HOME > Ideias

Pesquisadores defendem neoindustrialização da América do Sul para superar décadas de desindustrialização

Verena Hitner e Matías Kulfas propõem estratégia de integração regional baseada em inovação, política industrial e cadeias produtivas compartilhadas

Os caminhos para a neoindustrialização (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
Selo Fonte Preferida no Google do Brasil 247

247 – A América do Sul precisa abandonar definitivamente o paradigma do chamado "regionalismo aberto", que orientou sua estratégia de integração desde os anos 1990, e construir um novo modelo de desenvolvimento baseado na neoindustrialização regional. Essa é a principal conclusão do artigo "Do regionalismo aberto à neoindustrialização regional", assinado pelos pesquisadores Verena Hitner, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), e Matías Kulfas, da Universidade Nacional de San Martín (Argentina), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.

O estudo sustenta que a integração sul-americana precisa deixar de ser orientada prioritariamente pela liberalização comercial e passar a funcionar como uma política industrial em escala regional, articulando investimentos, inovação, infraestrutura e desenvolvimento tecnológico em setores estratégicos. Segundo os autores, somente uma estratégia desse tipo permitirá à região reconstruir sua capacidade produtiva, reduzir vulnerabilidades externas e ocupar posição mais relevante na economia mundial.

O esgotamento do regionalismo aberto

O artigo apresenta uma ampla revisão histórica do desenvolvimento latino-americano desde o pós-guerra. Os pesquisadores recordam que, durante décadas, predominou a visão estruturalista da Cepal, segundo a qual a industrialização era indispensável para superar a condição periférica das economias latino-americanas.

Esse projeto começou a ser desmontado com a crise da dívida externa nos anos 1980 e ganhou novo rumo na década seguinte, quando a maioria dos países adotou reformas liberais inspiradas pelo chamado Consenso de Washington.

Nesse período consolidou-se o conceito de regionalismo aberto, formulado pela própria Cepal em 1994. A prioridade deixou de ser a integração produtiva entre os países da região e passou a ser a abertura comercial e a inserção nas cadeias globais de valor.

Na avaliação dos autores, os resultados foram decepcionantes.

A América do Sul experimentou um processo de desindustrialização precoce, reprimarização de suas economias e perda contínua de capacidades tecnológicas. A participação da indústria de transformação no PIB regional caiu de cerca de 25% em 1980 para menos de 15% em 2014. No Brasil, o recuo foi ainda mais expressivo: de aproximadamente 27% do PIB em 1985 para apenas 11% em 2010.

Segundo o estudo, a região passou a exportar principalmente produtos primários enquanto ampliava sua dependência da importação de bens industriais e tecnologias de maior valor agregado.

Uma nova geopolítica cria oportunidades para a região

Os pesquisadores afirmam que as transformações ocorridas na economia mundial depois da pandemia de covid-19 modificaram profundamente o ambiente internacional.

A reorganização das cadeias globais de suprimentos, as tensões geopolíticas entre Estados Unidos e China, a guerra na Ucrânia e a corrida pela transição energética recolocaram a política industrial no centro das estratégias das grandes potências.

Ao mesmo tempo, surgiram fenômenos como reshoring, nearshoring, friendshoring e powershoring, por meio dos quais governos e empresas procuram aproximar ou diversificar suas cadeias produtivas.

Na avaliação dos autores, esse cenário abre uma oportunidade histórica para a América do Sul.

A região reúne algumas das maiores reservas mundiais de minerais críticos, dispõe de uma das matrizes energéticas mais limpas do planeta e mantém importantes capacidades industriais e científicas que podem servir de base para um novo ciclo de desenvolvimento.

Integração produtiva em vez de simples acordos comerciais

O eixo central do artigo consiste em substituir a lógica do regionalismo aberto por uma estratégia de integração produtiva.

Segundo Hitner e Kulfas, a integração regional deve funcionar como uma verdadeira política industrial compartilhada.

Em vez de concentrar esforços na assinatura de tratados comerciais, os países sul-americanos deveriam coordenar investimentos, políticas tecnológicas, compras públicas, financiamento e desenvolvimento científico em torno de projetos industriais comuns.

Os autores defendem que essa estratégia fortalece simultaneamente a competitividade econômica, a autonomia tecnológica e o poder de negociação internacional da região.

