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Entenda como funciona a guerra híbrida para derrubar o regime no Irã

A partir de insatisfações econômicas reais, movimentos foram capturados por interesses internacionais para a mudança de regime

Carros queimam em meio a protestos nas ruas de Teerã, Irã - 08/01/2026 (Foto: Stringer/WANA (West Asia News Agency) via REUTERS)

247 – Uma reportagem da teleSUR, assinada por Nicolás Hernández, afirma que as manifestações registradas no Irã no início de janeiro de 2026, apresentadas por meios de comunicação ocidentais como um levante pacífico reprimido por um “regime autoritário”, teriam sido instrumentalizadas por atores estrangeiros para impulsionar uma insurreição violenta e criar as condições políticas e midiáticas para uma ofensiva externa contra Teerã.

Segundo a teleSUR, a denúncia se apoia em uma investigação conduzida por Max Blumenthal e Wyatt Reed, descrita como baseada em fontes abertas, documentos de inteligência e relatos de campo. A linha central é que existiria uma estratégia coordenada para transformar descontentamento social real em um dispositivo de desestabilização, combinando violência organizada, manipulação de números e uma guerra informacional voltada a legitimar o objetivo de “mudança de regime” na República Islâmica.

O ponto de partida: protestos com raízes sociais e econômicas

De acordo com a teleSUR, as manifestações teriam começado com reivindicações genuínas. Comerciantes, trabalhadores e cidadãos comuns teriam ido às ruas para denunciar o estrangulamento econômico associado a anos de sanções ocidentais.

O texto sustenta que, nesse primeiro momento, não haveria registro de incidentes nem de repressão. A virada, diz a reportagem, ocorreu quando uma rede transnacional hostil ao Estado iraniano teria passado a capturar a mobilização, substituindo pautas sociais por ações de choque e violência.

A captura do movimento: quando a rua vira campo de batalha

A teleSUR descreve uma sequência de episódios que, segundo o texto, teriam sido documentados em vídeos verificados — inclusive compartilhados por grupos opositores — e que apontariam para uma escalada incompatível com a ideia de um protesto “espontâneo”.

Entre os exemplos citados estão incêndios criminosos, ataques a estruturas públicas e religiosas e linchamentos. A reportagem menciona, por exemplo, bombeiros mortos em Mashhad, a morte a tiros de Melina Asadi, de três anos, em Kermanshah, além de mesquitas incendiadas em cidades como Teerã e Sarableh, com a destruição de exemplares do Alcorão. Também são citados casos de agentes de segurança desarmados linchados em diferentes províncias.

A teleSUR argumenta que esses episódios teriam sido sistematicamente marginalizados na cobertura de grandes meios ocidentais, que prefeririam fixar a narrativa em um esquema binário: “manifestantes pacíficos” contra um “regime sanguinário”. Para o texto, essa moldura seria funcional a uma estratégia de guerra informativa, cujo objetivo é ampliar pressão internacional e preparar medidas coercitivas futuras.

A engrenagem por trás do “câmbio de regime”

A reportagem sustenta que, por trás da aparência de uma “sociedade civil” autônoma, haveria uma infraestrutura financeira e logística com epicentro em Washington e com participação direta de Israel.

A teleSUR cita duas organizações sediadas nos Estados Unidos — o Centro Abdorrahman Boroumand para os Direitos Humanos no Irã e Ativistas de Direitos Humanos no Irã — descritas como fontes recorrentes de grandes veículos internacionais. Segundo a reportagem, ambas receberiam recursos da Fundação Nacional para a Democracia (NED), apresentada como uma entidade com histórico de ingerência.

O texto também afirma que a NED teria, em março de 2025, atribuído a si mesma o mérito de impulsionar os protestos “Mulher, Vida, Liberdade” de 2023. Na leitura da teleSUR, isso reforçaria o argumento de que mecanismos externos estariam por trás da tentativa de reformatar protestos e convertê-los em plataforma de desestabilização.

Israel entra “a céu aberto” e a violência ganha legitimação política

Outro eixo apontado pela teleSUR é a atuação direta do Mossad no ambiente digital e no incentivo à rua. A reportagem menciona uma publicação em persa atribuída à conta oficial do serviço israelense na rede social X, em 8 de janeiro, convocando iranianos a irem às ruas e afirmando que Israel estaria com eles “sobre o terreno”.

Ainda segundo o texto, a teleSUR diz que figuras como Reza Pahlavi teriam contribuído para legitimar a escalada ao declarar que funcionários estatais e meios oficiais seriam “alvos legítimos”. A reportagem apresenta isso como parte de uma disputa por liderança simbólica num eventual cenário pós-ruptura institucional.

