocracia americana

Apesar do avanço do memorando, Pepe Escobar afirma que setores poderosos da elite norte-americana não teriam interesse real em um processo de paz com o Irã. Ele cita o complexo político, financeiro, midiático e militar concentrado em Washington, Virgínia, Maryland, Nova York e Wall Street.

Segundo ele, a “plutocracia americana” continuaria comprometida com uma estratégia de longo prazo contra a aliança Rússia-China e contra a integração da Eurásia. Escobar afirma que essa elite veria a guerra como parte de uma tentativa mais ampla de reconfigurar o sistema internacional.

"A plutocracia americana não tem o menor interesse em um processo de paz em relação ao Irã", disse. Para o analista, os Estados Unidos continuarão recorrendo a operações de subversão, ações clandestinas, tentativas de mudança de regime e interferência interna no Irã.

Ele afirma que a assinatura do memorando não encerraria essas práticas. "Nada disso muda, continua", afirmou, ao se referir a operações negras, ações da CIA e tentativas de desestabilização política.

Acordo não quebraria aliança Irã-Rússia-China

Na conclusão de sua análise, Pepe Escobar sustenta que o memorando de entendimento, mesmo assinado remotamente pelo Irã e por Trump em Versalhes, não será capaz de romper a aliança entre Irã, Rússia e China. Para ele, essa é uma das dimensões centrais do conflito atual.

O jornalista afirma que a guerra contra o Irã também deve ser entendida como uma guerra contra os BRICS, contra a integração euroasiática e contra o Sul Global. "Todos esses eram alvos da guerra Estados Unidos, Israel contra o Irã", afirmou.

Escobar avalia que Washington continuará tentando desestabilizar o Oeste da Ásia, mas agora em ritmo mais lento e com maior margem de negação plausível. Segundo ele, o memorando pode reduzir temporariamente a intensidade da ofensiva, mas não altera a estratégia imperial dos Estados Unidos.

Para Pepe Escobar, o Irã seguirá fortalecido pela associação entre soberania e independência. "A luta continua e o Irã está vencendo por uma associação que pode ser conhecida pelo Sul Global, Brasil inclusive, diretamente, sem rodeios: soberania e independência", concluiu.

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