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Tirânico, Trump liga obsessão pela Groenlândia à frustração por não ganhar o Nobel da Paz

Em mensagem ao premiê da Noruega, presidente dos EUA usa o prêmio como justificativa para endurecer o discurso

O presidente dos EUA, Donald Trump - 13/01/2026 (Foto: REUTERS/Jonathan Ernst)

247 – O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, vinculou sua investida pela Groenlândia ao ressentimento por não ter recebido o Prêmio Nobel da Paz, em uma troca de mensagens com o primeiro-ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre. A revelação foi publicada pelo Financial Times, com base em reportagem inicial da PBS News.

Segundo o texto, Trump respondeu a Støre afirmando que, “considerando que seu país decidiu não me dar o Prêmio Nobel da Paz… não sinto mais obrigação de pensar puramente em Paz, embora ela sempre seja predominante, mas agora posso pensar no que é bom e apropriado para os Estados Unidos da América”.

Na mesma mensagem, Trump elevou o tom ao relacionar o tema à segurança internacional: “O mundo não está seguro a menos que tenhamos controle completo e total da Groenlândia”.

Støre confirmou na manhã de segunda-feira que recebeu a mensagem. Ele explicou que o contato ocorreu após ter enviado um texto ao presidente norte-americano para protestar contra a tentativa de impor tarifas à Noruega e a outros países europeus, além do envio de tropas para a Groenlândia.

O premiê norueguês também disse que sua mensagem — redigida “em nome” dele próprio e do presidente da Finlândia, Alexander Stubb — apontou a necessidade de “desescalar a troca de palavras” e solicitou uma ligação telefônica entre os três “durante o dia”.

Nobel, pressão política e constrangimento diplomático

A reportagem relata que o Nobel da Paz de 2025 foi concedido a María Corina Machado, líder da oposição venezuelana. De acordo com o texto, ela levou a medalha a Trump na Casa Branca na semana passada, em “reconhecimento por seu compromisso único” com a liberdade do país.

O Financial Times afirma que Trump vinha fazendo campanha pelo prêmio, sustentando que teria encerrado “oito guerras” desde que retornou à Casa Branca “há um ano”. Ainda assim, autoridades norueguesas repetiram a Trump que o Nobel não é decidido pelo governo, e sim por um comitê independente cujos integrantes são escolhidos pelo parlamento do país.

Um diplomata norueguês, citado na reportagem, traçou um paralelo com o caso de 2010, quando a premiação ao dissidente chinês Liu Xiaobo gerou retaliações econômicas de Pequim. “Tivemos uma dura luta para convencer a China”, disse ele, acrescentando: “Agora temos a mesma dura luta com Trump”.

Ataque à soberania dinamarquesa e discurso expansionista

No mesmo conjunto de mensagens, Trump voltou a questionar a legitimidade do controle da Dinamarca sobre a Groenlândia, apesar de reconhecer que os Estados Unidos já aceitaram formalmente essa condição em tratados, inclusive na convenção de 1916-17 relacionada à venda das Índias Ocidentais Dinamarquesas.

Em nova passagem, Trump escreveu: “A Dinamarca não pode proteger aquela terra da Rússia ou da China, e por que eles têm um ‘direito de propriedade’, afinal? Não há documentos escritos, é só que um barco pousou lá centenas de anos atrás, mas nós tivemos barcos pousando lá também”.

O presidente norte-americano ainda tentou enquadrar o tema dentro de sua retórica sobre a Otan: “Eu fiz mais pela Otan do que qualquer outra pessoa desde a sua fundação, e agora a Otan deveria fazer algo pelos Estados Unidos”.

Mensagem circulou entre embaixadas europeias

Segundo a PBS, o texto de Trump teria sido encaminhado a “múltiplas” embaixadas europeias em Washington, o que ajudou a espalhar o conteúdo e ampliou a dimensão diplomática do episódio.

Ao colocar o Nobel como argumento para “não pensar puramente em paz” e, ao mesmo tempo, exigir “controle completo e total” sobre a Groenlândia, Trump reforça um discurso de coerção que pressiona aliados europeus, normaliza ameaças e reabre, sob uma lógica de força, o debate sobre soberania territorial no Atlântico Norte.

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