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Países do Golfo reavaliam aliança militar com EUA após ampliação da guerra

Especialista afirma que guerra com Irã expõe limites das garantias de segurança oferecidas por Washington a países que hospedam bases militares americanas

Presença militar dos EUA no Golfo Pérsico (Foto: Divulgação)

247 - A escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã e a reação do país persa está levando países do Golfo a repensarem os fundamentos de suas parcerias estratégicas de segurança com os Estados Unidos. Governos da região que mantêm presença militar norte-americana em seus territórios passaram a questionar a eficácia dessas alianças depois de uma série de ataques e ameaças que atingiram diretamente seus territórios.

Em entrevista à Al Jazeera, o pesquisador sênior Hussein Ibish, do Arab Gulf States Institute (IGSI), afirmou que o atual cenário representa um momento decisivo para as monarquias do Golfo, que há décadas estruturam sua segurança nacional com base na proteção oferecida por Washington. Segundo ele, a dinâmica recente do conflito revela que essa proteção nem sempre se materializa na prática.

Ibish classificou o momento como um ponto de inflexão no relacionamento entre os países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC) e os Estados Unidos. “Este é um ponto de inflexão entre muitos, que remonta pelo menos a Barack Obama e à sua linha vermelha sobre o uso de armas químicas pelo regime sírio, várias administrações atrás. E agora temos mais um exemplo em que a promessa, ou a suposição implícita de proteção que se obtém ao hospedar bases americanas e ter os Estados Unidos como parceiro de segurança, não se concretiza na prática. Isso não protege você de ser desestabilizado”, afirmou.

Na avaliação do especialista, episódios ocorridos nos últimos anos demonstram as limitações dessa estratégia. Ele recordou que a presença militar americana não impediu que a Arábia Saudita fosse alvo de ataques atribuídos ao Irã em setembro de 2019, nem evitou que Abu Dhabi fosse atingida por ofensivas dos rebeldes houthis do Iêmen no ano seguinte.

Ibish também citou outro episódio que reforça essa percepção de vulnerabilidade regional. “Isso não protegeu o Catar de ser bombardeado por Israel durante as negociações com o Hamas. E não protegeu ninguém, porque todos os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo (GCC), todos os quais mantêm uma relação principal de segurança com Washington, foram atacados pelo Irã — novamente, sem que houvesse consequências”, declarou.

Os países do GCC — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Catar, Kuwait, Omã e Bahrein — mantêm há décadas uma relação central de segurança com os Estados Unidos, baseada em acordos militares, venda de armamentos e presença de bases norte-americanas na região. Contudo, a sequência de ataques e episódios de instabilidade tem alimentado dúvidas sobre o alcance real dessas garantias.

Segundo Ibish, líderes do Golfo passaram a compreender que o envolvimento em uma estratégia de contenção agressiva ao Irã liderada por Washington pode deixá-los expostos a retaliações, sem necessariamente receber proteção efetiva em troca.

Na análise do pesquisador, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita — além do Catar em sua própria abordagem diplomática — já teriam absorvido essa lição estratégica ao longo dos últimos anos.

Ele acrescenta que, nesse contexto, os países do Golfo podem se tornar alvos relativamente fáceis para pressões iranianas, que buscam ampliar o impacto do conflito para além do Oriente Médio.

“Então, não se trata apenas de causar pressão em Washington, mas também na China, no Japão, na Índia, na Coreia do Sul, basicamente em todo o mundo, porque petróleo e gás natural liquefeito são commodities interligadas”, afirmou.

A dependência global do petróleo e do gás natural liquefeito produzido na região significa que qualquer instabilidade no Golfo tende a gerar repercussões amplas no sistema econômico internacional. Por isso, especialistas avaliam que o conflito pode ultrapassar as fronteiras regionais e produzir impactos diretos nos mercados energéticos e na segurança global.

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