Crise dos EUA e avanço da extrema direita expõem disputa global, diz Afonso de Albuquerque
Professor analisa instabilidade sob Trump, soberania digital e impactos da nova ordem mundial sobre a América Latina
247 - A crise interna dos Estados Unidos tem ampliado a disputa global conduzida pela extrema direita e tornado mais instável a atuação internacional de Washington, avaliou o professor Afonso de Albuquerque, nesta terça-feira (23). Segundo ele, o governo Donald Trump expressa um cenário de fragmentação política, perda de consistência estratégica e acirramento das disputas em escala internacional.
As informações são do Giro das Onze, da TV 247. Durante o programa, Afonso analisou o avanço da extrema direita na América Latina, a soberania digital, o papel das big techs, a influência histórica dos Estados Unidos sobre a região e a crise envolvendo Jaques Wagner.
Ordem global em transição
Para o professor, o mundo atravessa um período de transição, no qual a ordem antiga já perdeu estabilidade, mas uma nova ainda não foi consolidada. Esse intervalo, afirmou, produz caos, disputas e incertezas, mas não deve ser interpretado apenas como motivo para pessimismo.
“A gente tá vivendo o momento transição, né? Aquela famosa frase do Gramsci de que o velho mundo está morrendo e o novo ainda não surgiu. Acho que esse é o momento que nós estamos”, afirmou.
Afonso avaliou que a extrema direita se beneficia do desgaste das instituições democráticas, mas não consegue oferecer uma alternativa institucional consistente quando chega ao poder. Segundo ele, esse traço aparece em diferentes países da América Latina e ajuda a explicar crises de legitimidade após vitórias eleitorais desse campo político.
“Houve ali um desgaste das instituições, né? E a extrema direita ela surfa nisso, no desgaste das instituições. Aí quando a extrema direita assume, ela não é capaz de propor novas instituições”, disse.
Estratégia dos EUA perdeu unidade
Na leitura do professor, os Estados Unidos deixaram de operar com uma estratégia externa unificada, como ocorria em outros períodos históricos. A antiga elite bipartidária, que sustentava políticas de Estado entre governos democratas e republicanos, perdeu força diante de uma disputa interna mais fragmentada.
“As pessoas falam os Estados Unidos, a estratégia dos Estados Unidos, e me parece bastante claro que não existe mais isso”, afirmou.
Para Afonso, a política externa de Trump não representa uma orientação nacional estável, mas uma agenda antidemocrata projetada internacionalmente. Ele também ponderou que uma eventual política democrata tenderia a funcionar como reação antirrepublicana, o que enfraquece a continuidade da ação externa norte-americana.
“A política do Trump não é uma política dos Estados Unidos, é uma política antidemocrata em escala internacional”, declarou.
Washington mais perigosa
Apesar disso, Afonso alertou que a instabilidade norte-americana não reduz os riscos para outros países. Na avaliação dele, Washington se tornou mais perigosa justamente porque perdeu parte da noção de limite, embora esteja menos sólida estruturalmente do que no passado.
“A gente tá lidando com os Estados Unidos que são mais perigosos porque de alguma forma perderam a noção de limite”, afirmou.
Segundo o professor, os Estados Unidos ainda têm capacidade de causar danos no cenário internacional, mas já não dispõem da mesma legitimidade e consistência de outros momentos históricos. Para ele, essa combinação de poder remanescente e instabilidade política torna a conjuntura especialmente sensível.
América Latina no centro da disputa
Afonso também analisou o impacto dessa crise sobre a América Latina. Para ele, a região voltou a ser um espaço decisivo na disputa política internacional, especialmente diante do avanço de lideranças de extrema direita alinhadas ao trumpismo.
O professor afirmou que o Brasil não deve analisar o cenário regional com medo, mas com consciência dos riscos. Segundo ele, o medo tende a produzir decisões ruins e a reduzir a capacidade de mobilização política.
“Quando a gente tem medo, eu acho que a gente desiste de lutar, né? E quando a gente desiste de lutar, a gente perde”, afirmou.
Na avaliação de Afonso, o Brasil possui características próprias em relação a outros países da região, sobretudo pela existência de forças sociais, partidárias e institucionais mais estruturadas. Essa diferença, disse, pode ser decisiva diante das pressões internacionais e do avanço da extrema direita.
Soberania digital e big techs
O professor também relacionou a crise dos Estados Unidos à disputa por soberania digital. Segundo ele, a dependência brasileira de infraestruturas privadas estrangeiras representa uma vulnerabilidade estratégica, especialmente porque essas empresas estão submetidas a obrigações legais e políticas ligadas ao governo norte-americano.
“Nós dependemos de uma infraestrutura privada estrangeira que legalmente deve obrigações de segurança com o governo dos Estados Unidos. Então, eu diria, essa é a grande apreensão”, disse.
Para Afonso, o Brasil precisa enfrentar esse debate de forma estrutural. Ele defendeu a criação de plataformas públicas, inclusive em formatos transnacionais, como resposta ao poder das big techs e à dependência tecnológica.
“Eu tenho insistido, né? Eu acho que as plataformas, teremos que criar plataformas públicas”, afirmou.
Segundo ele, a questão digital deixou de ser apenas tecnológica e passou a integrar o núcleo da soberania nacional. O controle sobre dados, infraestrutura e comunicação, afirmou, tornou-se parte da disputa política global.
Jaques Wagner e o custo político para o PT
O professor também comentou a crise envolvendo Jaques Wagner. Segundo ele, a permanência do senador em posição de destaque oferece à direita uma oportunidade de construir uma narrativa contra o PT.
Afonso defendeu que Wagner se afaste da cena política neste momento, sem que isso represente condenação antecipada. Para ele, o interesse coletivo deve prevalecer sobre a posição individual de qualquer liderança.
“Considerando isso, né, eu acho que o coletivo vem acima do individual”, disse.
“Saia de cena. A sua presença no palco não contribui”, afirmou.
Na avaliação do professor, o episódio também revela um problema mais amplo de renovação política. Ele afirmou que lideranças antigas, em diferentes áreas da vida pública, tendem a resistir à passagem de bastão, o que pode enfraquecer projetos coletivos.
“Otimista e proativo”
Apesar do diagnóstico crítico, Afonso rejeitou uma leitura paralisante da conjuntura. Para ele, o caos pode ser entendido como parte de uma transição histórica, e não apenas como sinal de derrota.
“O caos tem duas maneiras de olhar o caos. A primeira é você dizer: ‘Perdemos a ordem’. A segunda maneira é dizer: ‘A antiga ordem apodreceu, nós estamos rumando para uma nova ordem’. No intervalo entre essas duas ordens é caos”, afirmou.
O professor disse preferir uma postura ativa diante da instabilidade política e internacional. Segundo ele, o pessimismo tende a produzir reação defensiva, enquanto a ação propositiva permite disputar o sentido da nova ordem em formação.
“Eu prefiro ser otimista e proativo do que pessimista, porque o pessimista tende a ser reativo”, declarou.



