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Banco suíço manteve Ghislaine Maxwell como cliente por anos e movimentou seu dinheiro após prisão do pedófilo Epstein

David Wassong, então sócio da Soros Private Equity Partners, foi quem apresentou Ghislaine Maxwell ao banco suíço UBS

Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell (Foto: Departamento de Justiça dos EUA/Divulgação via REUTERS)

(Reuters) – O gigante suíço de gestão de fortunas UBS abriu contas para Ghislaine Maxwell em 2014, apenas alguns meses depois de o JPMorgan Chase decidir encerrar sua relação com Jeffrey Epstein, e ajudou a administrar até US$ 19 milhões nos anos que antecederam a condenação de Maxwell por tráfico sexual, mostram documentos.

Os documentos, que fazem parte de um conjunto divulgado pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos no mês passado, oferecem novos detalhes sobre a extensão do relacionamento bancário do UBS com Maxwell, que foi presa em 2020 e considerada culpada em 2021 por seu papel em ajudar Epstein a abusar sexualmente de adolescentes. Ela cumpre atualmente uma pena de 20 anos de prisão.

Os documentos, que incluem e-mails e extratos bancários, mostram que o banco suíço abriu contas pessoais e empresariais para Maxwell com recursos em caixa, ações e investimentos em fundos hedge. O UBS designou dois gerentes de relacionamento, que ajudaram Maxwell a movimentar milhões de dólares e lhe concederam outros benefícios que o banco reserva a clientes de alta renda.

Em 2014, após o JPMorgan fechar as contas de Epstein, o UBS forneceu a ele um cartão de crédito, segundo um e-mail. Epstein havia sido preso e se declarado culpado em 2008 por solicitar prostituição de uma menor de idade.

Essa conta foi encerrada em setembro daquele ano. O contador de Epstein informou que o UBS tomou a decisão devido ao “risco reputacional”, de acordo com um e-mail. Ainda assim, o banco manteve seu relacionamento com Maxwell, embora sua proximidade com Epstein já tivesse sido noticiada por diversos veículos de imprensa, inclusive em uma entrevista com o financista.

O UBS se recusou a responder às perguntas da Reuters para esta reportagem, incluindo o motivo de ter aceitado uma cliente considerada de alto risco por outro banco. Não há evidências de qualquer irregularidade por parte do UBS ou de seus assessores, e alguns documentos indicam que o banco realizou procedimentos de diligência antes de transferir as contas de Maxwell do JPMorgan. A Reuters não conseguiu obter detalhes sobre essa diligência.

Um advogado de Maxwell não respondeu a um pedido de comentário.

Maxwell foi apresentada ao UBS

Epstein e Maxwell mantiveram contas no JPMorgan por anos, mas o maior banco dos Estados Unidos passou a demonstrar preocupação com os riscos de lidar com eles nos anos seguintes à condenação de Epstein em 2008.

Em 2011, durante verificações de “conheça seu cliente”, o JPMorgan recomendou internamente que Maxwell fosse classificada como “Cliente de Alto Risco” devido a seus vínculos com Epstein, segundo documentos judiciais separados nos Estados Unidos. Em 2013, o JPMorgan decidiu encerrar a conta de Epstein.

O JPMorgan registrou no histórico de Epstein que, “[d]e acordo com a política do banco, criminosos condenados [como Epstein] são considerados de alto risco e exigem aprovação adicional”, segundo uma petição apresentada pelo governo das Ilhas Virgens Americanas contra o JPMorgan em um tribunal federal de Nova York. O JPMorgan fechou um acordo no valor de US$ 75 milhões em 2023.

O JPMorgan, que negou ter conhecimento dos crimes de Epstein, recusou-se a comentar. O banco também não informou quando nem por que encerrou as contas de Maxwell.

Em dezembro de 2013, David Wassong, então sócio da Soros Private Equity Partners, apresentou Maxwell ao UBS, segundo uma troca de e-mails.

“Coloquei em cópia uma das minhas melhores amigas chamada Ghislaine maxwell (sic). Ela está procurando um novo gestor de patrimônio, e eu disse a ela que precisava conhecê-lo”, escreveu Wassong.

Em 14 de fevereiro de 2014, um e-mail com nomes suprimidos pedia ao UBS que “agilizasse essa transição do JPMorgan”.

“Ghislaine vai viajar por mais de um mês na próxima semana, então ela realmente precisa que isso seja transferido / que a papelada seja assinada antes da partida. Além disso, ela gostaria de falar com você para se apresentar, etc.”, dizia o e-mail.

Em resposta, representantes do UBS informaram que haviam analisado os documentos apresentados por ela e tinham algumas perguntas adicionais enquanto processavam a transferência para o banco.

Wassong não respondeu a um pedido de comentário sobre suas relações com Maxwell.

Pouco depois, o UBS abriu uma conta e Maxwell passou a utilizá-la para despesas pessoais e para seus negócios, incluindo sua organização beneficente TerraMar Project, além de entidades chamadas Ellmax, Pot & Kettle, Max Foundation e Max Hotel Services, mostram os documentos. Já em fevereiro de 2014, Maxwell tinha quase US$ 2 milhões em uma de suas contas no UBS.

Maxwell instruía o banco sobre como movimentar seu dinheiro. Em um pedido feito em 2016, solicitou ao banco um pagamento de US$ 2,5 milhões a Scott Borgerson, com quem ela se casou naquele ano.

Em 22 de julho de 2019, 16 dias após a prisão de Epstein, o UBS transferiu US$ 130 mil, a pedido de Maxwell, de sua conta poupança para a conta corrente, para ajudar a pagar a fatura de um cartão American Express, segundo os documentos.

Borgerson não respondeu a uma mensagem enviada pelo LinkedIn solicitando comentário.

Em 16 de agosto de 2019, no mês seguinte à prisão de Epstein, o UBS recebeu uma intimação de um grande júri relacionada a Maxwell, de acordo com uma carta do UBS ao FBI. O banco forneceu ao FBI informações sobre transferências bancárias, segundo a carta.

A Reuters não conseguiu determinar quando – e se – o UBS encerrou as contas de Maxwell.

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