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Governo alemão enfrenta rejeição elevada enquanto acelera transformação militar

Com forte insatisfação popular no governo de Friedrich Merz, país avança em uma reestruturação militar marcada por aumento de investimentos e modernização

Friedrich Merz, em 29 de abril de 2026 (Foto: REUTERS/Liesa Johannssen)

247 - A Alemanha atravessa um momento de inflexão histórica em sua política de defesa ao mesmo tempo em que o governo do chanceler Friedrich Merz enfrenta níveis elevados de rejeição. Um ano após assumir o poder, a gestão registra 85% de insatisfação popular, segundo avaliação destacada pela cientista política Ulrike Franke, do Conselho Europeu de Relações Exteriores, em entrevista à RFI.

De acordo com Franke, o cenário que envolve o governo alemão é resultado de uma combinação de fatores internos e externos. Ela aponta que "a situação internacional é difícil, assim como a situação econômica", além das tensões próprias de uma coalizão governamental. "É um governo de coalizão e há disputas demais, tensões por todos os lados", afirmou.

A pesquisadora também associa parte do desgaste do chanceler a falhas de comunicação. Segundo ela, "de vez em quando ele comete erros verbais que prejudicam sua popularidade e sua política".

Bundeswehr 

Enquanto o governo enfrenta desgaste político, a política de defesa da Alemanha segue em trajetória oposta, marcada por uma expansão significativa. A meta de transformar a Bundeswehr no principal exército convencional da Europa vem sendo colocada em prática dentro de uma estratégia descrita como uma mudança estrutural profunda.

Segundo Franke, "hoje se diz que a Bundeswehr é o exército convencional mais potente da Europa". Ela acrescenta que o país vive uma "Zeitenwende", expressão usada para descrever uma mudança de doutrina militar. O processo inclui aumento expressivo do orçamento de defesa, com investimentos de centenas de bilhões de euros destinados à modernização das forças armadas.

Apesar do avanço, a pesquisadora afirma que a transformação é gradual. "Há muitas coisas em preparação, e isso leva tempo", disse. Entre os principais desafios, Franke destaca a redução da dependência militar dos Estados Unidos e a necessidade de reforço de pessoal. Atualmente, a Bundeswehr conta com cerca de 180 mil soldados, com meta de ultrapassar 200 mil nas próximas décadas.

Mudança de doutrina 

Durante décadas após a Segunda Guerra Mundial, a Alemanha manteve uma política de baixo investimento militar, sustentada pela presença dos Estados Unidos e pela percepção de que grandes confrontos armados haviam se tornado improváveis. Esse cenário começou a mudar após o início do conflito entre Ucrânia e Rússia, em 24 de fevereiro de 2022.

A pesquisadora avalia que a retirada parcial de tropas estadunidenses da Europa não altera de imediato o equilíbrio de forças, já que o país abriga entre 35 mil e 40 mil militares dos EUA em diversas funções estratégicas. No entanto, ela considera mais sensível a ausência de novos sistemas de mísseis de alcance intermediário em território alemão, o que pode afetar a capacidade de dissuasão europeia.

Franke argumenta ainda que a Europa possui capacidade econômica e populacional para se defender de forma autônoma no longo prazo, mas alerta para os desafios estruturais do processo. "A longo prazo, poderemos nos adaptar, mas será necessário muito dinheiro e mais coordenação europeia", afirmou.

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