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Bloqueio dos EUA corta petróleo venezuelano para China e Cuba e derruba exportações após 3 de janeiro

Ações militares e apreensões de navios “fantasma” paralisam rotas para a Ásia, reduzem em 75% os embarques da Venezuela e redesenham mapa global de energia

Nicolás Maduro (Foto: Adam Gray/Reuters)

247 – As exportações de petróleo da Venezuela para destinos como China e Cuba sofreram uma interrupção abrupta após o endurecimento da ofensiva dos Estados Unidos no mar do Caribe e no Atlântico, com apreensão de navios e rastreamento de carregamentos considerados “ilícitos”. A interrupção está provocando um choque na logística do petróleo pesado venezuelano e tende a pressionar o mercado internacional, atingindo especialmente Pequim, principal compradora dessa commodity com desconto.

As informações foram publicadas pelo jornal norte-americano The Wall Street Journal, que detalha como a operação conduzida pelo governo do presidente Donald Trump passou a mirar embarcações associadas a uma “frota sombra” que transporta petróleo de países sancionados, como Venezuela, Rússia e Irã.

Segundo o relato, no Dia de Ano-Novo, um petroleiro parcialmente carregado com petróleo sancionado deixou o principal terminal exportador venezuelano e seguiu rumo ao Irã. No dia seguinte, outra embarcação saiu com petróleo venezuelano e teria embaralhado seus sinais para esconder a rota, mas imagens de satélite confirmaram mais tarde que o navio seguia em direção à China.

De acordo com um relatório da empresa de inteligência marítima Kpler, esses dois carregamentos “parecem ser o último petróleo ilícito” que deixou a Venezuela antes da virada decisiva no cenário político do país.

O texto afirma que, em 3 de janeiro, forças dos Estados Unidos capturaram e depuseram o presidente venezuelano Nicolás Maduro, e que, desde então, as exportações de petróleo do país caíram 75% em relação ao volume mensal que vinha sendo embarcado ao longo do ano anterior.

Na prática, o fluxo de receita externa do petróleo, essencial para sustentar a estrutura de poder e funcionamento do Estado venezuelano, foi severamente afetado. O que saiu dos portos nos dez dias seguintes, segundo a Kpler, teve como destino os Estados Unidos ou foi separado para abastecer refinarias internas, garantindo combustível para a população e para setores industriais dentro do próprio país.

Os dados citados apontam navios a caminho de locais como Pascagoula (Mississippi), onde a Chevron opera uma grande refinaria, além de polos de refino em Corpus Christi (Texas) e St. Charles Parish (Louisiana).

Com o bloqueio se intensificando, o impacto se espalha para além da Venezuela e atinge diretamente a China, que vinha sustentando parte do seu abastecimento com petróleo fortemente descontado de países sob sanções, como Rússia, Irã e a própria Venezuela. A reportagem indica que a redução dessas opções pode fazer Pequim diminuir o ritmo de compras, num momento em que o mercado global já projeta excesso de oferta.

O jornal cita o analista Denton Cinquegrana, da OPIS, que resume o novo cenário: “Em vez de comprar de forma voraz, a China pode dar uma esfriada um pouco”, disse ele. Em seguida, completou: “Isso aumenta a oferta global. Eles estavam absorvendo parte desse excesso de oferta.”

A pressão norte-americana ganhou tração em dezembro, quando o governo Trump começou a rastrear e, em seguida, a apreender petroleiros ligados a essa rede paralela. Na quinta-feira mencionada no texto, os Estados Unidos apreenderam um sexto navio, que navegava sob bandeira russa, e prometeram expandir a ação militar nos dias seguintes.

A Kpler estima que quase 48 milhões de barris de petróleo venezuelano estão fora das águas do país e não fazem parte do comércio licenciado com os Estados Unidos, o que significa que esses carregamentos podem tentar buscar outros destinos — inclusive na Ásia — mas ficariam sujeitos a novas apreensões e sanções.

