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Casa da Moeda dos EUA usa ouro ligado a cartel de drogas

Reportagem mostra que mineral ligado a cartel entra na cadeia oficial dos EUA e é comercializado como ouro "americano"

Casa da Moeda dos EUA usa ouro ligado a cartel de drogas (Foto: Reuters/Alexander Manzyuk)

247 - A Casa da Moeda dos Estados Unidos comercializa anualmente mais de US$ 1 bilhão em moedas de ouro para investidores, com a garantia oficial de que o metal é de origem exclusivamente "americana". No entanto, uma investigação aponta que ouro ligado a atividades ilegais, inclusive de organizações criminosas, tem sido incorporado à cadeia de suprimentos antes de chegar ao mercado formal.

Reportagem do jornal estadunidense The new York Times revela que parte desse ouro vem de países como Colômbia e Nicarágua, onde há vínculos entre mineração e grupos criminosos. O minério é inserido no sistema global e, após passar por processos industriais e comerciais, acaba sendo vendido como produto “americano”.

Ouro ilegal entra na cadeia global

O aumento expressivo do preço do ouro — atualmente em torno de US$ 5.000 por onça — tem incentivado a exploração ilegal em diversas regiões. Segundo a investigação, centenas de milhões de dólares em ouro estrangeiro entraram na cadeia de fornecimento da Casa da Moeda nos últimos anos.

Esse fluxo inclui ouro reciclado ou de origem difícil de rastrear, além de material extraído ilegalmente em áreas controladas por grupos armados. A Casa da Moeda inicialmente afirmou que todo o ouro utilizado era nacional, mas posteriormente declarou que os Estados Unidos são sua “principal” fonte e que medidas estão sendo adotadas para melhorar o rastreamento.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, informou que o governo abriu uma revisão sobre o tema. “Esta revisão está focada em garantir que os fornecedores de ouro da Casa da Moeda dos EUA cumpram a lei e satisfaçam rigorosamente suas obrigações, e que a Casa da Moeda tome todas as medidas possíveis para continuar protegendo vigorosamente nossa segurança nacional e mantendo a integridade do mercado”, afirmou.

Mineração ilegal na Colômbia

Parte do ouro investigado tem origem na região de Caucasia, no noroeste da Colômbia, área sob influência do Clã do Golfo. No local conhecido como La Mandinga, mineradores operam ilegalmente, utilizando mercúrio e equipamentos pesados, apesar de restrições ambientais e legais.

Segundo a reportagem, o grupo criminoso controla a atividade, cobrando taxas mensais das equipes de mineração. O processo é altamente poluente e perigoso, mas ocorre com relativa impunidade, inclusive em áreas próximas a instalações militares.

Após a extração, o ouro é vendido em lojas locais, onde comerciantes queimam o mercúrio e transformam o material em barras. Mesmo com origem ilegal, o metal passa a ser considerado legal por meio de documentação fornecida por programas destinados a pequenos mineradores.

Legalização e exportação

O sistema colombiano permite que mineradores registrem produção como “barequeros”, categoria destinada a atividades artesanais. Na prática, segundo a reportagem, isso facilita a legalização de ouro extraído em condições ilegais.

Com documentação em mãos, o ouro é vendido a exportadoras e misturado a outros lotes antes de ser enviado ao exterior. Registros indicam que cerca de US$ 255 milhões em ouro colombiano foram exportados para o Texas em um ano.

Mistura em refinarias dos EUA

Nos Estados Unidos, refinarias como a Dillon Gage processam o ouro importado junto com material de diversas origens, incluindo joias recicladas e produção local. Após a fusão, torna-se praticamente impossível distinguir a procedência original.

“Para eles, o ouro se originou nos EUA”, afirmou Terry Hanlon, CEO da Dillon Gage, ao explicar a lógica adotada no setor. Ele declarou que a empresa busca evitar ouro ilegal, mas reconheceu surpresa ao saber da presença de material ligado ao cartel em sua cadeia de suprimentos. Após a descoberta, a companhia suspendeu compras de um exportador colombiano.

Falhas de fiscalização nos EUA

A investigação aponta que a Casa da Moeda não exigiu, por décadas, informações detalhadas sobre a origem do ouro adquirido. Auditoria do inspetor-geral do Departamento do Tesouro, divulgada em 2024, constatou que a instituição não verificava adequadamente seus fornecedores.

Mesmo com o reconhecimento de que o ouro colombiano representa alto risco, não houve questionamento sistemático sobre a procedência do metal. A prática de compensar ouro estrangeiro com compras futuras de ouro americano também não está prevista em lei, segundo a auditoria.

Refinarias fornecedoras confirmam que o ouro é frequentemente misturado. “É misturado. E sai do outro lado”, disse Paul Healey, chefe de refino da Asahi USA, uma das empresas citadas.

A ausência de controles rigorosos e a complexidade da cadeia global permitem que ouro de origem ilegal seja integrado ao mercado formal, levantando questionamentos sobre a integridade do sistema e a efetividade das normas que regem o setor.

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