Jeff Bezos, da Amazon, apresenta visão positiva da IA e prevê falta de mão-de-obra
Fundador da Amazon afirma que a inteligência artificial não tornará humanos redundantes
247 – O fundador da Amazon e da Blue Origin, Jeff Bezos, afirmou que a inteligência artificial não deve substituir os seres humanos em massa, mas sim provocar falta de mão-de-obra ao ampliar as possibilidades de criação, produção e inovação.
A declaração foi feita nesta quarta-feira (17), durante a conferência de tecnologia VivaTech, em Paris, segundo a Reuters. Em tom otimista, Bezos defendeu que a IA reduzirá barreiras para que mais pessoas possam construir, criar e desenvolver novos projetos.
"Eu sei que há muita preocupação que muitas pessoas têm, incluindo muitas pessoas inteligentes, de que a IA vai tornar os humanos redundantes e assim por diante", disse Bezos. "Eu discordo totalmente desse ponto de vista. E acho que, na verdade, a IA vai criar uma escassez de mão-de-obra."
A fala ocorre em meio ao avanço acelerado da inteligência artificial no mercado de trabalho global. Grandes empresas vêm anunciando cortes de milhares de vagas após investimentos pesados em IA, frequentemente associando as demissões a ganhos de eficiência gerados pela nova tecnologia.
Nos Estados Unidos, empregadores anunciaram 97.006 cortes de postos de trabalho em maio, e a inteligência artificial foi vinculada a 40% dessas demissões, segundo relatório da consultoria global de recolocação Challenger, Gray & Christmas citado pela Reuters.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada neste mês também apontou que metade dos norte-americanos teme que o avanço da IA possa deixar sem emprego o próprio entrevistado ou alguém de sua família.
Bezos aposta em uma visão otimista da IA
Apesar das preocupações, Bezos apresentou uma avaliação oposta ao temor de substituição em massa de trabalhadores. Para ele, a humanidade ainda tem uma quantidade “infinita” de tarefas, projetos e ambições a realizar, mas é limitada por obstáculos tecnológicos, financeiros e operacionais que a inteligência artificial poderá reduzir.
O empresário também é cofundador e co-CEO da Prometheus, uma nova startup de inteligência artificial voltada a acelerar processos de manufatura física. Na conferência, ele apresentou a empresa como parte de uma visão mais ampla sobre o papel da tecnologia na expansão da capacidade produtiva humana.
Sua defesa da IA contrasta com a resistência crescente observada em diferentes setores. Da geração Z que ingressa no mercado de trabalho a sindicatos de montadoras sul-coreanas e roteiristas de Hollywood, há uma reação ampla contra usos da inteligência artificial considerados ameaçadores para empregos, direitos autorais e condições de trabalho.
A própria Amazon, no entanto, também realizou cortes relevantes. Segundo a Reuters, a companhia eliminou cerca de 30 mil cargos corporativos desde o fim do ano passado, em parte por ganhos de eficiência associados à IA. O CEO da empresa, Andy Jassy, já havia afirmado que o aumento da automação por meio de ferramentas de inteligência artificial resultaria em perdas de empregos corporativos.
Indústrias poluentes no espaço
Além da inteligência artificial, Bezos usou sua participação na VivaTech para defender sua visão de exploração espacial. O fundador da Blue Origin afirmou que um dos objetivos da ida ao espaço é transferir para fora da Terra indústrias poluentes, em uma perspectiva de longo prazo para preservar o planeta.
"Se as viagens espaciais se tornarem confiáveis o suficiente e baratas o suficiente, e se pudermos obter materiais de asteroides, de objetos próximos da Terra e da Lua, então este planeta-jardim poderá ser devolvido ao seu estado pré-Revolução Industrial", afirmou Bezos.
A Blue Origin busca competir no setor de foguetes com a SpaceX, empresa de Elon Musk. No evento, Bezos apareceu ao lado do CEO da Blue Origin, David Limp, que afirmou que a reconstrução da plataforma de lançamento dos foguetes New Glenn já começou na Flórida, após uma explosão ocorrida em maio.
Musk também tem defendido uma visão ambiciosa para a exploração espacial, incluindo planos de criar cidades na Lua e em Marte. Em entrevista recente ao CEO do JPMorgan, Jamie Dimon, ele falou sobre lançar data centers de IA ao espaço e tornar possíveis férias na Lua.
Debate sobre trabalho ganha força
A avaliação de Bezos reforça a disputa de narrativas em torno da inteligência artificial. De um lado, empresas e investidores enxergam na tecnologia uma nova fronteira de produtividade, inovação e crescimento econômico. De outro, trabalhadores, sindicatos e pesquisadores alertam para riscos de substituição de funções, concentração de poder econômico e precarização de atividades humanas.
Ao afirmar que a IA poderá criar escassez de mão-de-obra, e não desemprego estrutural, Bezos tenta deslocar o centro do debate para a capacidade da tecnologia de abrir novas frentes de trabalho e reduzir limitações materiais. A visão, contudo, convive com dados recentes de demissões e com a percepção pública de insegurança diante das rápidas mudanças tecnológicas.
A discussão tende a ganhar ainda mais peso à medida que empresas incorporam ferramentas de IA em áreas como atendimento, programação, logística, finanças, comunicação, produção audiovisual e manufatura. O desafio será definir se os ganhos de produtividade serão acompanhados de novos empregos, requalificação profissional e distribuição dos benefícios econômicos da tecnologia.



