Poesia em tempos de quarentena

Em tempos de isolamento, a poesia não somente pode servir como consolo, mas pode também nos ensinar uma empatia para nos tirar desta crise

Poesia em tempos de quarentena
Poesia em tempos de quarentena (Foto: Fotos Publicas)
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Leonardo Sobreira, 247 - Ted Hughes, um dos maiores poetas do século XX, em suas anotações feitas durante o Festival Internacional de Poesia em 1967 disse: “a poesia é uma língua universal que todos podemos atingir.” 

Tal universalidade se deve ao fato de que a linguagem usada no dia-a-dia é limitada, só sendo capaz de refletir parte do que queremos expressar. Assim, ler e produzir poesia nos permite acessar um meio de “linguagem pura”, como diria o filósofo alemão Walter Benjamin. 

Portanto, é de se esperar que em momentos de crise social, como o que vivemos durante o coronavírus, a poesia surja como uma forma de “bálsamo espiritual”, como descrito por Allie Esiri, editora de literatura do Financial Times.

Considerem o poema “A Cabana”, do poeta persa Rumi. 

“Do lado de fora, a noite gelada do deserto

Esta outra noite, interior, cresce quente, mas míngua

Deixe a paisagem externa ser coberta por uma crosta espinhosa

Temos um jardim macio aqui dentro

Os continentes explodiram

Cidades e pequenos vilarejos, tudo

Se transformou em uma bola, queimada e negra

As notícias que ouvimos estão cheias de tristeza por esse futuro

Mas a verdadeira notícia aqui dentro

É que não há notícias”

Ou então, o poema “Oh, Solidão”, do poeta inglês John Keats. 

“Oh, solidão! Se devo contigo habitar,

Que não esteja entre a pilha confusa

De prédios escuros; suba comigo o íngreme

Observatório da natureza - de onde o vale, 

Com suas encostas floridas, e os transbordantes cristais de seus rios

Possam parecer um breve momento; deixe-me tua vigília manter

Entre os galhos empedrados, onde o salto veloz do cervo

Assusta a abelha selvagem de sua dedaleira

Mas apesar de alegremente traçar hoje essas cenas com você, 

Mesmo assim, a doce conversa de uma mente inocente,

Cujas palavras são imagens de pensamentos refinados,

São o prazer da minha alma; e com certeza devem ser

A maior felicidade da espécie humana,

Quando das suas assombrações dois espíritos afins fogem.”

A melancolia expressada acima pode ser contrastada pelos poemas que expressa revolta de Roberto Piva.

XX

“vocês estão cegos graças ao temor

olhares mortos sugando-me o sangue

não serei vossa sobremesa nesta curta

           temporada no inferno

eu quero que seus rostos cantem

eu quero que seus corações explodam em 

           línguas de fogo

meu silêncio é um galope de búfalos

meu amor cometa nômade de

           riso indomável

façam seus orifícios cantarem o hino

           à estrela da manhã

torres & cabanas onde foi flechado o

           arco-íris

eu abandonei o passado a esperança

           a memória o vazio da década de 70

sou um navio lançado ao

           alto-mar das futuras

           combinações”

Também é possível achar na poesia fontes de esperança.

O poema Bani Adam (Raça-Humana), do poeta persa Sa’adi, ilustra o espírito de solidariedade necessário para enfrentar a atual crise: 

“Os filhos de Adão são como membros do mesmo corpo

Tendo sido criados com uma essência única

Quando as calamidades dos tempos afetam um membro

Os outros membros não conseguem ficar em paz.

Se você não tem empatia pelas aflições dos outros

Você não é digno de ser chamado pelo nome Humano”

Esses versos de Sa’adi, devidamente, decoram o interior do prédio das Nações Unidas em Nova Iorque. É um poema que nos permite apreciar o destino comum da humanidade. 

Seja na busca de refúgio em tempos sombrios, ou de uma luz no fim do túnel, a poesia nos conecta ao gerar, nos dois casos, empatia pelos outros. Assim, agora é a hora de atuarmos, informados pela ciência, e com a empatia de um poeta, para juntos sairmos desta crise. 

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