HOME > Ideias

"Sim, o governo Trump é fascista", diz ensaísta

Jonathan Rauch diz que a soma de ações do segundo mandato de Trump forma uma “constelação” autoritária contra direitos, imprensa e instituições

President Donald Trump participates in the Board of Peace Charter Announcement and Signing ceremony during the World Economic Forum, Thursday, January 22, 2026, at the Davos Congress Center in Davos, Switzerland. (Official White House Photo by Daniel Torok) (Foto: Official White House Photo by Daniel Torok)

247 – O colunista Jonathan Rauch afirma que chegou a hora de chamar o governo Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, pelo nome que antes evitava: fascismo. Até pouco tempo atrás, ele diz que resistia à palavra fascismo por considerar o termo confuso, frequentemente banalizado no debate político e difícil de definir até mesmo entre estudiosos. Agora, porém, sustenta que a evolução do último ano do governo Trump – vista no conjunto – tornou a recusa em usar a palavra “perversa”.

A análise foi publicada pela revista The Atlantic e parte de uma mudança de diagnóstico: Rauch diz que, no passado, via o trumpismo sobretudo como “patrimonialismo”, isto é, um estilo de governo em que o Estado é tratado como propriedade pessoal do líder. Para ele, isso permanece verdadeiro, mas deixou de ser suficiente. O que parecia apenas “o esforço de fazer do governo um brinquedo pessoal” teria “derivado de modo nítido” para um fascismo “doutrinário e operacional”.

Da cautela ao rótulo “fascismo”

Rauch reconhece que havia aceitado uma caracterização mais contida feita por Joe Biden, ao classificar o movimento MAGA como “semifascista”, porque as semelhanças eram evidentes em aspectos como autoritarismo. Mas ele diz que, com o acúmulo de episódios recentes, as semelhanças se tornaram numerosas demais para serem tratadas como exagero retórico.

O ponto central do texto é que fascismo não seria um território com fronteiras claras, e sim um conjunto de traços que, quando observados simultaneamente, formariam uma figura reconhecível. Nas palavras do autor: “Quando você observa as estrelas juntas, a constelação aparece claramente.”

Demolição de normas e política do choque

Um dos primeiros traços listados por Rauch é o ataque sistemático às normas de civilidade e contenção institucional. Ele lembra que, desde 2015, Trump teria deliberadamente atravessado limites do discurso público e, já no segundo mandato, continuaria a fazê-lo – não como acidente, mas como método.

Para o colunista, a lógica é corroer o que os fundadores dos EUA chamavam de “virtudes republicanas” e abrir espaço para paixões como medo, ressentimento e dominação. Em vez de disputar o terreno do debate racional, o fascismo – como ele descreve – desloca a arena para um campo em que a moderação liberal fica em desvantagem.

Glorificação da violência e brutalidade performática

Rauch sustenta que regimes liberais usam a violência com relutância, enquanto o fascismo a abraça e a exibe. Ele aponta como exemplo o que descreve como elogios de Trump a atos violentos, defesa de tortura e incentivo simbólico à agressão contra opositores.

O texto também menciona a estética de operações de imigração com caráter espetacularizado. A ideia, segundo ele, é que a brutalidade deixe de ser apenas aplicação da lei e se converta em propaganda: ações filmadas, divulgadas e tratadas como demonstrações de força.

“A força governa o mundo”: culto ao poder e desprezo pelos fracos

Rauch inclui entre os sinais do fascismo uma visão de mundo em que “o forte faz o que pode e o fraco sofre o que deve”. Para ilustrar, ele destaca uma fala atribuída a Stephen Miller, descrito como o assessor mais poderoso do presidente, em entrevista à CNN:

“Vivemos em um mundo, no mundo real, que é governado pela força, que é governado pelo poder, que é governado pela potência. Estas são as leis de ferro do mundo que existem desde o começo do tempo.”

Para o autor, esse tipo de formulação seria incompatível com tradições morais e constitucionais dos EUA e ecoaria, em termos, a retórica de ditaduras fascistas clássicas.

Polícia e Justiça como instrumentos políticos

Um dos pontos que Rauch chama de mais perigosos no segundo mandato é o que define como reaproveitamento de mecanismos federais de investigação e persecução para punir inimigos e proteger aliados. Ele descreve um cenário em que o devido processo passa a ser secundário diante da vontade do líder.

