Nathalia Urban por Milenna Saraiva

Esta seção é dedicada à memória da jornalista Nathalia Urban, internacionalista e pioneira do Sul Global

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Samper defende união latino-americana contra ofensiva hegemônica dos EUA – o "bolivarianismo contra o monroísmo"

Ex-presidente colombiano afirma que América Latina e Caribe precisam reconstruir a integração regional para enfrentar os ataques ao multilateralismo

Ernesto Samper vê a Celac entre o bolivarianismo e o monroísmo (Foto: Brasil 247 / Dall-E)
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247 – O ex-presidente colombiano Ernesto Samper defende que a América Latina e o Caribe enfrentam uma escolha decisiva entre a convergência regional e a desintegração política, em meio ao enfraquecimento da ordem internacional, ao avanço de práticas hegemônicas e à crescente ideologização das relações internacionais.

A reflexão está no artigo “Convergência ou desintegração?”, publicado na revista Tempo do Mundo, coordenada pelo pesquisador Pedro Silva Barros, do Ipea, lançada nesta quarta-feira, em Brasília, durante seminário organizado pelo instituto, com palestra do próprio Samper. Ex-presidente da Colômbia e ex-secretário-geral da Unasul, ele sustenta que a região precisa reativar mecanismos como a Celac e a Unasul para construir uma agenda comum de soberania, desenvolvimento, paz, solidariedade e democracia.

No centro do artigo está a crítica ao enfraquecimento dos princípios que sustentaram a convivência internacional desde 1945: a não intervenção nos assuntos internos dos Estados, a solução pacífica de controvérsias e o respeito ao direito internacional. Para Samper, esses pilares vêm sendo corroídos por intervenções militares, sanções unilaterais, pressões econômicas e ações que substituem a diplomacia pela força.

Samper identifica no governo de Donald Trump a expressão mais agressiva desse novo hegemonismo. Segundo ele, o presidente dos Estados Unidos tenta substituir “a força da razão” pela “razão da força” em conflitos e tensões envolvendo Ucrânia, Gaza, Irã, Cuba e Venezuela. A consequência, afirma, é o esvaziamento da legitimidade das Nações Unidas e o aprofundamento de uma ordem global fragmentada, violenta e desigual.

A crise do multilateralismo e o papel do Sul global

Um dos principais argumentos do artigo é que o sistema multilateral atual já não consegue responder aos desafios contemporâneos. Samper critica o poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, o enfraquecimento orçamentário de organismos sociais do sistema das Nações Unidas e a incapacidade da governança global de impedir guerras, sanções e intervenções unilaterais.

Para o ex-presidente colombiano, a resposta a essa crise não deve vir da submissão ao chamado Norte hegemônico, mas da reorganização do Sul global. Nesse contexto, a América Latina e o Caribe deveriam atuar como bloco regional, com maior autonomia estratégica, capacidade de negociação internacional e identidade política própria.

Samper defende uma reforma profunda do sistema de governança global, com ampliação do Conselho de Segurança, eliminação do veto e maior peso político para a Assembleia Geral da ONU. Ele também propõe maior equilíbrio regional nos organismos econômicos internacionais, como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial do Comércio.

Integração contra a ideologização da política externa

Outro eixo central do artigo é a crítica à ideologização das relações internacionais na América Latina. Samper afirma que os mecanismos de integração regional foram concebidos como espaços de cooperação, articulação política e solução pacífica de conflitos, mas acabaram sendo capturados por disputas ideológicas conjunturais.

Para ele, a crise da Unasul e a criação do Prosur ilustram esse processo. A saída de governos de direita da Unasul e a tentativa de criar um bloco alinhado a interesses conservadores teriam enfraquecido a lógica de integração e transformado a região em terreno de disputa entre projetos políticos antagônicos.

Samper alerta que a integração não pode depender da coincidência ideológica entre governos de turno. Ao contrário, deve se apoiar em interesses permanentes dos povos latino-americanos e caribenhos: desenvolvimento, soberania, redução das desigualdades, defesa da democracia, proteção ambiental e autonomia diante das grandes potências.

