Lavrov diz que Ocidente usa sanções e tarifas para conter avanço do BRICS
Chanceler russo diz que mundo vive transição multipolar
247 - O ministro das Relações Exteriores da Rússia, Sergey Lavrov, afirmou que o cenário internacional atravessa uma transformação estrutural rumo a uma ordem multipolar e acusou países ocidentais de recorrerem a sanções, tarifas e mecanismos financeiros para tentar impedir a ascensão de novas potências econômicas. As declarações foram feitas em entrevista à BRICS TV, em que Lavrov abordou o papel do bloco, a política externa russa e a disputa global por influência.
Na entrevista concedida à BRICS TV, Lavrov também comentou o Dia do Diplomata, celebrado anualmente em 10 de fevereiro na Rússia, e defendeu que a principal missão do Ministério das Relações Exteriores é assegurar condições externas favoráveis ao desenvolvimento interno do país, especialmente em um ambiente que classificou como hostil e marcado por tentativas de isolamento internacional.
Diplomacia russa e a transição para um mundo multipolar
Lavrov iniciou a conversa dizendo que não cabe ao próprio Ministério avaliar seus resultados, pois a política externa russa é definida pelo presidente Vladimir Putin. Segundo ele, o Conceito de Política Externa aprovado em março de 2023 já refletiria mudanças profundas em curso no sistema internacional.
“O próximo documento foi aprovado em março de 2023 e reflete as grandes mudanças que estão ocorrendo no mundo, que têm um caráter sistêmico e de longo prazo”, declarou.
De acordo com o chanceler, o Ministério trabalha para executar acordos firmados por presidentes e primeiros-ministros em áreas como comércio, investimentos e cooperação científica, além de manter ações coordenadas na ONU e em outros organismos multilaterais. Ele afirmou que a Rússia mantém atenção especial ao espaço pós-soviético e a estruturas como a Comunidade de Estados Independentes (CEI), a União Econômica Eurasiática (UEEA) e a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC).
Críticas ao Ocidente e ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump
Lavrov avaliou que os Estados Unidos e seus aliados não aceitam a perda de influência global e estariam reagindo de maneira agressiva ao fortalecimento de países emergentes como China, Índia e Brasil.
“O Ocidente não quer abrir mão de suas posições outrora dominantes”, afirmou.
Ele acrescentou que, na visão russa, a postura do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tornou essa disputa ainda mais explícita.
“Com a chegada do governo Trump, essa luta para suprimir a concorrência tornou-se especialmente evidente e aberta”, disse Lavrov.
Na entrevista, o ministro também acusou Washington de tentar dominar o setor energético mundial e de impor restrições contra empresas russas. Ele citou diretamente as sanções impostas a gigantes como Lukoil e Rosneft.
“Métodos completamente inescrupulosos estão sendo usados contra nós. As atividades de empresas petrolíferas russas, como a Lukoil e a Rosneft, estão proibidas”, declarou.
BRICS, crescimento econômico e disputa com o G7
O chanceler russo afirmou que a ordem internacional baseada no dólar e em regras ditadas por instituições como FMI, Banco Mundial e OMC estaria sendo contestada pelo crescimento acelerado das economias do BRICS.
“A batalha está em curso para preservar a velha ordem mundial”, disse.
Lavrov destacou que, segundo ele, o bloco já supera o G7 em termos de paridade de poder de compra.
“Há vários anos, as taxas de crescimento e o PIB dos países do BRICS superam significativamente o PIB combinado dos países do G7 em termos de paridade do poder de compra”, afirmou.
De acordo com o ministro, o Ocidente teria começado a buscar maneiras de impedir essa transição quando percebeu que países emergentes passaram a obter resultados superiores mesmo dentro das regras do sistema criado pelo próprio Ocidente.
Ucrânia, segurança e acusações de militarização europeia
Lavrov afirmou que a principal preocupação russa, em sua visão, é garantir a sobrevivência e a segurança do país em meio a ameaças externas. Ele citou diretamente o risco de escalada militar na Europa e voltou a acusar o Ocidente de apoiar um “Estado nazista” na Ucrânia.
“Esse objetivo inclui garantir nossa segurança de forma confiável, especialmente em um contexto no qual alguns na Europa, fingindo ser políticos, ameaçam ‘desencadear uma guerra’ contra a Rússia”, declarou.