O colunista afirma que Trump “não faz segredo de desprezar o devido processo legal” e recorda a insistência histórica em ver adversários presos, além de declarações em que teria questionado a obrigação de sustentar a Constituição. O diagnóstico é direto: quando a lei vira ferramenta de facção, o Estado se aproxima do “modelo fascistizante” em que garantias podem desaparecer de um momento para outro.

Desumanização: o inimigo como “praga”

Outro pilar do argumento é a desumanização de opositores e imigrantes. Rauch afirma que o fascismo busca legitimidade ao prometer defender “o povo” contra inimigos descritos como animais, criminosos, brutos. Ele cita, como parte desse padrão, linguagem que associa adversários a “vermes” e imigrantes a lixo, além de afirmações sobre “envenenar o sangue do país”.

Nesse ponto, a tese é que a retórica não é apenas agressiva: ela prepara o terreno para políticas cada vez mais duras, porque reduz grupos humanos a alvos moralmente descartáveis.

ICE como força paramilitar e tática de Estado policial

O autor descreve a agência de imigração (ICE) como um aparato que teria se expandido e assumido práticas de “Estado policial”, incluindo abordagens ostensivas, mascaramento de agentes, detenções e operações exibidas como espetáculo.

Rauch cita a avaliação do pesquisador David Bier, do Cato Institute, sobre o impacto generalizado desse tipo de política:

“Isso vai afetar toda comunidade, toda cidade. Na verdade, quase todo mundo no nosso país vai entrar em contato com isso, de um jeito ou de outro.”

A preocupação, segundo o colunista, não é apenas o endurecimento: é a combinação entre poder coercitivo, propaganda e incentivo a confrontos, como se a escalada fosse útil para justificar novas repressões.

Eleições sob suspeita e a normalização do “cancelamento”

Rauch trata a desconfiança permanente sobre resultados eleitorais como um motor essencial do fascismo. Ele menciona a tentativa de reverter o resultado de 2020 e afirma que, mesmo com limites formais de mandato, não se deveria presumir uma transição voluntária de poder se o campo político adversário vencer.

O colunista também registra uma provocação recente de Trump sobre não haver eleição em 2026 – ainda que a Casa Branca tenha sugerido tom jocoso – e argumenta que, em movimentos de vocação autoritária, o “trabalho número um” é fraudar, capturar ou cancelar eleições.

Ataques à imprensa e captura do espaço público

No texto, Rauch afirma que Trump elevou a hostilidade à imprensa a um patamar “sem precedentes” entre presidentes modernos. Ele descreve ameaças regulatórias, ações judiciais, pressões sobre negócios de mídia e perseguição simbólica a jornalistas, aproximando o método do “manual Orbán”, referência ao primeiro-ministro da Hungria.

A tese é que o objetivo não precisa ser controlar toda a imprensa para surtir efeito: basta intimidar, punir seletivamente e enfraquecer a confiança pública nos veículos independentes.

Nacionalismo “sangue e solo” e identidade como critério de cidadania

Rauch inclui entre os elementos fascistas a ideia de povo como entidade “mística” e etnicamente definida – uma comunidade de “sangue, cultura e destino”. Ele afirma que isso aparece em propostas de restringir cidadania por nascimento e em discursos que sugerem graus de pertencimento, como se alguns cidadãos fossem “mais americanos” do que outros.

No mesmo bloco, ele aponta sinais de um nacionalismo branco e cristão, expresso por preferências migratórias e por reconfigurações simbólicas em instituições públicas, além de ataques a políticas de direitos civis.

Culto ao líder, “fatos alternativos” e política como guerra

O texto também destaca o culto à personalidade e a ideia de que o líder é o limite de si mesmo. Rauch menciona a construção de um regime de reverência em que o presidente não finge servir à Constituição, mas se coloca como centro da legitimidade política.

Ele associa isso à fabricação sistemática de “fatos alternativos”, em linha com análises de autores que estudaram regimes autoritários, e à transformação da política em guerra existencial – onde o adversário não é um concorrente legítimo, mas um inimigo a ser esmagado.

“Os EUA não são um país fascista”, mas o alerta é imediato

Rauch conclui que, embora considere Trump um presidente fascista, isso não significaria que os Estados Unidos já tenham se tornado um país fascista. Ele argumenta que ainda há contrapesos relevantes – Judiciário, estados, imprensa – e que o presidente pode falhar em dobrá-los por completo.

Mesmo assim, defende que nomear o fenômeno é necessário para enfrentá-lo. A frase final sintetiza o sentido do artigo: “Trump se revelou, e precisamos nomear o que vemos.”

Artigos Relacionados