Arábia Saudita realizou ataques secretos contra o Irã em meio à escalada regional
Ataques foram seguidos por contatos diplomáticos para conter a guerra no Oriente Médio
247 - A Arábia Saudita realizou ataques secretos contra o Irã em retaliação a ofensivas sofridas pelo reino durante a guerra no Oriente Médio, em um movimento seguido por contatos diplomáticos para conter a escalada regional.
Segundo a Reuters, dois funcionários ocidentais informados sobre o assunto e dois funcionários iranianos afirmaram que os ataques sauditas ocorreram no fim de março e foram conduzidos pela Força Aérea da Arábia Saudita. A agência informou que não conseguiu confirmar quais foram os alvos específicos das operações.
Os ataques, que não haviam sido divulgados anteriormente, marcam a primeira vez em que se tem notícia de uma ação militar direta saudita em território iraniano. O episódio indica uma postura mais assertiva de Riad diante de seu principal rival regional, em um contexto de ampliação da guerra iniciada após bombardeios dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã em 28 de fevereiro.
De acordo com uma das fontes ocidentais ouvidas pela agência, as operações sauditas foram “ataques de retaliação aos ataques sofridos pela Arábia Saudita”. O Ministério das Relações Exteriores do Irã não respondeu ao pedido de comentário da Reuters. Já um alto funcionário do Ministério das Relações Exteriores saudita não tratou diretamente da realização das ofensivas.
A guerra expôs a vulnerabilidade das monarquias do Golfo a drones e mísseis iranianos, inclusive contra bases militares dos Estados Unidos, aeroportos, instalações civis e infraestrutura petrolífera. A Arábia Saudita mantém uma relação militar estreita com Washington, mas os ataques recentes ultrapassaram a proteção tradicional oferecida pelas forças norte-americanas.
Guerra regional pressiona monarquias do Golfo
Desde o início dos bombardeios norte-americanos e israelenses contra o Irã, Teerã atacou os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo com mísseis e drones, segundo a Reuters. O fechamento do Estreito de Ormuz também afetou o comércio global e ampliou o impacto da guerra sobre a economia internacional.
A Reuters destacou que os Emirados Árabes Unidos também realizaram ataques militares contra o Irã, conforme informou o Wall Street Journal. As ações sauditas e emiradenses revelam uma dimensão menos visível do conflito: monarquias do Golfo atingidas por ofensivas iranianas começaram a responder militarmente.
Apesar disso, Riad buscou evitar uma escalada sem controle. Ao contrário dos Emirados Árabes Unidos, que adotaram uma postura mais dura contra Teerã, a Arábia Saudita manteve canais de comunicação com o Irã, inclusive por meio do embaixador iraniano em Riad, que não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.
O alto funcionário saudita ouvido pela agência reafirmou a posição oficial do reino em favor da contenção da crise. “Reafirmamos a posição consistente da Arábia Saudita em defesa da desescalada, da autocontenção e da redução das tensões em busca da estabilidade, segurança e prosperidade da região e de seus povos”, declarou.
Ataques foram seguidos por diplomacia
Autoridades iranianas e ocidentais disseram à Reuters que a Arábia Saudita informou o Irã sobre os ataques. Depois disso, houve intensa atividade diplomática e advertências sauditas de novas retaliações, o que levou a um entendimento informal entre os dois países para reduzir as tensões.
Ali Vaez, diretor do Projeto Irã no International Crisis Group, afirmou que eventuais ataques de retaliação sauditas seguidos por um acordo de desescalada demonstrariam “reconhecimento pragmático de ambos os lados de que uma escalada descontrolada carrega custos inaceitáveis”.
Segundo ele, essa sequência de eventos indicaria “não confiança, mas um interesse compartilhado em impor limites ao confronto antes que ele se transformasse em um conflito regional mais amplo”.
A desescalada informal entrou em vigor na semana anterior ao cessar-fogo mais amplo entre Washington e Teerã, acertado em 7 de abril. A Casa Branca não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.
Um dos funcionários iranianos confirmou que Teerã e Riad concordaram em reduzir as tensões, afirmando que o objetivo era “cessar hostilidades, salvaguardar interesses mútuos e impedir a escalada das tensões”.
Relação entre Riad e Teerã volta a ser testada
Irã e Arábia Saudita, potências xiita e sunita no Oriente Médio, mantiveram por décadas uma rivalidade marcada pelo apoio a grupos opostos em conflitos regionais. Em 2023, uma reaproximação mediada pela China levou à retomada das relações diplomáticas e ajudou a sustentar um cessar-fogo entre os houthis, apoiados pelo Irã no Iêmen, e a Arábia Saudita.
Com o Mar Vermelho aberto à navegação, a Arábia Saudita conseguiu manter suas exportações de petróleo durante a guerra, ao contrário de outros países do Golfo, ficando relativamente menos exposta a interrupções econômicas.
Em artigo publicado no fim de semana no Arab News, veículo saudita, o ex-chefe da inteligência saudita, príncipe Turki al-Faisal, afirmou que “quando o Irã e outros tentaram arrastar o reino para a fornalha da destruição, nossa liderança escolheu suportar as dores causadas por um vizinho a fim de proteger as vidas e os bens de seus cidadãos”.
A tensão havia aumentado nas semanas anteriores aos ataques. Em 19 de março, durante entrevista coletiva em Riad, o ministro das Relações Exteriores saudita, príncipe Faisal bin Farhan, disse que o reino “reservava o direito de tomar ações militares se considerado necessário”. Três dias depois, a Arábia Saudita declarou o adido militar iraniano e quatro funcionários da embaixada como pessoas não gratas.
Ataques contra a Arábia Saudita diminuíram
Segundo fontes ocidentais ouvidas pela Reuters, os contatos diplomáticos e a ameaça saudita de adotar uma postura mais dura, semelhante à dos Emirados Árabes Unidos, levaram a um entendimento de desescalada até o fim de março.
Um levantamento da Reuters com base em comunicados do Ministério da Defesa saudita mostra que os ataques com drones e mísseis contra a Arábia Saudita caíram de mais de 105 na semana de 25 a 31 de março para pouco mais de 25 entre 1º e 6 de abril.
Fontes ocidentais avaliaram que os projéteis disparados contra a Arábia Saudita nos dias anteriores ao cessar-fogo mais amplo partiram do Iraque, e não diretamente do Irã. A avaliação sugere que Teerã reduziu ataques diretos, enquanto grupos aliados continuaram atuando.
Em 12 de abril, a Arábia Saudita convocou o embaixador do Iraque para protestar contra ataques lançados a partir do território iraquiano.
Mesmo com os canais de comunicação entre sauditas e iranianos abertos, novas tensões surgiram no início do cessar-fogo mais amplo entre Irã e Estados Unidos. O Ministério da Defesa saudita relatou 31 drones e 16 mísseis disparados contra o reino entre 7 e 8 de abril.
Esse aumento levou Riad a considerar retaliações contra o Irã e o Iraque. No mesmo período, o Paquistão enviou caças para tranquilizar a Arábia Saudita e pediu contenção, enquanto as negociações diplomáticas ganhavam ritmo.



