AI Gemini

Resumo premium do artigo

Exclusivo para assinantes

Síntese jornalística com foco no essencial, em segundos, para leitura rápida e objetiva.

Fazer login
HOME > Mundo

Macron anuncia expansão nuclear e nova doutrina de dissuasão na Europa

Presidente francês confirma aumento de ogivas, novo submarino nuclear e participação de aliados em exercícios estratégicos

O presidente da França, Emmanuel Macron, em Paris - 14/07/2025 (Foto: REUTERS/Gonzalo Fuentes)

247 - O presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou nesta segunda-feira (2) um reforço significativo na estratégia nuclear do país, com a ampliação do número de ogivas e a adoção de uma nova fase da chamada “dissuasão avançada”, segundo informações divulgadas pelo jornal Le Monde. O pronunciamento foi feito na base naval de Île Longue, em Brest, considerada um dos pilares da força estratégica francesa.

Macron afirmou que a França permitirá que aliados europeus participem de exercícios de dissuasão e confirmou a construção de um novo submarino nuclear lançador de mísseis balísticos. Batizado de “L’Invincible”, o equipamento “será lançado em 2036”, declarou o chefe de Estado.

Logo na abertura de seu discurso, Macron enfatizou o caráter soberano da estratégia nuclear francesa. “A dissuasão deve permanecer um princípio francês inviolável”, afirmou. Ele acrescentou: “Como presidente da República, eleito por sufrágio universal direto, vim aqui reiterar-lhes com a máxima força o compromisso da nação, o meu compromisso, com a prossecução desta missão fundamental”, descrevendo o modelo francês como uma “dissuasão robusta e eficaz”.

O presidente reforçou a mensagem de firmeza ao advertir possíveis adversários: “Todos aqueles que tiverem a audácia de atacar a França sabem o preço insuportável que terão de pagar”, mencionando a possibilidade de “danos inaceitáveis”, expressão tradicional da doutrina nuclear francesa para definir a resposta a ataques contra interesses vitais do país.

Macron ressaltou, no entanto, que a imutabilidade do princípio não significa estagnação. “Intangível não significa inerte”, declarou, ao relembrar discurso de 2020 em que indicou que os interesses vitais da França poderiam ultrapassar suas fronteiras territoriais. “Fiel à tradição republicana, estabeleci os fundamentos de nossa doutrina nuclear e seu lugar no mundo”, completou.

Implementação da "dissuasão avançada"

O chefe de Estado classificou o novo momento como uma resposta ao ambiente internacional. “Estamos atravessando um período de turbulência geopolítica repleto de riscos”, afirmou, defendendo um “endurecimento” do modelo francês. Segundo ele, “não podemos mais considerar as ameaças isoladamente”.

Macron citou o apoio da Coreia do Norte à Rússia na guerra na Ucrânia e questionou: “Qual é o preço do apoio maciço da Coreia do Norte à guerra de agressão [da Rússia]? Quais são as ramificações do tratado de aliança entre os dois países? E quanto à extrema dependência em que a Rússia se colocou em relação à China? Devemos levar tudo isso em consideração”. Ele também prometeu se pronunciar “nos próximos dias” sobre o conflito no Oriente Médio, que, segundo afirmou, “traz e trará a sua cota de instabilidade e possível conflagração às nossas fronteiras”.

Na avaliação do presidente, o cenário global aponta para “um aumento do risco de que os conflitos ultrapassem o limiar nuclear” e, simultaneamente, para “uma intensificação dos conflitos”. Ele alertou que “o risco de ultrapassar os limites é maior”, sobretudo diante de confrontos envolvendo potências com capacidade nuclear ou em processo de expansão.

