Países vizinhos do Irã temem crise de refugiados com intensificação da guerra
Guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã já deslocou milhões e pressiona países da região diante de risco humanitário de grande escala
247 - A escalada da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã já deixou mais de 1.400 mortos, provocou ataques retaliatórios de Teerã e elevou o preço global do petróleo acima de US$ 100 por barril. Dezoito dias após o início dos bombardeios, cresce a preocupação internacional com o impacto humanitário do conflito, especialmente diante da possibilidade de uma nova crise de refugiados.
Segundo reportagem da Al Jazeera, agências humanitárias e países vizinhos ao Irã estão em alerta máximo diante do risco de deslocamentos em massa. A Agência da ONU para Refugiados (ACNUR) estima que cerca de 3,2 milhões de pessoas já foram deslocadas dentro do território iraniano desde o início dos ataques, em 28 de fevereiro.
Embora o fluxo de pessoas cruzando as fronteiras ainda seja limitado, analistas alertam que esse cenário pode mudar rapidamente. O Irã faz fronteira com sete países — Afeganistão, Armênia, Azerbaijão, Iraque, Paquistão, Turquia e Turcomenistão —, todos enfrentando desafios próprios, como instabilidade política, dificuldades econômicas e tensões de segurança.
Dentro do território iraniano, a situação humanitária se agrava. A Sociedade do Crescente Vermelho informou que mais de 10 mil instalações civis foram danificadas, incluindo escolas e unidades de saúde. Os bombardeios atingiram cidades como Teerã, Shiraz e Isfahan, enquanto o espaço aéreo permanece fechado, suspendendo voos comerciais.
De acordo com o analista Eldaniz Gusseinov, da consultoria Nightingale International, os deslocamentos internos tendem a se concentrar em regiões próximas às fronteiras. “Se o padrão de ataques continuar o mesmo, os deslocados internos no Irã se concentrarão cada vez mais em províncias próximas desses países, criando condições para movimentos transfronteiriços”, afirmou.
O especialista também alertou para o risco de colapso urbano em caso de destruição de infraestrutura essencial. “A destruição da infraestrutura não produz fluxos graduais e gerenciáveis. Ela gera deslocamentos súbitos e massivos, impulsionados pelo colapso dos serviços urbanos básicos”, disse.
Turquia teme repetição da crise migratória da Síria
Entre os países vizinhos, Turquia, têm maior experiência na recepção de refugiados. A Turquia, que já abriga cerca de 3,6 milhões de sírios, pode ser um dos destinos mais pressionados.
O pesquisador Imtiaz Baloch destacou que uma nova onda migratória agravaria a situação humanitária. “A Turquia já hospeda muitos refugiados. Um novo fluxo de iranianos provavelmente intensificaria a pressão e criaria novos desafios para governos e agências internacionais”, afirmou.
Com cerca de 530 km de fronteira com o Irã, a Turquia já reforçou suas defesas, construindo muros, torres de vigilância e postos de observação. O governo turco elaborou três planos de contingência, incluindo contenção ainda dentro do território iraniano, criação de zonas de amortecimento e, como último recurso, a entrada controlada de refugiados.
Apesar das medidas, o impacto do conflito já foi sentido no país. Em 9 de março, a OTAN interceptou um míssil balístico iraniano no espaço aéreo turco, cujos destroços caíram próximos à cidade de Gaziantep.
Escala da crise pode superar precedentes recentes
Analistas destacam que o tamanho da população iraniana — cerca de 90 milhões de pessoas — torna o cenário ainda mais preocupante. Em comparação, a guerra civil na Síria deslocou mais de 13 milhões de pessoas.
Caso o Irã enfrente uma crise proporcional, o número de deslocados poderia alcançar dezenas de milhões, criando uma emergência humanitária sem precedentes recentes. Segundo Gusseinov, há um descompasso entre essa possível escala e a capacidade de resposta das agências internacionais.
Além disso, o próprio Irã já abriga cerca de 3,7 milhões de refugiados, principalmente afegãos. “Qualquer deslocamento em massa cria uma crise dupla: iranianos fugindo e refugiados que já estavam no país sendo deslocados novamente”, explicou.
Iraque e Cáucaso enfrentam dilemas complexos
O Iraque, que compartilha a fronteira mais longa com o Irã, vive uma situação particularmente delicada. O país é potencial destino de refugiados e, ao mesmo tempo, palco de tensões militares entre Washington e Teerã.
Pontos de travessia na fronteira iraniana foram fechados devido à instabilidade, enquanto o governo iraquiano monitora a situação com apoio da ONU. A região autônoma do Curdistão, que permite entrada sem visto para iranianos, adiciona complexidade ao cenário.
Mais ao norte, países do Cáucaso Sul, como Armênia e Azerbaijão, também demonstram preocupação. Enquanto o Azerbaijão restringiu o trânsito terrestre, a Armênia mantém sua fronteira aberta, apesar das limitações econômicas.
Paquistão e Afeganistão lidam com crises simultâneas
Na fronteira leste do Irã, Paquistão e Afeganistão enfrentam desafios próprios relacionados a refugiados. Desde 2023, milhões de afegãos retornaram ao seu país, muitos de forma forçada, em meio a políticas de deportação adotadas por Irã e Paquistão.
Somente em 2026, mais de 232 mil afegãos já retornaram ao Afeganistão, segundo o ACNUR. A guerra no Irã pode intensificar esse movimento, pressionando ainda mais comunidades vulneráveis.
Além disso, tensões militares entre Paquistão e Afeganistão complicam a situação regional. O fechamento de fronteiras e conflitos armados recentes reduzem a capacidade de resposta a uma eventual nova onda migratória.
Na província paquistanesa do Baluchistão, que faz fronteira com o Irã, autoridades afirmam ter capacidade para receber refugiados. No entanto, especialistas alertam para riscos adicionais. “Qualquer fluxo significativo pode impor custos econômicos e de segurança ao Paquistão”, disse Baloch.
Com a intensificação dos combates e o agravamento das condições internas no Irã, cresce o temor de que a região enfrente uma crise humanitária de grandes proporções, com efeitos que podem ultrapassar fronteiras e desafiar a capacidade de resposta internacional.