Parte dos navios apreendidos está sendo levada ao Texas. Dois dos petroleiros mais recentemente interceptados estavam ancorados perto da Ilha de Galveston, nas proximidades de Houston, uma região dominada por grandes grupos do setor, como Exxon Mobil, Phillips 66 e Valero, que operam estruturas capazes de processar petróleo pesado.

Nesse contexto, a reportagem apresenta declarações do CEO da Phillips 66, Mark Lashier, que afirma que refinarias norte-americanas têm capacidade histórica de lidar com esse tipo de petróleo. Ele disse: “A Venezuela produzia três milhões de barris por dia de petróleo pesado. Nós temos refinarias projetadas no longo prazo para processar esse tipo de petróleo”, ao mesmo tempo em que reconheceu que uma recuperação completa do setor energético venezuelano exigiria anos após décadas de abandono.

Lashier também defendeu que o atual cenário representa uma chance de reposicionamento do país na geopolítica do petróleo: “Nós realmente acreditamos que esta é uma oportunidade para a Venezuela retornar ao campo capitalista”, e concluiu com uma crítica contundente: “É um crime o que aconteceu lá, e realmente esperamos que tudo se desenrole dessa forma.”

Antes da ruptura, os principais importadores do petróleo venezuelano eram China, Estados Unidos e Cuba, segundo a Kpler. A China absorvia, de longe, a maior fatia, com uma média de 440 mil barris por dia, enquanto Cuba recebia cargas menores e intermitentes, abaixo de 20 mil barris por dia.

Mas com o aumento da fiscalização e das operações no início de janeiro, um grupo de navios sancionados tentou sair do Caribe. Alguns conseguiram chegar ao Atlântico Norte, enquanto outros foram obrigados a retornar. O efeito líquido, segundo a empresa de inteligência marítima, foi claro: houve uma interrupção forte no fluxo de petróleo venezuelano com destino à Ásia, e nenhuma carga confirmada para Cuba ao longo do mês.

Com a rota venezuelana bloqueada, a China tende a ampliar a busca por petróleo de outros fornecedores, e o Canadá surge como peça-chave nesse redesenho do mercado. Os dois países acertaram, segundo a reportagem, o aprofundamento de laços energéticos, enquanto Ottawa tenta reduzir sua dependência comercial dos Estados Unidos diante das tarifas impostas pelo presidente Trump.

A reportagem destaca que mais de 90% das exportações canadenses de petróleo têm os Estados Unidos como destino, tornando o país vulnerável a pressões tarifárias e disputas comerciais. Ao comentar encontros em Pequim, o ministro de Recursos Naturais do Canadá, Tim Hodgson, afirmou: “O que ouvimos de forma muito clara é que a China está procurando parceiros comerciais confiáveis, parceiros que não usem a energia como instrumento de coerção.”

Nos últimos anos, a China já vinha se tornando uma compradora relevante do petróleo canadense devido ao oleoduto Trans Mountain, que leva o petróleo de Alberta até terminais marítimos perto de Vancouver, na Colúmbia Britânica.

Nos dez primeiros meses de 2025, a China respondeu por mais de 5% das exportações canadenses de petróleo, uma alta significativa em relação aos 1,8% do mesmo período de 2024, segundo dados da Statistics Canada citados pela reportagem.

A ofensiva dos Estados Unidos para redesenhar o setor petrolífero venezuelano também dá novo impulso a discussões sobre um novo oleoduto canadense ligando Alberta à costa do Pacífico. Embora Japão e outros países asiáticos possam comprar petróleo desse tipo de projeto, analistas ouvidos pelo jornal avaliam que a China seria, com grande probabilidade, o principal cliente.

O resultado imediato do bloqueio e das apreensões, portanto, é duplo: de um lado, a Venezuela perde capacidade de exportar e, com isso, perde receitas; de outro, a China vê reduzir seu acesso a petróleo barato, o que pode alterar seu comportamento de compras e influenciar o equilíbrio global entre oferta e demanda no setor de energia.

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