Implementação do BRICS Pay avança; analistas comentam desafios para reduzir dependência do dólar
Sistema inspirado no Pix busca ampliar transações em moedas locais, mas enfrenta barreiras técnicas, políticas e institucionais
247 - O BRICS Pay, sistema de pagamentos internacionais desenvolvido pelas nações que integram o grupo, começa a ganhar forma como uma das principais apostas para ampliar o uso de moedas locais no comércio internacional, reduzir custos de transação e diminuir a dependência do dólar. Ainda em fase de testes, a plataforma se inspira no Pix brasileiro e utiliza tecnologia blockchain, mas especialistas alertam que sua consolidação dependerá da superação de entraves técnicos, políticos e institucionais.
As informações são da Sputnik Brasil. O tema foi discutido nesta segunda-feira (15) no podcast Mundioka e deve estar entre os destaques da 18ª Cúpula do BRICS, prevista para setembro, em Nova Deli, na Índia, país que exerce a presidência rotativa do grupo neste ano.
A proposta do BRICS Pay é permitir transações internacionais instantâneas diretamente entre moedas nacionais dos países integrantes do bloco. Na prática, o sistema busca criar uma alternativa para operações financeiras hoje dependentes do dólar e de estruturas tradicionais como o SWIFT, principal rede usada em transferências internacionais.
Para Matheus Cecílio, doutor em economia política internacional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o projeto se insere em um movimento mais amplo de desdolarização, mas seu impacto inicial tende a ser mais operacional do que geopolítico. Segundo ele, o objetivo imediato não é substituir o dólar, e sim tornar o comércio entre os países do BRICS mais ágil e menos oneroso.
"Todos os países podem se unir. Isso pode reduzir os custos de transação, firmas e consumidores podem transacionar de maneira mais fácil, mas potencialmente muito mais rápida e sem se expor a custos cambiais."
Na avaliação de Cecílio, a plataforma pode ajudar empresas e consumidores ao reduzir intermediações e facilitar pagamentos em moedas locais. Ele afirmou que, se for bem estruturado e incentivado, o BRICS Pay poderia representar entre 15% e 20% do comércio internacional até 2030, conforme estimativa do Conselho Empresarial do BRICS citada no programa. Os países do bloco, segundo o levantamento mencionado, já respondem por cerca de 40% do produto global.
Apesar do potencial, Cecílio ponderou que a transformação do sistema financeiro internacional exige uma condição ainda distante: a existência de uma moeda forte capaz de sustentar uma mudança estrutural nas transações globais.
"Reduzir o papel do dólar efetivamente tem uma contrapartida qualitativa na vida diária das economias emergentes, à medida que elas não vão precisar no futuro se preocupar tanto com conseguir e manter moeda forte, vastos colchões de reservas internacionais, como é o caso do Brasil, como é o caso da China, por exemplo, a fim de que possam dar seguimento aos seus processos industrializantes ou reindustrializantes em alguns casos", afirmou.
O especialista observou que, no curto e no médio prazo, a implementação técnica da plataforma é viável. No entanto, reproduzir a confiança, a liquidez e o alcance hoje oferecidos pelo dólar exigiria mudanças muito mais profundas. Para ele, o longo prazo dependerá de esforços mais robustos e de estratégias que ainda não estão claramente definidas.
O professor Luiz Antonio Joia, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ebape), também vê a iniciativa como relevante, mas considera prematuro tratá-la como uma ruptura da ordem financeira global. Para ele, a grande dificuldade está na heterogeneidade dos países que compõem o BRICS.
"Há diferentes infraestruturas tecnológicas, diferentes modelos regulatórios, diferentes contextos socioeconômicos, e isso tudo teria que ser interligado. É uma iniciativa interessante, mas tem muita, muita água para rolar ainda aí", disse Joia ao Mundioka.
A comparação com o Pix, segundo o professor, ajuda a explicar a ambição do projeto, mas também evidencia seus limites. O sistema brasileiro opera dentro de uma única jurisdição, sob regras definidas pelo Banco Central e com integração entre bancos e fintechs nacionais. O BRICS Pay, por sua vez, teria de conectar moedas, bancos centrais, legislações, sistemas financeiros e interesses políticos distintos.
"O Pix é uma coisa maravilhosa, sensacional, sucesso. Mas o Pix é local, é Brasil. Então você trabalha com o Banco Central, trabalha com as fintechs, trabalha com os bancos aqui. Agora você está falando de uma moeda só, está falando de um sistema que vai falar com diferentes moedas, diferentes países, diferentes contextos, diferentes governanças, diferentes bancos centrais, diferentes cenários políticos. […] Muitas barreiras para chegar a um consenso."
Outro obstáculo apontado pelos analistas é a diferença no grau de digitalização entre os membros do bloco. Cecílio lembrou que a China já opera em um ambiente financeiro amplamente digitalizado, enquanto outros países do BRICS ainda têm parcelas expressivas da população em processo de adaptação a serviços de pagamento digital.
Esse descompasso tecnológico dificulta a criação de uma plataforma comum e plenamente funcional. Além disso, a definição da moeda ou do arranjo monetário a ser usado nas transações segue como uma das questões mais sensíveis para o avanço do projeto.
Mesmo com essas limitações, os entrevistados avaliam que o BRICS Pay pode se tornar um instrumento útil para determinadas operações, especialmente em moedas locais. A tendência, no curto prazo, é que o sistema conviva com o SWIFT, em vez de substituí-lo. Para pequenas e médias empresas, a plataforma poderia representar uma alternativa para reduzir custos e simplificar pagamentos em relações comerciais dentro do bloco.
Os especialistas também destacaram que sistemas de pagamento não são apenas ferramentas técnicas. Em um cenário internacional marcado por disputas geopolíticas, infraestruturas financeiras podem se tornar alvo de pressões e conflitos entre potências.
Cecílio citou as críticas e ações dos Estados Unidos contra o Pix brasileiro como exemplo da dimensão política que esse tipo de tecnologia pode assumir.
"O Pix é uma grande pedra no sapato das bandeiras de cartão de crédito, como Visa e Mastercard", afirmou. "A gente tem visto esse tema ser mais candente aqui na corrida eleitoral brasileira: um dos candidatos ao posto de chefe de Estado neste ano mencionou possivelmente abandonar o Pix e usar um sistema que é americano, que é o Zelle."
A discussão ocorre em um momento de expansão do BRICS. O grupo, formado inicialmente por Brasil, Rússia, Índia e China, passou a contar depois com a África do Sul e incorporou novos integrantes nos últimos anos. Essa ampliação aumentou o peso político e econômico do bloco, mas também tornou mais complexa a coordenação interna.
Para Joia, a diversidade social, econômica, política e tecnológica dos países do BRICS é um fator que pode retardar a implementação de projetos comuns. Ao mesmo tempo, ele considera que a busca por uma ordem internacional mais multipolar tende a fortalecer iniciativas desse tipo.
"A China propõe os fóruns multilaterais, é defensora do multilateralismo e vem assumindo cada vez mais esse papel que os americanos estão um pouco deixando de lado, principalmente a partir da segunda administração [do presidente Donald] Trump", afirmou.
Na visão do professor, o BRICS também funciona como um teste para a China em sua tentativa de ocupar espaços no sistema internacional por meio de uma atuação mais diplomática. A consolidação do BRICS Pay dependerá, porém, da capacidade do bloco de transformar uma proposta tecnicamente promissora em uma infraestrutura financeira estável, interoperável e aceita pelos diferentes países que o compõem.



