Caso Ypê vira disputa política após decisão da Anvisa
Suspensão de lotes por risco sanitário mobiliza bolsonaristas nas redes e leva empresa a manter parte da produção parada
247 - A suspensão de lotes de detergentes, sabões líquidos e desinfetantes da Ypê pela Anvisa ganhou dimensão política nas redes sociais após a agência apontar falhas de fabricação e risco de contaminação microbiológica em produtos da unidade de Amparo, no interior de São Paulo. A atuação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária ultrapassou o campo sanitário e virou alvo de disputa entre apoiadores de Jair Bolsonaro (PL) e defensores da atuação técnica do órgão regulador. As informações foram publicadas pela BBC Brasil.
A medida inicial, anunciada na quinta-feira (7), determinou o recolhimento de produtos fabricados pela Química Amparo, dona da marca Ypê, em lotes com numeração final 1. A Anvisa também havia suspendido a fabricação, a venda, a distribuição e o uso dos itens afetados.
Após recurso da empresa, a agência suspendeu temporariamente os efeitos da medida, mas manteve a avaliação técnica sobre o risco sanitário. O órgão ainda recomenda que consumidores não utilizem os produtos dos lotes atingidos até uma decisão definitiva.
A Ypê informou que decidiu manter paralisada parte da produção da fábrica de líquidos enquanto adota medidas exigidas pela Anvisa. Em nota, a marca afirmou que “reforça que a segurança dos seus consumidores é — e sempre será — sua maior prioridade”.
A controvérsia ganhou contornos políticos porque integrantes da família Beira, ligada ao grupo controlador da empresa, doaram R$ 1 milhão à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022, segundo registros do Tribunal Superior Eleitoral. A relação da Química Amparo com o bolsonarismo já havia provocado debate em 2022, quando a empresa recebeu condenação da Justiça do Trabalho por assédio eleitoral após promover uma live interna em apoio ao então presidente. Na ocasião, a companhia declarou posição apartidária.
Nas redes sociais, influenciadores, políticos e celebridades passaram a publicar vídeos usando ou comprando produtos da marca. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (PL), gravou um vídeo lavando louça com detergente Ypê e afirmou: “Vamos acabar com essa sacanagem que estão fazendo com essa empresa 100% brasileira”.
O senador Cleitinho (Republicanos) também publicou um vídeo com o produto e criticou a Anvisa. Em tom de deboche, questionou se o órgão fiscalizaria “a bucha de cada brasileiro”. Já o deputado estadual Lucas Bove (PL) afirmou que a empresa estaria sendo “perseguida” por ser “bolsonarista”.
O prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga (Republicanos), adotou tom mais cauteloso ao defender a troca dos lotes afetados, mas criticou o que chamou de “massacre” contra a empresa.
Celebridades também entraram no debate. A cantora Jojo Todynho divulgou vídeos lavando louça com detergente da marca e disse que continuaria usando os produtos. O ator Júlio Rocha ironizou o caso nas redes sociais e afirmou que já havia “tomado banho com Ypê” e usado os itens em brincadeiras com os filhos.
Enquanto a mobilização digital avançava, órgãos sanitários reforçaram o alerta. O Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo reiterou que o risco segue em análise e recomendou que consumidores evitem os produtos dos lotes atingidos até a conclusão do processo.
A Anvisa deve avaliar nesta semana o recurso administrativo apresentado pela Ypê e decidir se mantém ou revoga a suspensão relacionada aos lotes investigados.



