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“NDB precisa tomar decisões mais ousadas em sua segunda década de existência”, defende vice-primeiro ministro russo

Em abertura da reunião do NBD, discursos de Jeffrey Sachs e Alexei Overchuk propõem protagonismo do banco na criação de alternativas à hegemonia ocidental

Uma visão do logotipo do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) em sua sede em Xangai, China, em 10 de julho de 2023 (Foto: REUTERS/Aly Song)
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Marco Fernandes, de Moscou, no Brasil de Fato - O BRICS enfrenta seu maior desafio político desde sua fundação em 2009. Nesse momento, dois países membros estão em guerra: Irã e Emirados Árabes Unidos. O primeiro se defendeu dos ataques criminosos de EUA e Israel, revidando contra bases e ativos estadunidenses presentes no segundo. Até agora, o BRICS não emitiu nenhum comunicado sobre uma guerra que já que arrisca mergulhar o mundo na maior crise energética desde os anos 70. Diante desse impasse, sua mais importante instituição - o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD) - abriu hoje sua XI reunião anual em Moscou. A abertura contou com dois dos nomes mais relevantes do debate sobre a nova ordem econômica mundial: o economista estadunidense Jeffrey Sachs (online) e o vice-primeiro-ministro russo Alexei Overchuk. Os dois discursos de abertura, com perspectivas distintas mas convergentes em pontos centrais, traçaram um diagnóstico comum: o mundo atravessa transformações profundas e o NDB precisa assumir um papel muito mais ousado em sua segunda década de existência.

O financiamento público como instrumento estratégico

Sachs abriu sua fala identificando três grandes transformações em curso no mundo contemporâneo. A primeira é geopolítica: a hegemonia mundial está se deslocando do Ocidente para o Oriente. A segunda é ecológica: 225 anos de industrialização colocaram o meio ambiente em risco, mas a tecnologia verde representa uma esperança concreta. A terceira é tecnológica: a revolução da inteligência artificial (IA), em vez de ser empregada para fins militares — caminho que os EUA escolheram —, deveria ser usada para melhorar o padrão de vida da humanidade, em áreas como educação, saúde e serviços públicos.

Diante dessas transformações, Sachs foi categórico: "O Ocidente continua a se agarrar a uma posição de poder que não possui mais — e que não merece. Isso fica claro nos casos da guerra na Ucrânia e no Irã, e no que aconteceu na Venezuela. É preciso acabar com a OTAN e com todas as guerras. Os EUA e a UE não podem mais dominar o mundo."

Para Sachs, diante dos desafios das próximas décadas, será fundamental expandir o financiamento público para os bens comuns, pesquisa e desenvolvimento, e grandes projetos de infraestrutura — energia, água, transporte, conectividade digital, entre outros. Embora reconheça a importância das forças de mercado, Sachs argumentou que o financiamento público é insubstituível para o planejamento de longo prazo. Nesse contexto, os Bancos Multilaterais de Desenvolvimento (BMDs) terão papel fundamental, e as regiões precisam atuar como blocos, com países vizinhos trabalhando de forma integrada.

A posição representa uma virada significativa para quem acompanha a trajetória intelectual de Sachs. Nos anos 1990, ele foi um dos principais defensores do receituário neoliberal, incluindo as terapias de choque aplicadas na Rússia e na América Latina. Atualmente, defende o protagonismo do Estado como agente central do financiamento estratégico e delimita o papel do mercado à sua função complementar.

"O NDB deve ter um papel gigantesco nessa demanda por financiamento público. E a enorme poupança chinesa também deveria ser usada para apoiar esse esforço, canalizada pelo NDB", sustentou Sachs. A proposta vai na contramão das receitas que poupança, e aumentar a fatia do consumo na economia. O governo chinês, sabiamente, continua a ignorar o receituário liberal.

Expansão urbana, África e o dólar como arma

Sachs elencou dois exemplos concretos dos desafios que o NDB precisa enfrentar. O primeiro é o da urbanização: a população urbana do planeta deve crescer em dois bilhões de pessoas até 2050, o que demandará volumes enormes de financiamento para infraestrutura urbana. O segundo é o da África, que deve concentrar 25% da população mundial até 2050 e deveria ser uma das prioridades do banco, em articulação com a União Africana. Em ambos os casos, o financiamento para novas tecnologias verdes será crucial.

Por fim, Sachs defendeu que o NDB ajude a criar sistemas de pagamentos alternativos ao dólar: "O dólar foi transformado pelos EUA em uma arma política nos últimos 30 anos para manter o seu domínio sobre o mundo. Reservas de outros países são confiscadas — como as da Venezuela e da Rússia. O FMI veta empréstimos a países que desagradam a Washington. Precisamos de alternativas."

Infelizmente, nenhuma das mesas da XI reunião anual do NDB vá tratar especificamente desse tema, um dos mais estratégicos para o futuro do banco e do Sul Global.

