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Motos elétricas chinesas avançam no Sudeste Asiático em meio à crise do petróleo

Escassez de combustível impulsiona exportações da China para Mianmar, Laos e Camboja no primeiro trimestre

Motos elétricas da NIU Technologies são exibidos em uma conferência de imprensa em Changzhou, província de Jiangsu, China (Foto: Reuters)

247 - As motos elétricas chinesas aceleram no Sudeste Asiático em meio à escassez de combustível e à disparada dos preços da gasolina, movimento que fez as exportações para Mianmar saltarem 617,5% no primeiro trimestre. Segundo reportagem publicada pelo Valor Econômico neste sábado (2), com informações da Caixin, a crise energética provocada pela guerra no Oriente Médio abriu uma janela de crescimento para fabricantes chinesas de veículos elétricos de duas rodas.

O avanço ocorre em uma região historicamente dominada por motocicletas a gasolina, mas cada vez mais pressionada por custos elevados de abastecimento. De acordo com os dados citados pela reportagem, o valor exportado pela China em veículos elétricos de duas rodas para Mianmar chegou a 64,7 milhões de yuans, o equivalente a US$ 9,5 milhões, nos três primeiros meses do ano.

A demanda também cresceu em outros mercados vizinhos. As exportações chinesas para o Laos subiram 25,7%, alcançando 43,5 milhões de yuans. Já os embarques ao Camboja avançaram 34,2%, para 38,2 milhões de yuans. O caso de Mianmar, porém, foi o mais expressivo, devido à falta de combustível e às restrições adotadas pelo governo.

Em 7 de março, as autoridades de Mianmar implementaram um sistema de rodízio para veículos particulares e motocicletas movidas a gasolina, com base no número final das placas — pares e ímpares. Os veículos elétricos ficaram fora da restrição, o que ajudou a acelerar a procura por modelos movidos a bateria.

Durante a Feira de Cantão, em 19 de abril, um executivo de uma fabricante chinesa relatou à Caixin que uma concessionária local recém-integrada à rede comprou 200 veículos elétricos e conseguiu vendê-los rapidamente. A reportagem não identificou o executivo pelo nome.

No Laos, o governo tentou conter os efeitos da alta dos combustíveis com uma redução do imposto sobre consumo de combustível em 18 de março. Dois dias depois, em 20 de março, o país anunciou que universidades passariam a concentrar as aulas em três dias por semana, como forma de reduzir deslocamentos e aliviar a pressão sobre o consumo.

No Camboja, a pressão foi semelhante. A agência Xinhua informou em 26 de março que, desde o início do conflito no Oriente Médio, os preços da gasolina, do diesel e do gás liquefeito de petróleo subiram 41,5%, 84% e 60%, respectivamente. Nesse contexto, outro executivo de fabricante chinesa afirmou à reportagem que a empresa ampliou rapidamente sua rede de concessionárias no Laos e no Camboja ao longo do primeiro trimestre.

Especialistas do setor avaliam que o volume real de exportações pode ser maior do que o captado pelos dados alfandegários. Isso porque parte das empresas chinesas envia kits desmontados para montagem local, estratégia usada para aproveitar incentivos fiscais nos países de destino.

Apesar do impulso provocado pela crise do petróleo, a expansão de longo prazo das motocicletas elétricas no Sudeste Asiático ainda enfrenta obstáculos. Relatório da Guotai Haitong Securities, de 24 de março, apontou que cerca de 15 milhões de motocicletas foram vendidas em nove países da região em 2025, mas a participação dos modelos elétricos ainda é reduzida.

O Vietnã aparece como o mercado mais avançado nesse processo. Em 2023, a penetração de motocicletas elétricas no país chegou a cerca de 10%. Em Indonésia, Tailândia, Malásia e Filipinas, porém, a participação permaneceu em um dígito, sinalizando que a adoção em massa ainda depende de preço, infraestrutura e desempenho dos modelos.

Um dos principais entraves está na tecnologia das baterias. Motocicletas com baterias de chumbo-ácido são mais baratas que modelos a gasolina, mas têm autonomia menor e vida útil mais limitada. Já as versões com baterias de íon-lítio oferecem desempenho superior, mas ainda custam caro para grande parte dos consumidores da região.

Entre os governos do Sudeste Asiático, o Vietnã adotou a agenda mais clara de eletrificação. Em julho de 2022, o país lançou um plano de ação para eletrificar totalmente os veículos de transporte até 2050. Em Hanói, onde circulam quase 7 milhões de motocicletas a gasolina, o conselho municipal aprovou em 26 de novembro de 2025 uma resolução para testar, a partir de julho de 2026, uma zona de baixa emissão dentro do Anel Viário 1.

A medida em Hanói prevê restrições graduais à circulação de motocicletas movidas a gasolina, com limites por horário e área. Para as fabricantes chinesas, a política vietnamita é vista como uma oportunidade estratégica em um mercado de grande escala e alta dependência de motos.

A Yadea Holdings, listada em Hong Kong, já trata o Sudeste Asiático como prioridade. A empresa inaugurou em 2019 uma fábrica na província vietnamita de Bac Giang, com capacidade inicial de 200 mil unidades por ano, e lançou formalmente no início de 2026 uma nova unidade em Bac Ninh, projetada para produzir 1 milhão de veículos anualmente.

Mesmo com a expansão internacional, a operação fora da China ainda tem peso limitado para a Yadea: em 2025, a receita no exterior representou menos de 10% do faturamento total. A concorrente Tailg também reforçou presença regional ao abrir, em agosto de 2024, uma fábrica na província vietnamita de Hung Yen, com capacidade anual prevista de 350 mil unidades.

A combinação de combustível caro, políticas públicas de restrição a veículos a combustão e investimentos industriais chineses indica que o Sudeste Asiático se tornou um campo decisivo para a próxima fase da disputa global por mobilidade elétrica de duas rodas.

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