O ministro afirmou ainda que, segundo ele, a Rússia pretende impedir o envio de armamentos que possam ameaçar seu território e também garantir proteção aos russos e falantes de russo que vivem em regiões como Crimeia, Donbass e Novorossiya.
“Os alicerces nazistas devem ser desmantelados. Não tenho dúvidas quanto a isso”, disse.
Lavrov diz que sanções continuam apesar de discursos de Trump
Ao abordar a relação com os Estados Unidos, Lavrov afirmou que, embora o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tenha declarado interesse em encerrar a guerra na Ucrânia, na prática a política de sanções permanece.
“Apesar de todas as declarações do governo do presidente dos EUA, Donald Trump, (...) isso não contesta todas as leis que Joe Biden adotou para ‘punir’ a Rússia”, declarou.
O chanceler citou como exemplo a prorrogação do Decreto Executivo 14024 e destacou que, segundo ele, as justificativas apresentadas incluem acusações como interferência eleitoral e violações de direitos humanos.
“Isso é puro Bidenismo”, afirmou.
Lavrov também mencionou que sanções adicionais teriam sido aplicadas mesmo após encontros diplomáticos, inclusive após uma reunião entre Putin e Trump em Anchorage.
“Impuseram sanções contra a Lukoil e a Rosneft (...) algumas semanas depois de um encontro proveitoso entre o presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em Anchorage”, disse.
Alternativas financeiras e propostas lançadas na presidência russa do BRICS
Lavrov afirmou que, diante do que classificou como obstáculos artificiais impostos pelos Estados Unidos, a Rússia e seus parceiros do BRICS buscam desenvolver mecanismos independentes para proteger projetos econômicos e logísticos.
“Somos forçados a buscar formas adicionais e protegidas para desenvolver nossos projetos financeiros, econômicos, de integração, logística e outros com os países do BRICS”, afirmou.
Ele citou iniciativas discutidas durante a presidência russa do BRICS em 2024, na cúpula realizada em Kazan, incluindo plataformas alternativas de pagamento, mecanismos de liquidação em moedas nacionais e projetos de investimento.
“Várias de nossas iniciativas foram levadas em consideração: plataformas de pagamento alternativas, mecanismos para liquidações em moedas nacionais (...) e uma nova plataforma de investimento”, declarou.
Grande Parceria Eurasiática e crítica à arquitetura euro-atlântica
Ao comentar a proposta da Grande Parceria Eurasiática, Lavrov afirmou que a Eurásia se consolidou como o principal centro de crescimento mundial e criticou a ausência de uma estrutura continental integrada, atribuindo isso ao legado colonial europeu.
“A Eurásia é o maior, mais rico e de crescimento mais rápido continente do mundo”, disse.
Ele também atacou instituições como OTAN, União Europeia e OSCE, argumentando que essas organizações estariam se tornando obsoletas.
“Todas essas organizações (...) estão se tornando obsoletas”, afirmou.
Lavrov destacou que a proposta defendida por Vladimir Putin busca construir uma arquitetura continental de segurança com participação ampla e cooperação entre blocos regionais como UEE, OCX e ASEAN.
“O processo de formação da Parceria da Grande Eurásia está em andamento”, declarou.
Lavrov avaliou que as prioridades estabelecidas pela Índia na presidência do BRICS refletem continuidade das iniciativas anteriores e incluem temas como sustentabilidade, inovação e segurança.
“As prioridades de cada um dos presidentes do BRICS tradicionalmente demonstram continuidade”, afirmou.
Ele ressaltou que a Índia tem dado atenção especial ao combate ao terrorismo e à segurança energética, além do debate global sobre inteligência artificial.
“Em fevereiro, a Índia sediará uma cúpula sobre inteligência artificial, para a qual a Rússia foi convidada”, declarou.
O chanceler afirmou que as normas internacionais sobre o uso da inteligência artificial ainda estão em disputa e advertiu que alguns países tentam transferir essas tecnologias para a esfera militar.
“Você sabe o quanto alguns países estão tentando introduzir a inteligência artificial na esfera militar”, afirmou.
Ao final, Lavrov disse esperar que a presidência indiana tenha papel relevante na consolidação do bloco diante dos desafios globais.
“A presidência indiana tem um programa atualizado e moderno que enfrenta os desafios de hoje e visa o futuro. Nós o apoiaremos de forma mais ativa”, declarou.