Soberania tecnológica e alternativas financeiras

O vice-primeiro-ministro russo Alexei Overchuk abriu sua fala destacando o traço mais distintivo do BRICS: a tomada de decisões baseada em respeito mútuo e consenso, independentemente do tamanho dos países membros.

Em seguida, foi direto ao tema central do encontro. "A IA se tornou estratégica e requer um uso intensivo de energia. Mas quantos países nessa sala produzem seus próprios chips? Quantos são capazes de gerenciar seus próprios dados?", questionou, diante de uma plateia em que a maioria dos países representados depende de tecnologia estrangeira para ambos.

A soberania tecnológica e seu financiamento — especialmente no campo dos semicondutores e da infraestrutura de dados — emerge como o desafio central desta edição do encontro do NDB. A pergunta de Overchuk expõe a vulnerabilidade estrutural da maioria dos países do Sul Global nessa área.

Overchuk recorreu à experiência da Rússia após as sanções ocidentais para ilustrar a importância de construir alternativas ao sistema financeiro internacional com antecedência. "Se um país é excluído do sistema financeiro internacional, como sobreviver? Fizeram isso com a Rússia, tentaram nos enfraquecer, mas nós estávamos preparados. Quando Visa e Mastercard foram embora, nós já tínhamos construído nosso próprio sistema alternativo. Por isso é fundamental criar alternativas ao sistema financeiro", afirmou.

O exemplo se desdobra em números concretos: o comércio entre Rússia e China atingiu o equivalente a 240 bilhões de dólares, com 98% das transações realizadas em rublos e RMBs. O comércio com os vizinhos mais próximos da Rússia é feito entre 93% e 95% em moedas locais.

Para que esse modelo se expanda, Overchuk defendeu a construção de conectividade financeira e logística. Um exemplo é o Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul - que liga São Petersburgo (Rússia) a Mumbai (Índia), passando pelo Irã - uma alternativa ao Canal de Suez, controlado pelo Ocidente, com investimentos russos no Irã e na Ásia Central. "O centro da economia global está se deslocando para o Sul Global. Precisamos conectar o norte da Eurásia com o Sul Global, e o NDB deveria ter isso como uma de suas prioridades", afirmou. Assim como Sachs, Overchuk conclamou o banco a assumir a expansão da conectividade financeira e logística como ferramentas de integração do Sul Global — alternativas à infraestrutura hoje hegemonizada pelo Ocidente.

Resseguradoras, agências de rating e a batalha de ideias

Overchuk também defendeu a criação de um sistema próprio de seguros para os países do BRICS, não como substituto ao sistema existente, mas como alternativa de maior sustentabilidade. A proposta remete à negociação em curso no bloco sobre a criação de uma resseguradora própria.

As resseguradoras — que são as seguradoras das seguradoras — estão concentradas sobretudo na Europa e nos EUA e se tornaram instrumentos de cumprimento das sanções ocidentais. Um exemplo: resseguradoras ocidentais se recusam a cobrir integralmente os petroleiros que exportem petróleo russo acima do teto de preço imposto pela OTAN. Sem resseguro, o comércio trava.

Overchuk defendeu ainda a criação de novas agências de classificação de risco. A Rússia criou uma alternativa nacional há cinco anos, mas é necessário expandir a iniciativa no âmbito do BRICS. As agências de rating existentes — concentradas nos EUA — definem a classificação de bancos como o NDB e determinam sua capacidade de captação de recursos e o custo dessa captação. A presença de países sancionados pelo Ocidente, como a Rússia, ou de países menos desenvolvidos, como Bangladesh, rebaixa a avaliação do banco, o que encarece e dificulta o financiamento. Atender justamente esses países, no entanto, é parte essencial da missão do NDB.

Por fim, Overchuk propôs que o NDB passe a produzir análises das principais tendências da economia mundial, oferecendo subsídios para posições alternativas às hegemônicas. A proposta tem sentido estratégico: o FMI e o Banco Mundial gastam centenas de milhões de dólares por ano em departamentos de pesquisa que produzem relatórios determinados pelos interesses do Ocidente e que pautam o debate econômico global. O BRICS precisa ser capaz de produzir uma visão alternativa a partir do Sul Global — uma batalha de ideias sobre economia, desenvolvimento e os grandes desafios da humanidade, da crise ecológica à desigualdade.

Para encerrar, Overchuk fez um apelo: “o Conselho de Governadores tem de tomar decisões mais ousadas, baseadas em opiniões bem informadas, especialmente em sua segunda década de existência."

A ausência de vários ministros de Finanças dos países do Brics — os governadores do conselho — na 11ª reunião não passou despercebida. Somente os ministros da Rússia, Anton Siluanov, e África do Sul, Enoch Gondogwana, estiveram presentes. O ministro brasileiro Dario Durigan não pôde comparecer em razão do fechamento temporário dos aeroportos de Moscou, provavelmente por risco de ataques de drones ucranianos. Mas nenhum outro ministro esteve presente. O fato levanta uma questão inevitável: qual é o grau de prioridade que os governos dos países membros estão dando ao banco?

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