EUA e Irã divergem sobre inspeções nucleares
Acordo de paz entre EUA e Irã enfrenta impasse sobre ativos congelados, Estreito de Ormuz e presença de Israel no Líbano
247 - O acordo de paz entre EUA e Irã entrou em uma fase de incerteza após Washington e Teerã apresentarem versões conflitantes sobre inspeções nucleares, ativos congelados, controle do Estreito de Ormuz e o papel de Israel no Líbano. As informações são da Reuters.
Segundo a Reuters, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou na terça-feira (23), que o Irã teria aceitado inspeções nucleares “infinitas”, enquanto Teerã negou ter feito essa concessão nas negociações. A divergência levantou dúvidas sobre a viabilidade do frágil entendimento firmado entre os dois países para encerrar a guerra.
As duas partes concluíram na segunda-feira a primeira rodada de negociações na Suíça. Apesar do impasse, Trump disse que as conversas avançavam de forma positiva.
“Estamos nos entendendo muito bem”, afirmou o presidente dos EUA em um comício na Pensilvânia.
Em publicação nas redes sociais, Trump também declarou que Teerã teria aceitado ampliar o acesso de inspetores internacionais às suas instalações nucleares danificadas.
“O Irã concordou plena e completamente com o mais alto nível de inspeções nucleares por muito tempo no futuro (infinito!!!)”, disse Trump.
O governo iraniano, porém, negou que seu programa nuclear tenha sido discutido nas conversas e afirmou que não concordou em convidar novamente inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica ao país.
Ativos congelados também dividem Washington e Teerã
Outro ponto de atrito envolve o acesso do Irã a recursos congelados em contas no exterior. Trump afirmou que eventuais ativos liberados seriam usados para a compra de alimentos e suprimentos médicos dos Estados Unidos.
Já o embaixador iraniano na Organização das Nações Unidas em Genebra, Ali Bahreini, disse que caberia ao Irã decidir como aplicar o dinheiro.
Washington já concordou em suspender sanções contra Teerã por 60 dias, o que permite ao Irã vender petróleo e produtos relacionados, além de receber pagamentos por essas operações. O acordo-quadro também prevê o fim imediato da guerra, a suspensão das sanções norte-americanas contra Teerã, o desbloqueio de ativos iranianos mantidos no exterior e a criação de um fundo de US$ 300 bilhões para a reconstrução da República Islâmica.
Apesar disso, o texto inicial não estabelece limites ao programa nuclear iraniano. A questão deverá ser tratada em um período de 60 dias de negociações.
Estreito de Ormuz volta ao centro das tensões
O acordo inicial permitiu a retomada do tráfego pelo Estreito de Ormuz, passagem estratégica que normalmente concentra cerca de um quinto do fornecimento global de energia.
A Organização Marítima Internacional, agência da ONU para navegação, informou que trabalha para evacuar 11 mil marinheiros que ficaram retidos após o fechamento da passagem pelo Irã. Pelo entendimento atual, Teerã deve permitir a circulação livre de embarcações por 60 dias, embora tenha indicado que poderá impor pedágios ou outras taxas posteriormente.
Em comunicado conjunto, Irã e Omã, que controla o outro lado do estreito, defenderam seus “direitos soberanos” sobre a hidrovia e afirmaram que atuarão juntos na gestão do tráfego e dos custos associados.
Omã informou ter coordenado com a Organização Marítima Internacional a criação de um corredor temporário para embarcações que queiram atravessar o Estreito de Ormuz.
O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, em visita a aliados no Golfo preocupados com o acordo de paz, afirmou que o Irã não será autorizado a cobrar pedágios no estreito em um eventual acordo final.
Trump pressiona empresas de petróleo
Em meio à queda dos preços do petróleo, Trump disse na quarta-feira ter orientado o Departamento de Justiça a investigar empresas petrolíferas por não reduzirem os preços dos combustíveis nas bombas no mesmo ritmo da queda do petróleo bruto.
“Os preços da gasolina devem começar a cair muito mais rápido do que estou vendo!”, afirmou Trump em uma rede social.
Os preços do petróleo recuaram mais de 1% na quarta-feira, ampliando as perdas da semana e sendo negociados perto dos menores níveis desde antes do início da guerra, em 28 de fevereiro.
Apoio interno à guerra diminui nos EUA
Nos Estados Unidos, o apoio à guerra mostra sinais de desgaste. Os índices de aprovação de Trump caíram, enquanto o Senado, controlado pelos republicanos, desafiou o presidente e votou pela suspensão do conflito.
A votação terminou com 50 votos a favor e 48 contra, endossando uma resolução já aprovada pela Câmara dos Representantes neste mês. A medida tem caráter amplamente simbólico, mas evidencia divisões dentro do Partido Republicano e uma crescente preocupação com a guerra, inclusive entre aliados de Trump.
De acordo com uma pesquisa Reuters/Ipsos, 35% dos norte-americanos acreditam que os Estados Unidos estão em uma posição mais frágil em relação ao Irã do que antes da guerra. Outros 23% avaliam que o país está em uma posição mais forte.
Foi a primeira vez que as duas casas do Congresso aprovaram uma resolução ordenando ao presidente a retirada das Forças Armadas dos EUA das hostilidades com base na Lei de Poderes de Guerra. Ainda não estava claro, no entanto, qual impacto prático as votações poderiam ter sobre o conflito.
Israel continua sendo obstáculo
A guerra paralela de Israel contra o Hezbollah, aliado do Irã no Líbano, também permanece como um dos principais pontos de tensão.
Bahreini afirmou que o acordo exige a retirada das tropas israelenses do Líbano. Israel, por sua vez, declarou que manterá uma zona de segurança no sul do país e atuará para “neutralizar” ameaças contra soldados e cidadãos israelenses.
Mesmo com a retomada das negociações entre Israel e Líbano em Washington na terça-feira, disparos israelenses mataram duas pessoas no sul do Líbano, segundo a defesa civil e o Ministério da Saúde libaneses. O Hezbollah acusou Israel de violar o cessar-fogo, que vinha sendo amplamente mantido desde domingo.
Flexibilização para seleção iraniana na Copa
Em paralelo às negociações diplomáticas, os Estados Unidos flexibilizaram restrições de viagem para a seleção iraniana de futebol que disputa a Copa do Mundo. A medida permitirá que a equipe viaje de Tijuana, no México, para Seattle dois dias antes de sua próxima partida, em vez de apenas um dia antes.
A decisão ocorre enquanto Washington e Teerã tentam sustentar um acordo ainda marcado por divergências públicas sobre seus principais termos. As negociações dos próximos 60 dias devem definir se o entendimento inicial será capaz de se transformar em um acordo duradouro ou se as diferenças sobre inspeções nucleares, ativos congelados, Ormuz e Líbano voltarão a ampliar a tensão entre os dois países.



