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Influenciadores usam sorteios de iPhone para levar seguidores a sites de apostas

Estratégia envolve cadastros em casas de bets sem menção explícita no anúncio inicial e levanta questionamentos sobre transparência e publicidade enganosa

Nathalia Valente (Foto: Reprodução/Instagram)

247 - Um sorteio de iPhones promovido por influenciadores digitais reacendeu o debate sobre a forma como casas de apostas on-line vêm sendo divulgadas nas redes sociais, muitas vezes sem clareza para o público. No último dia 25, segundo o Metrópoles, a influenciadora Nathalia Valente, 22, entregou dois aparelhos a seguidoras que participaram de uma ação anunciada em seu perfil no Instagram, em um formato que, à primeira vista, seguia práticas comuns nesse tipo de conteúdo promocional. No entanto, a dinâmica adotada para concorrer aos prêmios acabou revelando uma ligação indireta com uma plataforma de apostas. 

A participação no sorteio exigia que os interessados enviassem a palavra “iPhone” por mensagem direta ao perfil da influenciadora. Após esse primeiro contato, os seguidores passaram a receber mensagens automáticas e áudios com instruções adicionais. Para seguir no processo, era necessário ser maior de 18 anos e realizar um cadastro por meio de um link enviado individualmente, que direcionava para o site da SuperBet, uma conhecida casa de apostas on-line. Em um momento posterior, os participantes eram orientados a fazer uma aposta mínima de R$ 15 para manter a conta ativa na plataforma. No anúncio inicial do sorteio, não havia menção explícita à divulgação de apostas.

Práticas semelhantes também foram identificadas em outros perfis populares, como os do ex-BBB Arthur Picoli e de WL Guimarães. Em ambos os casos, publicações relacionadas ao sorteio foram apagadas pouco tempo depois, o que levou seguidores a levantarem suspeitas de invasão das contas. Procurados, os dois influenciadores não se manifestaram até a publicação da reportagem original.

Entre os participantes do sorteio promovido por Nathalia Valente está Ana Vitória, de 18 anos, que compartilhou registros das mensagens recebidas. Ela afirma que, mesmo nas conversas privadas, não havia referência direta à SuperBet. “Em nenhum momento ela especificou o que era o link, ela só pediu para eu entrar. Eu entrei e vi que era uma casa de apostas, uma bet. Como ela não tinha pedido para apostar, eu me cadastrei”, relatou. O pedido para realizar a aposta mínima veio apenas depois, como condição para manter a conta ativa.

Outra seguidora, Celyne Rodrigues, de 24 anos, também se interessou pela possibilidade de ganhar o aparelho, avaliado em mais de R$ 8 mil, mas decidiu não seguir adiante. “Eu fiquei indignada, porque há pouco tempo ela tinha ido para África para fazer serviço solidário e depois está pedindo dinheiro para casa de aposta”, afirmou. Apesar de terem interrompido o processo em momentos diferentes, ambas relataram não ter experiência prévia com apostas on-line.

O caso chama atenção por atingir um público potencialmente novo em um mercado que já apresenta altos índices de endividamento. Levantamento do DataSenado, de 2022, aponta que 42% dos apostadores acabam endividados. Desde 2023, o setor de apostas on-line é regulamentado no Brasil pela Lei nº 14.790 e por portarias complementares que orientam a atividade no país.

Para o advogado Luiz César Martins Loques, autor do livro A Regulação do Mercado de Apostas, a estratégia adotada pela influenciadora pode ser enquadrada como abusiva. “Quando ela vincula essa possibilidade de sorteio a fazer o cadastro na casa de apostas, ainda que ela seja regulamentada, isso é o que a gente chama de prática abusiva com o consumidor”, afirmou. Ele cita o Código de Defesa do Consumidor (Lei nº 8.078, de 1990), que caracteriza como publicidade enganosa aquela capaz de induzir o consumidor a erro, inclusive por omissão.

A equipe jurídica de Nathalia Valente informou que o conteúdo publicitário seguiu “os moldes usualmente praticados no mercado digital” e que não houve solicitação ou recebimento de valores por parte da influenciadora. A SuperBet também foi procurada pelo Metrópoles, mas não respondeu até o fechamento da reportagem.

Outro ponto levantado por Loques diz respeito à falta de transparência e de retorno formal aos participantes. “Ela fazia o cadastro na casa de aposta e nunca mais tinha retorno sobre isso [o sorteio]”, pontuou. Questionamentos também surgiram após a divulgação das vencedoras: as duas ganhadoras residem na mesma cidade que a influenciadora e moram a poucos minutos de distância uma da outra, entre mais de 10 milhões de seguidores.

Em nota, a defesa de Nathalia Valente afirmou que a ação não teve relação com apostas e caracterizou a entrega dos aparelhos como uma doação. “De forma independente e voluntária, foram doados dois iPhones a duas pessoas, que não mantêm qualquer vínculo pessoal com a influenciadora, como gesto pontual, sem qualquer vínculo com apostas, depósitos ou contrapartidas econômicas”, diz o comunicado.

Para o advogado, o modelo mais adequado para esse tipo de ação seria o chamado sorteio passivo, com regras previamente publicadas e divulgação oficial. “Toda regra de sorteio dessa forma tem que ser publicada. A Caixa Econômica não organiza, mas é ela quem divulga o resultado”, explicou. “Senão, ela pode colocar a prima dela para ganhar e ninguém vai saber.”

O debate ocorre em meio ao avanço da regulamentação do setor. Em maio de 2025, o Senado aprovou um projeto de lei que estabelece regras mais rígidas para a publicidade de apostas, incluindo a proibição da participação de atletas, artistas e influenciadores em peças promocionais. O texto ainda tramita na Câmara dos Deputados.

Com a expansão das casas de apostas, especialistas apontam lacunas na proteção do público mais jovem. Loques destaca uma “falha regulatória” que ainda permite que menores de idade tenham acesso à divulgação desse tipo de conteúdo. Ainda assim, existem mecanismos de proteção, como o sistema de autoexclusão oferecido pelo Ministério da Fazenda, que permite bloquear o acesso a plataformas autorizadas por um período mínimo de um mês. “Uma vez excluído, você não deve mais receber propaganda. Se continuar recebendo, o recomendável é procurar a Defensoria Pública ou um advogado para processar a casa por publicidade reiterada sem desejo”, explicou.

Especialistas em direito digital também recomendam atenção redobrada ao navegar pelas redes sociais. Para o advogado Lucas Karam, links que exigem inserção de dados pessoais ou pagamentos devem ser vistos com cautela. “Se é necessário clicar no link e realizar alguma inserção de informação ou algum pagamento. Essa é a principal isca na maioria dos golpes aplicados”, alertou.

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