Após sequestro de Maduro, CIA vê aliados do chavismo como eixo da transição
Relatório sigiloso influenciou Donald Trump a priorizar estabilidade com apoio militar e rejeitar oposição venezuelana
247 - Um relatório sigiloso da Agência Central de Inteligência (CIA) concluiu que integrantes centrais do governo de Nicolás Maduro estariam mais bem posicionados para liderar um governo provisório na Venezuela, caso o presidente perdesse o poder. A análise indicou que a preservação da estabilidade no curto prazo dependeria do apoio das Forças Armadas e de elites políticas alinhadas ao regime.
A informação foi revelada pelo The Wall Street Journal e aponta que o documento foi apresentado ao atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a um grupo restrito de altos integrantes de sua administração. O conteúdo influenciou a decisão de Trump de não apoiar a oposição venezuelana e de priorizar uma transição conduzida por figuras do próprio governo em Caracas.
Segundo pessoas familiarizadas com o relatório, a CIA não defendeu a remoção de Maduro nem descreveu como isso ocorreria. O objetivo foi avaliar o cenário interno caso a mudança de poder acontecesse. O texto citou a então vice-presidente Delcy Rodríguez e outros dois dirigentes do regime como possíveis líderes interinos capazes de manter a ordem.
Embora os nomes não tenham sido oficialmente confirmados, Diosdado Cabello, ministro do Interior, e Vladimir Padrino, ministro da Defesa, são considerados os principais articuladores de poder no país. Ambos controlam, respectivamente, as forças policiais e militares e enfrentam acusações criminais nos Estados Unidos, o que reduziria a disposição para cooperação com Washington.
O relatório avaliou ainda que Edmundo González, visto como vencedor das eleições de 2024, e a líder oposicionista María Corina Machado teriam dificuldades para consolidar legitimidade política diante da resistência de setores de segurança alinhados ao regime, redes criminosas e adversários políticos.
Maduro foi levado a Nova York e compareceu à Justiça na segunda-feira (5), onde respondeu a acusações federais de narcoterrorismo. Ele se declarou inocente. A operação que resultou em sua captura foi precedida por meses de monitoramento da CIA, que contou com uma fonte no círculo próximo do líder venezuelano e o uso de drones de vigilância.
No domingo (4), o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, afirmou em entrevistas que Washington pretende pressionar Delcy Rodríguez por meio de uma “quarentena” militar para interceptar navios petroleiros sob sanções. Horas depois, Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, afirmou que prefere um controle direto da situação. “Nós estamos no comando”, disse. “Precisamos de acesso total. Precisamos de acesso ao petróleo e a outras coisas do país.”
A mudança de posição surpreendeu aliados de María Corina Machado no sábado (3). Trump declarou que a líder oposicionista “não tem o apoio ou o respeito dentro do país” para conduzir uma transição democrática, apesar de ter elogiado publicamente seu movimento no passado.
Para o professor David Smilde, da Universidade Tulane, especialista em Venezuela, esperar que a oposição assumisse o poder de forma imediata seria irrealista. “É realismo mágico esperar que Machado ou outro líder oposicionista simplesmente chegue ao poder”, afirmou. Segundo ele, a alternativa mais viável seria pressionar Delcy Rodríguez a iniciar uma transição, embora não veja negociações ativas nesse sentido.



