200 anos do Congresso Anfictiônico: por que o sonho de Bolívar volta ao centro do debate em um mundo fragmentado
Bicentenário da histórica reunião do Panamá coincide com a crise da ordem internacional e inspira debates sobre integração regional e multipolaridade
247 – Há 200 anos, em 22 de junho de 1826, representantes das recém-independentes repúblicas latino-americanas reuniam-se na Cidade do Panamá para participar de um encontro que marcaria profundamente a história política do continente. Convocado por Simón Bolívar, o Congresso Anfictiônico do Panamá representou a primeira tentativa concreta de construir uma comunidade de nações latino-americanas capaz de atuar de forma coordenada diante das grandes potências mundiais. Dois séculos depois, em um cenário internacional marcado por guerras, disputas geopolíticas, protecionismo, crise do multilateralismo e reorganização da ordem global, a discussão proposta por Bolívar reaparece com impressionante atualidade.
O bicentenário do Congresso do Panamá está sendo celebrado em diversos países da região ao longo de 2026. Mais do que uma homenagem histórica, as comemorações refletem uma percepção crescente de que os desafios contemporâneos exigem respostas coletivas e novas formas de cooperação regional. A questão que mobilizava Bolívar em 1826 continua presente: como garantir soberania, desenvolvimento e autonomia política em um sistema internacional dominado por grandes centros de poder?
O projeto mais ambicioso da independência latino-americana
Após as guerras de independência contra a Espanha, Bolívar compreendia que a emancipação política não seria suficiente para garantir a sobrevivência das novas repúblicas. A fragmentação do continente poderia abrir espaço para novas formas de dominação econômica, militar ou diplomática.
Sua proposta era ousada. O Congresso Anfictiônico buscava criar uma liga permanente entre os países latino-americanos, com mecanismos de consulta política, defesa comum e coordenação diplomática. Inspirado nas antigas ligas anfictiônicas da Grécia clássica, Bolívar imaginava uma espécie de comunidade política latino-americana capaz de atuar como um polo autônomo no cenário internacional.
O projeto acabou derrotado por rivalidades internas, divergências políticas e interesses nacionais conflitantes. O tratado produzido pelo Congresso jamais foi plenamente implementado. No entanto, a ideia de integração regional sobreviveu ao fracasso institucional e atravessou dois séculos de história.
O mundo de 2026 e a atualidade de Bolívar
A coincidência histórica chama atenção. O bicentenário ocorre justamente quando o sistema internacional atravessa uma de suas maiores transformações desde o fim da Guerra Fria.
A guerra na Ucrânia, os conflitos no Oriente Médio, a crescente disputa entre Estados Unidos e China, as tensões comerciais, a corrida tecnológica e os desafios climáticos evidenciam a fragilidade dos mecanismos tradicionais de governança global.
Ao mesmo tempo, o chamado Sul Global amplia sua influência. Países emergentes reivindicam maior participação nas decisões internacionais e defendem uma ordem multipolar, menos concentrada nas estruturas criadas após a Segunda Guerra Mundial.
Nesse contexto, a integração regional volta a ser vista como instrumento estratégico para ampliar a capacidade de negociação dos países latino-americanos em áreas fundamentais como energia, infraestrutura, segurança alimentar, transição ecológica, inteligência artificial, minerais críticos e financiamento ao desenvolvimento.
O Ipea coloca a integração regional no centro do debate
A relevância contemporânea do tema pode ser medida por um evento promovido nesta quarta-feira (24) pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), em Brasília.
A instituição realiza o Seminário Internacional de Lançamento da Revista Tempo do Mundo nº 40, coordenada pelo pesquisador Pedro Silva Barros, dedicada ao tema “O Tempo da Integração Regional em um Mundo Fragmentado”, reunindo acadêmicos, diplomatas e formuladores de políticas públicas para discutir os desafios da integração latino-americana diante da nova configuração geopolítica mundial.
A programação inclui uma conferência do ex-presidente colombiano Ernesto Samper, que também foi secretário-geral da União de Nações Sul-Americanas (Unasul), além da participação da presidenta do Ipea, Luciana Servo, de representantes do Ministério das Relações Exteriores, do BNDES e da FLACSO.
O próprio Ipea destaca que a edição especial da revista foi concebida justamente para dialogar com os 200 anos do Congresso do Panamá. Segundo a instituição, o objetivo é refletir sobre os desafios e oportunidades da integração sul-americana diante do enfraquecimento do multilateralismo e da crescente fragmentação política internacional.
Da integração latino-americana à multipolaridade
A agenda debatida no seminário dialoga diretamente com temas centrais da política internacional contemporânea.
Ao longo dos últimos anos, iniciativas como os BRICS, a Celac e os mecanismos de cooperação Sul-Sul vêm ganhando relevância. O fortalecimento das relações entre América Latina, China, África e Ásia reflete uma busca crescente por alternativas à dependência histórica dos centros tradicionais de poder.
Não por acaso, o seminário do Ipea também inclui o lançamento do livro China, América Latina e Caribe no Novo Reordenamento Global, reforçando a conexão entre integração regional e as transformações da economia mundial.
A discussão não é apenas acadêmica. Ela envolve questões concretas como financiamento de infraestrutura, corredores logísticos, integração energética, cadeias produtivas regionais, desenvolvimento tecnológico e cooperação ambiental.
Lula e o resgate da agenda integracionista
O debate também encontra eco na política externa brasileira. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem defendido reiteradamente o fortalecimento dos mecanismos de integração regional e a construção de uma ordem multipolar mais equilibrada. Em diversos fóruns internacionais, Lula tem argumentado que os desafios contemporâneos não podem ser enfrentados por países isoladamente e que o fortalecimento da cooperação entre nações em desenvolvimento é fundamental para reduzir assimetrias globais.
Essa visão dialoga diretamente com o legado político de Bolívar. Embora os contextos históricos sejam distintos, permanece a ideia de que a soberania nacional depende, cada vez mais, da capacidade de articulação coletiva.
Um sonho interrompido que continua vivo
O Congresso Anfictiônico fracassou como projeto institucional. Mas sua principal ideia sobreviveu. Mercosul, Unasul, Celac, Banco do Sul, corredores bioceânicos, integração energética e até mesmo a crescente articulação dos países latino-americanos com os BRICS podem ser vistos como desdobramentos históricos de uma questão formulada há dois séculos: como transformar a proximidade geográfica, cultural e econômica da América Latina em força política efetiva?
A edição número 40 da Revista Tempo do Mundo sugere que essa pergunta continua aberta. Ao escolher o tema “O tempo da integração regional em um mundo fragmentado”, o Ipea estabelece uma ponte direta entre o Congresso do Panamá de 1826 e os desafios de 2026.
Duzentos anos depois, o sonho de Bolívar permanece inacabado. Mas talvez nunca tenha sido tão necessário. Em um planeta marcado por conflitos, disputas tecnológicas, crises climáticas e rearranjos geopolíticos, a integração regional deixou de ser apenas um ideal histórico para se tornar uma necessidade estratégica. O bicentenário do Congresso Anfictiônico não celebra apenas um episódio do passado. Ele recoloca no presente uma das questões mais decisivas para o futuro da América Latina.