Além disso, afirmam que mecanismos já existentes, como Aladi, Mercosul, Comunidade Andina e outras instituições regionais, poderiam ser atualizados para servir como base dessa nova arquitetura produtiva.

Quatro setores podem liderar a nova industrialização

O estudo identifica quatro áreas consideradas estratégicas para impulsionar essa nova etapa de desenvolvimento regional.

A primeira delas envolve os minerais críticos utilizados na transição energética.

Brasil, Argentina, Chile, Bolívia e Peru concentram enormes reservas de lítio, cobre, níquel, manganês, grafite e terras raras. Segundo os autores, esses recursos somente gerarão desenvolvimento se forem integrados a cadeias industriais capazes de produzir baterias, componentes eletrônicos e equipamentos de alta tecnologia, evitando que a região permaneça apenas como exportadora de matérias-primas.

A segunda prioridade é o setor de energias renováveis.

A pesquisa destaca que Brasil, Argentina, Chile e Uruguai possuem condições excepcionais para construir uma plataforma industrial regional voltada à fabricação de equipamentos eólicos, sistemas de armazenamento de energia, componentes elétricos e tecnologias associadas à transição energética.

A terceira área estratégica é a indústria farmacêutica.

A pandemia evidenciou a elevada dependência externa da América do Sul em vacinas, medicamentos e insumos médicos. Por isso, os pesquisadores defendem a construção de uma cadeia regional capaz de produzir princípios ativos, medicamentos estratégicos, vacinas e equipamentos de saúde, articulando instituições como Fiocruz, Anvisa, ANMAT e universidades da região.

O quarto eixo corresponde à eletromobilidade.

Segundo o artigo, a rápida expansão dos ônibus elétricos e dos veículos movidos a bateria cria oportunidade para integrar a produção regional de baterias, chassis, carrocerias, eletrônica embarcada, softwares e infraestrutura de recarga, aproveitando o grande mercado urbano sul-americano.

Brasil ocupa posição central na estratégia proposta

Embora proponha uma política regional, o estudo reconhece que o Brasil ocupa posição estratégica nesse processo.

Os autores destacam que o país reúne a estrutura industrial mais diversificada da América do Sul, forte capacidade científica, bancos públicos de desenvolvimento como o BNDES, instituições de fomento como a Finep e centros tecnológicos como o Senai-Cimatec.

Também ressaltam iniciativas recentes como a Nova Indústria Brasil, apontando que elas podem servir como plataforma para uma estratégia compartilhada de reindustrialização sul-americana.

Segundo o artigo, o Brasil possui condições de liderar cadeias regionais em diversos segmentos, desde minerais críticos até equipamentos de energia renovável, indústria farmacêutica e eletromobilidade.

Autonomia estratégica como novo paradigma

Ao longo do estudo, Hitner e Kulfas argumentam que a integração regional não deve mais ser concebida apenas como política comercial ou diplomática.

Na visão dos pesquisadores, ela precisa tornar-se uma política de desenvolvimento econômico, baseada em autonomia estratégica, inovação tecnológica e coordenação entre os países.

Eles defendem que a região substitua a simples abertura comercial por políticas industriais orientadas por missões, apoiadas em fundos regionais de inovação, compras públicas coordenadas, harmonização regulatória, financiamento de bancos multilaterais e projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento.

Segundo os autores, a integração produtiva pode transformar a América do Sul em protagonista da transição energética, da indústria da saúde, da produção de tecnologias limpas e da nova economia baseada no conhecimento.

Uma agenda para reconstruir a indústria sul-americana

Nas considerações finais, os pesquisadores afirmam que a integração produtiva deixou de ser apenas uma opção e tornou-se uma necessidade estratégica diante das transformações da economia mundial.

Para eles, a região precisa abandonar definitivamente o paradigma do regionalismo aberto e construir uma política industrial regional baseada em projetos concretos, cadeias de valor compartilhadas, desenvolvimento tecnológico e cooperação científica.

A conclusão do estudo é que a América do Sul dispõe de recursos naturais, capacidade científica, infraestrutura industrial e mercado suficiente para inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento. O principal desafio passa a ser político: coordenar governos, empresas, universidades e instituições financeiras em torno de uma estratégia comum capaz de transformar a riqueza natural da região em conhecimento, inovação, empregos qualificados e maior autonomia econômica diante das grandes potências.

Artigos Relacionados