Um modelo solidário contra o neoliberalismo

O artigo também apresenta a defesa de um modelo alternativo e solidário de desenvolvimento para a região. Samper afirma que o neoliberalismo, associado ao Consenso de Washington, não conseguiu diversificar a matriz produtiva latino-americana, elevar a produtividade, promover a industrialização nem reduzir de forma estrutural a exclusão social.

Em resposta, ele propõe um modelo baseado em seis eixos: inclusão social e redução das assimetrias; geração de valor; política econômica soberana e redistributiva; transição ecológica; fortalecimento democrático; e integração regional.

Na área social, Samper destaca a necessidade de enfrentar a pobreza e a desigualdade, que seguem marcando a América Latina como uma das regiões mais desiguais do planeta. Na economia, defende políticas de reindustrialização, transferência tecnológica, fortalecimento das pequenas e médias empresas e criação de cadeias produtivas regionais.

No campo financeiro, propõe uma nova arquitetura regional, com instrumentos próprios de financiamento, renegociação da dívida externa, combate à evasão fiscal, tributação sobre patrimônio, heranças e empresas transnacionais, além de maior articulação com instituições como a CAF, o Fundo Latino-Americano de Reservas e o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS.

Transição ecológica e soberania regional

Samper também dedica parte importante do artigo à transição ecológica. Ele afirma que a América Latina e o Caribe são altamente vulneráveis aos efeitos da crise climática, embora respondam por uma parcela relativamente pequena das emissões globais de gases de efeito estufa.

Para o ex-presidente colombiano, a região precisa construir uma agenda ambiental própria, que combine competitividade, justiça social e proteção dos ecossistemas. Entre os pontos destacados estão a contenção do desmatamento da Amazônia, a proteção das fontes hídricas, a soberania alimentar, a defesa dos líderes ambientais e a governança regional dos mares.

A transição ecológica, segundo Samper, deve ser parte de um projeto de desenvolvimento e não apenas uma exigência externa imposta por países ricos. Ela precisa servir à soberania regional, à geração de valor e à redistribuição do bem-estar.

Celac e Unasul como instrumentos de convergência

Na parte propositiva do artigo, Samper defende a convergência dos mecanismos de integração já existentes, sem necessariamente criar novas instituições. A ideia é articular organismos como Celac, Unasul, Mercosul, Comunidade Andina, Alba, Caricom, Sica, OTCA e Aladi em torno de agendas comuns.

Ele recupera princípios defendidos pelo ex-presidente uruguaio Pepe Mujica, especialmente a necessidade de “meter gente na integração”, ampliando a participação de trabalhadores, empresários, camponeses, povos originários, afrodescendentes, movimentos sociais, universidades e organizações da sociedade civil.

Samper propõe que a Celac atue como voz política dos 33 países latino-americanos e caribenhos nos fóruns globais, funcionando como uma espécie de chancelaria regional. Já a Unasul, ampliada e reativada, teria o papel de articular agendas setoriais e consolidar a América Latina e o Caribe como zona de paz, democracia e direitos humanos.

Bolivarianismo ou monroísmo

No epílogo, Samper contrapõe duas visões de continente: o bolivarianismo e o monroísmo. Para ele, o projeto de Simón Bolívar apontava para uma integração baseada em soberania real, justiça social e igualdade entre os povos. Já a Doutrina Monroe teria servido historicamente como instrumento de hegemonia dos Estados Unidos sobre o hemisfério.

Samper afirma que a unidade latino-americana não é uma nostalgia histórica, mas uma necessidade urgente diante das pressões atuais. Ele cita tarifas, perseguição a migrantes, sanções unilaterais, intervenções eleitorais, ameaças contra governos progressistas e ações militares como sinais de que a região precisa reconstruir sua capacidade coletiva de resposta.

Para o ex-presidente colombiano, a convergência regional é a única resposta possível à hegemonização ideológica que ameaça a América Latina e o mundo. “Nunca foi tão importante a integração como agora e nunca estivemos tão desintegrados”, afirma Samper no artigo.

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