Guerra de números: mortos, estatísticas e a disputa pela “verdade oficial”

Um dos mecanismos centrais descritos pela teleSUR é a disputa em torno das cifras de mortos. A reportagem afirma que o governo iraniano teria confirmado a morte de mais de 100 agentes de segurança, incluindo bombeiros e policiais, enquanto organizações vinculadas ao ambiente descrito como financiado pela NED divulgariam números que atribuiriam centenas de mortes exclusivamente ao Estado, sem distinguir civis, manifestantes armados e agentes do ordenamento.

O texto cita como exemplo a estimativa de 544 mortos atribuída a “Ativistas de Direitos Humanos no Irã”, descrita como amplamente reproduzida por veículos internacionais apesar de, segundo a teleSUR, carecer de verificação independente.

A reportagem também relata que agentes e plataformas teriam amplificado alegações ainda mais extremas: a teleSUR menciona a ativista de extrema direita Laura Loomer, apontada como aliada de Donald Trump, alegando sem provas milhares de mortos, e cita também a plataforma Polymarket como difusora de números massivos e supostos colapsos urbanos no Irã. O texto apresenta essa dinâmica como parte do motor psicológico da guerra híbrida: criar pânico, acelerar consenso e empurrar decisões de força.

A “janela para intervenção” e a pressão aberta de Washington

A teleSUR afirma que análises externas teriam interpretado os protestos como oportunidade para intervenção. O texto menciona a empresa Stratfor e um documento descrito como defendendo que a instabilidade poderia abrir espaço para ações encobertas ou abertas destinadas a desestabilizar o governo iraniano.

A reportagem também registra declarações atribuídas a Donald Trump, apresentado como o presidente dos Estados Unidos, com ameaças de agir caso o Irã “atire em manifestantes pacíficos”, além de medidas econômicas e a possibilidade de opções que variariam de ciberataques a bombardeios aéreos. O texto menciona ainda um chamado a “patriotas iranianos” para assumir o controle de instituições e a suspensão de contatos diplomáticos com autoridades iranianas.

Reação interna: atos pró-soberania e silêncio seletivo

De acordo com a teleSUR, enquanto o Ocidente celebraria “manifestantes valentes”, milhões de iranianos teriam ido às ruas em diferentes cidades para condenar atos violentos, rejeitar ingerência estrangeira e exigir paz e soberania.

A reportagem afirma que essas mobilizações seriam frequentemente ignoradas na cobertura ocidental, e interpreta o silêncio como um componente da guerra informativa: ao omitir a rejeição popular à ingerência, a narrativa internacional tenderia a normalizar a escalada contra Teerã.

A dimensão militar: céu carregado, dissuasão e risco de guerra total

A teleSUR ainda descreve um pano de fundo militar, sustentando que a região teria entrado em um estágio de escalada aérea e de preparação defensiva. O texto relata a presença de meios militares dos Estados Unidos, a capacidade de guerra eletrônica e o uso de aeronaves de apoio para prolongar operações, enquanto o Irã reforçaria um “escudo aéreo”, ajustando posições defensivas e ampliando prontidão em bases estratégicas.

Segundo a reportagem, essa dimensão é tratada como parte do conceito de guerra híbrida: desestabilização interna combinada a ameaça externa, criando um corredor para uma ação “cirúrgica” sob justificativa humanitária ou de “proteção” de manifestantes. A teleSUR sustenta, porém, que a própria lógica de uma agressão direta poderia produzir efeito inverso, ampliando nacionalismo e unidade interna no Irã.

Os pontos da “guerra híbrida”

Na síntese apresentada pela reportagem, “guerra híbrida” é o uso combinado de ferramentas para derrubar um governo sem depender apenas de uma invasão clássica. Isso incluiria:

  •  Captura de protestos legítimos e conversão em caos organizado
  •  Ações violentas e simbólicas para quebrar autoridade do Estado
  •  Guerra informacional, com disputa de imagens, números e versões
  •  Fontes internacionais que alimentam cobertura seletiva e pressionam por sanções e ações externas
  •  Sinais de apoio e coordenação por atores estrangeiros, criando “lideranças alternativas”
  •  Escalada militar paralela, para que a intervenção esteja pronta caso haja “janela” política

A teleSUR conclui que, no caso iraniano descrito no texto, a combinação entre violência nas ruas, manipulação de narrativas e pressão internacional apontaria para uma operação de desestabilização cujo objetivo final seria a mudança de regime, com risco crescente de confronto regional de grandes proporções.

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