AIEA cobra verificação nuclear reforçada no Irã após assinatura de memorando com EUA
Rafael Grossi diz que localizar estoque de urânio iraniano é prioridade e defende inspeções robustas após acordo preliminar com os EUA
247 - A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) defende a implementação rápida de um sistema de verificação nuclear “muito robusto” no Irã. Segundo reportagem da Al Mayadeen, o diretor-geral da agência, Rafael Grossi, afirmou que localizar o estoque de urânio enriquecido de Teerã se tornou a principal prioridade do órgão internacional.
Em declarações feitas a jornalistas no Japão, conforme relatou a Al Mayadeen, Grossi disse que as conversas com o governo iraniano sobre o destino do material nuclear “mal começaram”, apesar do acordo preliminar entre Washington e Teerã para tentar encerrar a guerra dos EUA contra o Irã. O programa nuclear iraniano segue como um dos principais pontos de tensão nas negociações.
“Acredito que o objetivo deste [acordo preliminar recente entre EUA e Irã] seja garantir que não haja desenvolvimento de armas nucleares no Irã. O governo iraniano declarou claramente que essa não é sua intenção”, afirmou Grossi.
O chefe da AIEA, no entanto, disse que declarações políticas não são suficientes para resolver o impasse. “Mas é claro que as intenções não bastam. Precisamos ter um sistema de verificação muito robusto em funcionamento... o mais rápido possível”, acrescentou.
De acordo com estimativas anteriores da AIEA, feitas antes da guerra, o Irã possuía cerca de 440 quilos de urânio enriquecido a 60%. Esse nível está abaixo dos 90% necessários para uso militar, mas muito acima do limite de 3,67% previsto no acordo nuclear de 2015, que entrou em colapso após a retirada dos Estados Unidos determinada por Donald Trump, atual presidente dos EUA, durante seu primeiro mandato.
“O memorando de entendimento, como você deve ter notado, inclui a possibilidade de diluição como uma alternativa”, disse Grossi. “Também poderia ser enviado diretamente. Talvez fosse mais complicado, mas existem algumas alternativas técnicas para lidar com o material.”
O diretor-geral da AIEA afirmou ainda que há uma “impressão generalizada” de que o estoque de urânio permanece na mesma região onde estava antes de junho de 2025, perto das instalações nucleares de Isfahan. A situação, porém, tornou-se mais complexa após os bombardeios contra áreas do programa nuclear iraniano.
As instalações de Isfahan foram alvo de ataques, e o Irã informou que não pretende permitir inspeções da AIEA nos locais atingidos. Para Grossi, a agência precisa confirmar diretamente o paradeiro do material, sobretudo porque parte dos locais de armazenamento teria sido danificada ou parcialmente destruída durante a guerra.
Em entrevista à emissora japonesa NHK, Grossi afirmou que a prioridade da agência será obter uma confirmação clara sobre onde está armazenado o urânio altamente enriquecido do Irã. Segundo ele, cabe ao próprio governo iraniano informar a localização do material para que o trabalho técnico possa avançar.
“Acreditamos que quanto antes, melhor, especialmente porque este acordo tem um prazo de 60 dias, então teremos que trabalhar sem perder muito tempo”, disse Grossi à NHK.
O chefe da AIEA também destacou que a agência pretende discutir em breve com Teerã as datas das inspeções e os procedimentos técnicos necessários. Ele ressaltou que o trabalho da organização deve ocorrer de forma independente em relação às partes envolvidas nas negociações diplomáticas.
“Se o Irã desejar convidar os Estados Unidos ou outros observadores, isso é outra questão”, afirmou Grossi, acrescentando: “Não prevemos que alguém precise nos ajudar ou nos controlar.”
O Irã rejeita há anos as acusações de que estaria tentando produzir armas nucleares. Teerã afirma ter direito a desenvolver um programa nuclear civil, inclusive com atividades de enriquecimento de urânio, dentro de seus compromissos internacionais.
Antes da suspensão da cooperação com a AIEA, provocada pelos ataques contra sua infraestrutura nuclear, o Irã operava como signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear e permitia acesso de inspetores da agência a suas instalações, nos termos do acordo de salvaguardas com o órgão sediado em Viena.
A infraestrutura nuclear iraniana, incluindo as instalações de Natanz, Fordow e Isfahan, sofreu danos significativos durante a guerra. O episódio aprofundou a crise em torno do programa nuclear de Teerã e recolocou no centro das negociações internacionais a necessidade de um novo regime de inspeções.
O acordo nuclear firmado em 2015 entre o Irã e seis potências mundiais limitava as atividades de enriquecimento iranianas em troca do alívio de sanções. O pacto, porém, foi desestruturado após a saída unilateral dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump, decisão que reabriu uma sequência de tensões diplomáticas e militares em torno do programa nuclear iraniano.
Enquanto as negociações entre Washington e Teerã avançam em ritmo lento, Grossi indicou que a AIEA buscará restabelecer sua presença técnica no país e verificar o estoque de urânio enriquecido. Para a agência, a localização e o destino desse material serão decisivos para qualquer novo entendimento sobre o programa nuclear do Irã.



