Carta sobre o Nobel prova que Trump vive em realidade paralela, diz professor de RI
Trump relacionou sua exigência de controle total da Groenlândia à recusa do Comitê Nobel Norueguês em conceder-lhe o Prêmio Nobel da Paz
247 - O analista geopolítico Oliver Stuenkel avalia que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está exibindo sinais cada vez mais claros de estar vivendo em uma "realidade paralela", ao comentar a carta na qual o chefe da Casa Branca afirmou que não se sentia mais obrigado a pensar apenas na paz por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.
O primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, confirmou nesta segunda-feira (19) que recebeu uma carta do presidente dos EUA. O jornalista da PBS Nick Schifrin foi o primeiro a noticiar que a carta estava sendo compartilhada pelo Conselho de Segurança Nacional dos EUA entre embaixadores europeus em Washington. No documento, Trump relacionou sua exigência de controle total da Groenlândia à recusa do Comitê Nobel Norueguês em conceder-lhe o Prêmio Nobel da Paz.
"A carta que Donald Trump enviou ao primeiro-ministro da Noruega é talvez o sinal mais explícito de que o presidente dos EUA vive numa realidade paralela. O governo norueguês não tem qualquer controle sobre quem recebe o Nobel da Paz — prêmio pelo qual Trump nutre uma obsessão doentia e perigosa", escreveu Stuenkel, em publicação na rede X.
Trump tem afirmado repetidamente que a ilha, uma parte autônoma da Dinamarca, deveria ficar sob controle dos Estados Unidos. As autoridades dinamarquesas e da Groenlândia advertiram Washington contra qualquer tentativa de tomar a ilha, destacando que esperam que sua integridade territorial seja respeitada.
Por @OliverStuenkel, no X:
A carta que Donald Trump enviou ao primeiro-ministro da Noruega é talvez o sinal mais explícito de que o presidente dos EUA vive numa realidade paralela. O governo norueguês não tem qualquer controle sobre quem recebe o Nobel da Paz — prêmio pelo qual Trump nutre uma obsessão doentia e perigosa.
Essa obsessão já produziu efeitos concretos antes. No ano passado, Trump atacou a Índia, um aliado-chave, depois que Narendra Modi se recusou a indicá-lo ao Nobel da Paz. Pouco depois, recebeu na Casa Branca o chefe das Forças Armadas do Paquistão — cujo governo, este sim, o havia indicado.
Durante séculos, quando monarquias governavam a Europa, não era incomum que figuras instáveis chegassem ao poder. Basta lembrar de Guilherme II da Alemanha, cuja trajetória pessoal e traumas de infância ajudam a explicar sua belicosidade e sua busca incessante por reconhecimento internacional.
Democracias, em tese, sempre foram melhores em filtrar esse tipo de perfil. Trump rompe com essa tradição ao adotar uma abordagem radicalmente personalista, sem sequer fingir que defende o interesse nacional dos EUA — oferecendo aos autocratas um argumento perfeito: “vocês querem democracia? É isso que ela produz”.
A carta é tão claramente maníaca que tende a acelerar os esforços de aliados para reduzir sua exposição aos EUA. E levará a novas — e cada vez mais constrangedoras — tentativas de líderes estrangeiros de agradar Trump, elevando a diplomacia da bajulação a novos patamares.


