Irã e EUA trocam acusações sobre ataques e ameaçam cessar-fogo no Golfo
Ataques podem levar acordos firmados ao colapso
247 - Irã e EUA trocam acusações após novos ataques no Golfo, elevando o risco de colapso do cessar-fogo mediado em junho e reacendendo temores sobre a segurança no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio global de petróleo. Segundo a Al Jazeera, a escalada ocorreu após Washington e Teerã atribuírem um ao outro a responsabilidade por ações militares recentes na região.
De acordo com a Al Jazeera, a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã afirmou neste sábado (27) ter atacado alvos dos Estados Unidos no Golfo Pérsico em retaliação a bombardeios norte-americanos contra instalações iranianas de mísseis, drones e radares. Washington, por sua vez, sustenta que suas ações foram uma resposta ao que classificou como ataque iraniano com drone contra um navio cargueiro no Estreito de Ormuz.
O Comando Central dos Estados Unidos, o Centcom, declarou que os ataques contra depósitos de mísseis e drones iranianos, além de posições de radar costeiro, ocorreram em resposta à “agressão injustificada contra a navegação comercial por parte das forças iranianas”, que, segundo os militares norte-americanos, “violou claramente o cessar-fogo”.
A tensão aumentou após a televisão estatal iraniana informar que uma explosão foi ouvida na noite de sexta-feira na região do cais de Taheroui, na cidade portuária de Sirik, no sul do Irã. A emissora citou uma fonte militar segundo a qual a explosão teria sido causada pelo impacto de um projétil na área.
A agência iraniana Mehr informou, no entanto, que “o porto de Sirik está operando normalmente e não foram relatados danos aos seus equipamentos ou instalações”. A versão foi divulgada em meio à troca de comunicados entre autoridades militares dos dois países.
O Centcom descreveu a ofensiva norte-americana como “uma resposta contundente ao ataque de ontem a um navio comercial que transitava pelo Estreito de Ormuz”. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já havia atribuído o episódio ao Irã e afirmou: “Obviamente, esta é uma violação insensata do nosso acordo de cessar-fogo”.
O vice-presidente norte-americano JD Vance também elevou o tom ao publicar no X que “a violência será respondida com violência” caso o Irã realize novos ataques. Pouco depois, já na manhã de sábado no horário iraniano, a televisão estatal do Irã informou que a Guarda Revolucionária Islâmica havia respondido com ataques contra alvos americanos na região do Golfo.
Em comunicado divulgado pelo canal da emissora estatal no Telegram, a Guarda Revolucionária Islâmica advertiu: “Caso a agressão se repita, nossa resposta será mais abrangente”. A declaração reforçou a percepção de que o cessar-fogo assinado em 17 de junho, no âmbito de um Memorando de Entendimento entre Washington e Teerã, entrou em sua fase mais delicada desde o anúncio.
O memorando não representava um acordo final, mas funcionava como uma base provisória para negociações futuras. Entre os pontos centrais estavam a redução das hostilidades, a reabertura gradual do diálogo e discussões sobre o tráfego no Estreito de Ormuz, passagem marítima vital para o transporte de energia.
Antes da nova escalada, o Irã havia alertado embarcações para não entrarem nem deixarem o Golfo pelo estreito sem autorização de Teerã. Mesmo assim, navios continuaram circulando pela região, alguns deles por rotas não reconhecidas pelo governo iraniano.
Apesar do aumento das tensões, os preços do petróleo recuaram diante da expectativa de que a circulação pelo Estreito de Ormuz continue em processo de normalização. A avaliação do mercado, porém, voltou a ser pressionada depois do ataque de quinta-feira contra o Ever Lovely, navio comercial registrado em Singapura, episódio que recolocou a crise entre Irã e Estados Unidos no centro das preocupações internacionais.
Outro fator de instabilidade é o bombardeio israelense ao Líbano, constitui uma violação dos termos do memorando. A ação também contribuiu para colocar o acordo em risco. Ainda assim, na sexta-feira, após negociações mediadas pelos Estados Unidos, Israel e Líbano assinaram um “acordo-quadro” que, segundo Washington, tem o objetivo de encerrar o “ciclo de conflito interminável”.
Além da disputa militar no Golfo, o programa nuclear iraniano permanece como um dos principais obstáculos para um entendimento definitivo. O chefe da Agência Internacional de Energia Atômica, Rafael Grossi, afirmou que qualquer acordo final entre Estados Unidos e Irã precisará incluir salvaguardas rigorosas para impedir que Teerã desenvolva uma arma nuclear.
“O governo do Irã declarou de forma bastante clara que essa não é sua intenção”, disse Grossi na sexta-feira, ao comentar a possibilidade de produção de armas nucleares pelo país. “Mas é claro que as intenções não bastam. Precisamos ter um sistema de verificação muito robusto em funcionamento… o mais rápido possível.”
O acordo provisório prevê que o estoque de urânio enriquecido do Irã, estimado antes da guerra em 440 quilos e com enriquecimento a 60%, seja “diluído” sob supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica. A retomada do acesso de inspetores às instalações iranianas, no entanto, continua cercada por versões divergentes entre Teerã e Washington.
A sucessão de ataques e declarações ampliou as incertezas sobre a continuidade do cessar-fogo e sobre a capacidade de Estados Unidos e Irã manterem aberta uma via diplomática em meio à pressão militar no Golfo Pérsico.



