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Irã diz que houve avanços em negociações nucleares com os EUA em Genebra

Chanceler iraniano afirma que países chegaram a princípios orientadores para um possível acordo, mas os EUA mantêm ameaça de ação militar

Abbas Araghchi (Foto: Asgaripour / WANA via Reuters )

247 - O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, declarou que houve “bons progressos” nas negociações nucleares indiretas com os Estados Unidos realizadas na cidade suíça de Genebra, em meio a um cenário de escalada militar no Golfo Pérsico. O encontro, mediado por Omã, ocorreu na terça-feira (17), e teve como foco a tentativa de destravar um novo entendimento sobre o programa nuclear iraniano e as sanções impostas por Washington.

Reportagem da Al Jazeera, destaca que, apesar do tom mais otimista do governo iraniano, autoridades americanas voltaram a afirmar que a opção militar continua em consideração caso o processo diplomático não avance.

Após o encontro, Araghchi afirmou à televisão iraniana que houve um avanço importante em relação à rodada anterior, realizada em Omã no início do mês. Segundo ele, as partes chegaram a um entendimento inicial que poderá servir de base para um possível acordo.

“No fim, conseguimos chegar a um amplo acordo sobre um conjunto de princípios orientadores, com base nos quais avançaremos e começaremos a trabalhar no texto de um possível acordo”, disse o chanceler iraniano.

Araghchi avaliou que houve evolução concreta em comparação com a etapa anterior. “Houve um bom progresso” e, segundo ele, o processo agora conta com um rumo definido. “Agora temos um caminho claro pela frente, o que considero positivo”, declarou.

Apesar disso, o ministro reconheceu que ainda há diferenças relevantes a serem superadas. “Levará tempo para diminuir” a distância entre as posições dos dois países. Araghchi afirmou ainda que, quando ambos os lados apresentarem versões preliminares de um eventual acordo, “as versões serão trocadas e uma data para uma terceira rodada [de negociações] será definida”.

EUA mantêm ameaça militar

Em Washington, o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, também indicou que a diplomacia segue como caminho preferencial, mas afirmou que persistem obstáculos que podem limitar o avanço das conversas.

“De certa forma, correu bem; eles concordaram em se encontrar depois”, disse Vance em entrevista à Fox News.

Ao mesmo tempo, o vice-presidente ressaltou que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estabeleceu limites que ainda não foram aceitos por Teerã. “Mas, por outro lado, ficou muito claro que o presidente estabeleceu algumas linhas vermelhas que os iranianos ainda não estão dispostos a reconhecer e a negociar”, afirmou.

Vance declarou ainda que o governo americano seguirá tentando avançar, mas sem descartar o fim das negociações. “Vamos continuar trabalhando nisso. Mas, é claro, o presidente reserva-se o direito de dizer quando achar que a diplomacia chegou ao seu fim natural”, completou.

Sanções e enriquecimento de urânio 

O Irã busca há anos o alívio das sanções impostas pelos Estados Unidos, incluindo a proibição de outros países comprarem petróleo iraniano. Teerã insiste que qualquer acordo precisa trazer benefícios econômicos claros, preservando sua soberania e sua segurança nacional.

De acordo com o governo iraniano, as negociações devem se concentrar no programa de enriquecimento de urânio. Washington, por sua vez, exige que o Irã abandone completamente o enriquecimento em território nacional e tenta ampliar o escopo das conversas para incluir temas não nucleares, como o programa de mísseis iraniano.

O Irã rejeita essa ampliação e afirma que não aceitará enriquecimento zero, além de insistir que suas capacidades militares não estão em negociação.

Escalada militar 

As negociações em Genebra ocorreram sob forte tensão militar na região do Golfo. Os Estados Unidos enviaram dois porta-aviões para a área. O USS Abraham Lincoln, que transporta quase 80 aeronaves, foi localizado a cerca de 700 quilômetros da costa iraniana no domingo, segundo imagens de satélite mencionadas pela reportagem.

A presença do porta-aviões coloca caças F-35 e F-18 em posição considerada estratégica para possíveis operações militares. Um segundo porta-aviões foi enviado no fim de semana, ampliando ainda mais a demonstração de força americana.

Do lado iraniano, o líder supremo aiatolá Ali Khamenei fez declarações sobre a capacidade do país de atingir embarcações dos EUA. “Um navio de guerra é certamente uma arma perigosa, mas ainda mais perigosa é a arma capaz de afundá-lo”, afirmou.

O Irã também reforçou sua movimentação militar ao iniciar exercícios no Estreito de Ormuz por meio do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC), com o objetivo declarado de se preparar para “potenciais ameaças à segurança e militares”.

Segundo a mídia iraniana, no momento em que as negociações começaram em Genebra, o país chegou a fechar temporariamente partes do Estreito de Ormuz por razões de “medidas de segurança”, enquanto os exercícios militares eram realizados na região.

Estreito de Ormuz 

O Estreito de Ormuz é considerado uma rota vital para a exportação de petróleo dos países árabes do Golfo e um dos pontos mais sensíveis do comércio global de energia. O Irã já ameaçou repetidamente fechar a hidrovia caso seja atacado, o que poderia interromper cerca de um quinto do fluxo mundial de petróleo e provocar alta brusca nos preços internacionais.

Além disso, Teerã também advertiu que poderia atacar bases militares americanas na região em caso de ofensiva contra seu território.

Guerra de 12 dias e ataques a instalações nucleares ampliaram crise

A reportagem lembra que uma tentativa anterior de diplomacia fracassou no ano passado, quando Israel lançou ataques surpresa contra o Irã em junho, desencadeando uma guerra de 12 dias. Durante o conflito, os Estados Unidos se envolveram brevemente e bombardearam três instalações nucleares iranianas em Natanz, Fordow e Isfahan.

Analista vê espaço para acordo na questão nuclear

Ali Vaez, diretor do projeto Irã do Crisis Group, afirmou à Al Jazeera que considera haver margem significativa para entendimento no campo nuclear, especialmente porque o programa iraniano teria sido enfraquecido após o conflito de junho.

“Simplesmente porque o programa nuclear do Irã foi prejudicado na prática, e, portanto, parte do custo do compromisso já foi absorvido”, disse.

Vaez afirmou que isso poderia facilitar concessões temporárias sobre o enriquecimento. “Deveria ser mais fácil para os iranianos aceitarem o enriquecimento zero por um período de tempo, porque eles não ligaram uma única centrífuga desde a guerra de 12 dias em junho”, declarou.

No entanto, ele apontou que temas não nucleares devem continuar como obstáculo central. “Mas quando se trata de questões não nucleares, como atividades regionais ou seu programa de mísseis, acho que, na melhor das hipóteses, os iranianos estarão dispostos a fazer concessões superficiais, não o tipo de capitulação em grande escala que os EUA esperam”, avaliou.

Armas nucleares

Também na terça-feira, o presidente iraniano Masoud Pezeshkian reiterou, em entrevista publicada, que Teerã não pretende desenvolver armas nucleares. “Absolutamente não busca armas nucleares”, disse.

Pezeshkian afirmou ainda que o país aceita inspeções internacionais. “Se alguém quiser verificar isso, estamos abertos a que essa verificação seja feita”, declarou.

Ao mesmo tempo, ele reforçou que o Irã não aceitará restrições ao uso civil da tecnologia nuclear. “No entanto, não aceitamos que sejamos impedidos de usar a ciência e o conhecimento nuclear para tratar nossas doenças e para promover o avanço de nossa indústria e agricultura”, acrescentou.

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