Gastos militares globais atingem recorde histórico e escancaram nova corrida armamentista mundial
Relatório do SIPRI revela concentração de poder, avanço da Europa e tensões geopolíticas que impulsionam aumento contínuo das despesas militares
247 – Os gastos militares globais atingiram um novo recorde histórico em 2025, chegando a US$ 2,887 trilhões, segundo relatório divulgado pelo Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI). O documento aponta que este é o 11º ano consecutivo de crescimento, consolidando uma tendência de militarização crescente no cenário internacional.
O levantamento mostra que o aumento foi de 2,9% em termos reais em relação a 2024 e que, ao longo da última década, os gastos cresceram impressionantes 41%. A participação dos investimentos militares no PIB global também subiu, alcançando 2,5% em 2025 — o nível mais alto desde 2009.
Concentração de poder e hegemonia militar
Um dos aspectos mais marcantes do relatório é a forte concentração dos gastos militares em poucas potências. Apenas cinco países — Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha e Índia — responderam por 58% de todo o investimento global em defesa.
Os Estados Unidos continuam sendo o maior gasto militar do planeta, com US$ 954 bilhões, o equivalente a cerca de um terço do total mundial. Ainda assim, houve uma queda de 7,5% em relação ao ano anterior, refletindo a redução de assistência militar externa, especialmente ligada à guerra na Ucrânia.
A China, por sua vez, segue em trajetória ascendente, com crescimento de 7,4% e gastos estimados em US$ 336 bilhões. O país mantém um processo contínuo de modernização militar, com investimentos em tecnologias avançadas e expansão de suas capacidades estratégicas.
Já a Rússia elevou seus gastos para cerca de US$ 190 bilhões, mantendo o peso significativo de 7,5% do PIB — um dos maiores níveis do mundo — em meio à guerra prolongada na Ucrânia.

Europa lidera nova escalada militar
O relatório destaca uma mudança relevante no eixo do crescimento dos gastos: a Europa tornou-se o principal motor da expansão militar global.
Os países europeus elevaram suas despesas em 14% em 2025, alcançando US$ 864 bilhões — o maior nível já registrado pelo SIPRI.
Esse avanço reflete diretamente o impacto da guerra na Ucrânia e o aumento das tensões com a Rússia, além das incertezas sobre o compromisso dos Estados Unidos com a segurança europeia.
A Alemanha se destacou com um crescimento de 24%, atingindo US$ 114 bilhões, enquanto países como Espanha (+50%) e Polônia (+23%) registraram aumentos expressivos.
A própria Ucrânia ampliou seus gastos em 20%, destinando cerca de 40% do seu PIB para a guerra — o maior esforço militar proporcional do mundo.
Ásia acelera corrida armamentista
Na Ásia e Oceania, os gastos militares chegaram a US$ 681 bilhões, com crescimento de 8,1% em 2025.
A região vive uma intensificação da corrida armamentista, impulsionada por disputas estratégicas envolvendo China, Estados Unidos e aliados regionais.
O Japão aumentou seus gastos em quase 10%, enquanto Taiwan elevou suas despesas em 14%, em resposta às crescentes tensões com Pequim.
A Índia também ampliou seus investimentos, especialmente após conflitos com o Paquistão, consolidando-se como uma das principais potências militares emergentes.
América perde protagonismo relativo
Diferentemente de outras regiões, as Américas registraram queda de 6,6% nos gastos militares, totalizando US$ 1,065 trilhão.
Ainda assim, o continente continua dominante, respondendo por 37% do total global — fortemente influenciado pelos Estados Unidos, que concentram 90% das despesas da região.
Na América do Sul, o Brasil aparece como o principal investidor militar, com US$ 23,9 bilhões em 2025, após crescimento de 13%, impulsionado por investimentos tecnológicos e aumento de custos com pessoal.
OTAN amplia peso global e levanta questionamentos
Os países da OTAN responderam por 55% dos gastos militares globais, com US$ 1,581 trilhão em 2025.
O relatório aponta que a aliança decidiu elevar sua meta de gastos para até 5% do PIB até 2035, o que pode acelerar ainda mais a militarização global.
Especialistas alertam que essa ampliação pode gerar distorções, com países reclassificando despesas civis como militares para cumprir metas, além de reduzir a transparência e o controle público.
Guerra, tensões e nova ordem global
O relatório do SIPRI deixa evidente que o aumento dos gastos militares está diretamente ligado ao agravamento das tensões geopolíticas globais.
Conflitos como a guerra na Ucrânia, disputas territoriais na Ásia, tensões no Oriente Médio e rivalidades entre grandes potências têm impulsionado uma nova corrida armamentista.
A tendência indica um mundo cada vez mais polarizado e militarizado, no qual recursos gigantescos são direcionados à defesa, muitas vezes em detrimento de áreas sociais.
Ao mesmo tempo, o crescimento desigual entre países e regiões revela uma reconfiguração do poder global, com avanço de potências emergentes e relativa perda de protagonismo dos Estados Unidos, ainda que permaneçam na liderança absoluta.
O cenário traçado pelo SIPRI aponta para um período de instabilidade prolongada, no qual o aumento dos gastos militares não apenas reflete conflitos existentes, mas também pode alimentá-los, aprofundando disputas e dificultando caminhos de cooperação internacional.



