Surto de gripe expõe risco de política antivacina nos EUA
Mudança adotada por Pete Hegseth reduziu adesão à vacina e antecedeu contágio de 160 militares
247 - Um surto de gripe atingiu 160 militares na Base Aérea de Lackland, no Texas, dois meses depois de o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, tornar voluntária a vacinação contra a doença nas Forças Armadas. A mudança adotada por Hegseth reduziu a adesão à vacina e antecedeu o contágio de 160 militares, reacendendo o alerta sobre os riscos sanitários de flexibilizar políticas de imunização em ambientes de convivência coletiva. As informações foram publicadas nesta terça-feira (23) no blog da jornalista Sandra Cohen, no Portal G1.
A decisão anunciada em abril pelo chefe do Pentágono foi justificada com argumentos de autonomia médica e liberdade religiosa, mas teve efeito direto sobre a cobertura vacinal: apenas 40% dos militares optaram por receber a imunização contra a gripe após o fim da obrigatoriedade.
A nova diretriz substituiu uma política que estava em vigor desde 1945. A exigência da vacina anual contra a gripe era considerada especialmente relevante nas Forças Armadas porque recrutas e soldados vivem em alojamentos compartilhados, frequentam refeitórios coletivos e permanecem em ambientes nos quais a transmissão de vírus respiratórios pode ocorrer de forma acelerada.
Ao anunciar a mudança, Hegseth criticou a política adotada anteriormente no governo de Joe Biden e classificou a obrigatoriedade da vacina como “um desses mandados absurdos e abusivos, que enfraquecem as capacidades de combate, sem representar qualquer ameaça à prontidão militar”.
O secretário também defendeu que a decisão sobre a imunização deveria ficar a cargo de cada militar. “Nossa nova política é simples. Se você, um guerreiro americano encarregado de defender esta nação, acredita que a vacina contra a gripe é do seu melhor interesse, então você está livre para tomá-la. Você deveria. Mas não vamos forçá-lo. Porque seu corpo, sua fé, não são negociáveis”, afirmou.
A baixa adesão à vacina foi seguida por um surto que se manteve ativo por três semanas. Diante da disseminação da gripe na Base Aérea de Lackland, o comando local decidiu retomar a aplicação da vacina como medida de contenção, contrariando na prática a orientação política adotada pelo Departamento de Defesa.
A crise sanitária no Texas expôs a fragilidade de uma política baseada na voluntariedade em um contexto militar, no qual a saúde coletiva afeta diretamente a prontidão operacional. Em bases e centros de treinamento, a circulação de recrutas, a proximidade física e a rotina em espaços fechados ampliam o risco de propagação de doenças respiratórias.
A decisão de Hegseth também se insere em um ambiente político mais amplo no governo do presidente Donald Trump. Com Robert Kennedy Jr. à frente da Secretaria de Saúde, a administração passou a revisar diretrizes de vacinação e a revogar exigências associadas a imunizantes como os da Covid-19 e da hepatite B em recém-nascidos.
No caso das Forças Armadas, Hegseth aderiu a uma agenda de flexibilização da vacinação obrigatória. O episódio em Lackland, porém, mostrou que a alteração teve consequências rápidas, obrigando o comando da base a restabelecer a vacinação para conter a disseminação do vírus.
O histórico de declarações públicas de Hegseth sobre saúde e higiene também voltou a ser lembrado. Em fevereiro de 2019, quando era apresentador da Fox News, ele afirmou: “Os germes não existem”. Na ocasião, disse ter parado de lavar as mãos por dez anos e associou o hábito à melhora de sua saúde.
A mudança na política de vacinação contra a gripe, mantida por oito décadas nas Forças Armadas dos Estados Unidos, tornou-se um exemplo concreto dos riscos de decisões sanitárias influenciadas por posições antivacina. No Texas, a rápida disseminação do vírus entre militares levou a própria estrutura de comando a reconhecer a necessidade de retomar a imunização como resposta emergencial.