Reforço das capacidades convencionais

Macron detalhou o que chamou de capacidades de “apoio de ombro”, essenciais para sustentar a dissuasão. “Alerta avançado para detectar ameaças, defesa aérea ampliada para proteção contra elas e capacidades de ataque profundo para contra-atacar e agir ofensivamente: é a isso que chamamos de ‘ombros de ferro’”, explicou. Para ele, “para sermos fortes na nossa dissuasão nuclear, devemos ser fortes nas nossas capacidades convencionais, em todas as suas dimensões”.

O presidente avaliou que a Europa apresenta uma “gritante falta de capacidade de apoio” nessas áreas e classificou a situação como “insustentável”. “Para ser livre, é preciso ser temido”, enfatizou.

Novo submarino e aumento de ogivas

Ao tratar da modernização do arsenal, Macron afirmou que “uma modernização do nosso arsenal [nuclear] é essencial”. Ele anunciou com “grande honra” que o futuro submarino nuclear francês se chamará “L’Invincible” e confirmou seu lançamento para 2036.

O presidente também revelou ter determinado a ampliação do estoque nuclear. “Ordenei um aumento no número de ogivas nucleares em nosso arsenal”, disse, acrescentando: “Não divulgaremos mais números sobre nosso arsenal nuclear, ao contrário do que pode ter acontecido no passado”. A doutrina francesa, segundo ele, continuará baseada na “estrita suficiência”, ou seja, na manutenção do número considerado necessário, sem excedentes.

Papel europeu e soberania da decisão

Macron destacou que a segurança francesa nunca foi pensada apenas dentro das fronteiras nacionais. “Nossa segurança nunca foi concebida exclusivamente dentro dos limites do nosso território, seja ele convencional ou nuclear”, afirmou, anunciando que “uma nova fase da dissuasão francesa pode, portanto, tomar forma”.

Apesar da abertura para exercícios conjuntos, ele foi categórico ao afirmar que não haverá compartilhamento da decisão final. “Também não haverá partilha da definição de interesses vitais, que continuará a ser uma questão de julgamento soberano para o nosso país”, declarou. A doutrina manterá “seu caráter estritamente defensivo, a recusa da batalha nuclear, a ruptura total e presumida entre o convencional e o nuclear”, com o alerta nuclear permanecendo “a critério exclusivo da França”.

A chamada “dissuasão avançada” permitirá que parceiros “participem em exercícios de dissuasão” e possibilitará, “em determinadas circunstâncias, o destacamento de elementos de força estratégica entre os nossos aliados”. Macron revelou que, “neste inverno, altos funcionários britânicos participaram de um dos nossos exercícios aéreos estratégicos pela primeira vez desde a criação da nossa dissuasão nuclear”.

Segundo o presidente, a medida “fortalecerá nossa defesa, dando-lhe mais alcance” e proporcionará “uma nova profundidade estratégica, coerente com os desafios de segurança na Europa”. Ele ressaltou que a iniciativa é complementar à missão nuclear da OTAN e que o projeto foi conduzido “com total transparência junto aos Estados Unidos da América e em estreita coordenação com o Reino Unido”.

Distribuição de esforços na Europa

Ao defender maior integração europeia na área de defesa, Macron apontou três frentes prioritárias: “alerta precoce”, com uso de satélites e radares; “controlo do nosso espaço aéreo, com defesa aérea reforçada e proteções antimísseis e antidrones”; e “capacidades de ataque profundo”.

“Ao se unirem a nós neste apoio mútuo, os países parceiros podem ajudar a fortalecer as capacidades da Europa nessas três áreas”, declarou, defendendo uma “distribuição justa de esforços”. “E a França, portanto, será claramente uma vencedora”, acrescentou.

Por fim, o presidente lamentou que “os europeus se tenham habituado a que a sua segurança dependa de regras definidas por terceiros”. Ele defendeu a reconstrução de um novo arcabouço de estabilidade no continente e conclamou os parceiros a se unirem ao trabalho iniciado com Alemanha e Reino Unido para redefinir as bases da segurança europeia.

Artigos Relacionados