Jeffrey Sachs alerta para risco de ataque nuclear e diz que guerra contra o Irã é desastre para Israel, EUA e mundo
Em entrevista ao jornalista Glenn Diesen, economista critica a lógica hegemônica de Washington e Benjamin Netanyahu
247 – O economista e professor Jeffrey Sachs afirmou que a escalada da guerra contra o Irã pode levar o Oriente Médio e a economia global a uma situação catastrófica, com riscos crescentes de ampliação do conflito e até de uma confrontação nuclear. Em entrevista ao jornalista Glenn Diesen, Sachs sustentou que a ofensiva liderada por Israel com apoio dos Estados Unidos não traz vantagens estratégicas a nenhuma das partes e descreveu o cenário como um jogo de “perde-perde-perde”.
Na conversa, publicada no canal de Diesen no YouTube, Sachs avaliou que a continuidade da guerra aprofunda a instabilidade energética, ameaça a segurança internacional e aumenta o perigo de uma reação em cadeia em toda a região. Ao comentar as advertências feitas por David Sacks, conselheiro de Donald Trump, Sachs disse que a melhor saída para a Casa Branca seria interromper imediatamente a escalada. “Se isso continuar, será horrível”, afirmou, ao resumir a mensagem que, segundo ele, foi transmitida ao presidente dos Estados Unidos.
Sachs diz que prolongamento da guerra amplia risco de calamidade global
Jeffrey Sachs ressaltou que o impacto econômico do conflito já é grave e tende a se agravar. Segundo ele, não basta recorrer a reservas estratégicas de petróleo para conter o problema, porque a dimensão da crise vai muito além de uma interrupção pontual de fluxo energético.
Em sua avaliação, o fechamento do Estreito de Ormuz e a destruição progressiva de instalações de petróleo e gás representam uma ameaça concreta à economia mundial. “O risco de calamidade global está absolutamente crescendo dia após dia”, declarou. Ele observou ainda que a liberação de 400 milhões de barris de petróleo, mencionada no debate, equivaleria a cerca de 20 dias do fluxo normal pela região, o que considerou insuficiente diante de uma crise prolongada.
Ao tratar do conselho dado por David Sacks a Trump, Sachs afirmou que a recomendação foi clara: encerrar a operação e recuar. “Simplesmente acabe com isso. Isso é um desastre”, disse, acrescentando que, do ponto de vista político, Trump poderia até tentar vender esse recuo como vitória, ainda que isso fosse artificial. “Este é um desastre, mas chame isso de vitória. Trump faz isso facilmente”, ironizou.
Para Sachs, insistir na guerra não interessa a ninguém. “Esta guerra não traz vantagem para ninguém. É uma pura situação de perde-perde-perde em toda parte”, afirmou. Segundo ele, perdem Israel, os Estados Unidos, o Irã, os países do Golfo e o restante do mundo.
Críticas duras a Netanyahu e à estratégia de Washington
Ao longo da entrevista, Sachs fez críticas contundentes ao primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, a quem responsabilizou por incendiar o Oriente Médio. Ele afirmou que havia alertado anteriormente sobre o papel de Netanyahu na desestabilização regional e reiterou essa visão de forma ainda mais dura.
“Não só Netanyahu é o senhor genocídio. Agora ele está colocando todo o Oriente Médio em chamas”, declarou. Em seguida, acrescentou que o mundo começará a perceber rapidamente a dimensão econômica e geopolítica das ações israelenses. “Muito em breve o mundo inteiro vai entender que Israel criou nossa crise econômica global”, disse.
Sachs argumentou que essa estratégia tampouco melhora a segurança israelense. Pelo contrário: em sua avaliação, a atual linha de confrontação coloca Israel em risco muito maior. “Israel está em risco muito maior do que jamais esteve por causa disso”, afirmou. Também advertiu que os Estados Unidos se expõem crescentemente ao perigo de uma guerra nuclear. “Nosso risco é uma guerra nuclear”, disse.
Cinco medidas para encerrar a guerra, segundo Jeffrey Sachs
Durante a entrevista, Sachs apresentou cinco passos que, em sua visão, poderiam abrir caminho para o fim do conflito no Oriente Médio. Ele reconheceu que o plano pode parecer improvável no ambiente atual, mas argumentou que a paz só será possível se os interesses de segurança de todos os lados forem reconhecidos.
O primeiro ponto, segundo ele, é o fim imediato da ofensiva contra o Irã. “Os EUA e Israel precisam parar sua agressão armada descarada, flagrante e ilegal contra o Irã”, afirmou. Sachs rejeitou a tese de ataque preventivo e sustentou que o que ocorre é “agressão nua e crua” em violação ao direito internacional.
O segundo ponto é a retomada de um acordo sobre o programa nuclear iraniano. Sachs lembrou que já existia um pacto firmado em 2015 entre o Irã, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU e a Alemanha, posteriormente ratificado pelo próprio Conselho. “Havia tal acordo. E você, senhor Trump, o rasgou”, afirmou, referindo-se à decisão do atual presidente dos Estados Unidos de abandonar o pacto em 2018.
Ele também destacou que, segundo sua leitura, o Irã reiterou em anos recentes que não deseja armas nucleares e aceita supervisão internacional. “Os iranianos disseram novamente no ano passado e neste ano que não querem uma arma nuclear. Eles querem um acordo negociado”, afirmou.
O terceiro ponto defendido por Sachs é a reabertura do Estreito de Ormuz por meio de um entendimento direto entre o Irã e os países do Golfo. Para isso, ele propôs que esses países reassumam soberania efetiva sobre as bases militares instaladas em seus territórios e impeçam seu uso em ações contra Teerã. “Essas bases nunca deverão ser autorizadas a ser usadas em agressão contra o Irã”, declarou.
O quarto ponto é a criação do Estado da Palestina nas fronteiras de 4 de junho de 1967, com Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental. Para Sachs, essa é a questão central por trás das guerras sucessivas da região. “Israel precisa retornar às suas fronteiras de 4 de junho de 1967 para que um Estado da Palestina seja criado em Gaza, na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental”, disse.
Ele sustentou que a recusa israelense em aceitar um Estado palestino está no centro da violência regional. “Esta é a questão básica de todas essas guerras, inclusive desta”, afirmou. Sachs também enfatizou que quase todo o mundo apoia essa solução, mas que Washington a bloqueia no Conselho de Segurança da ONU. “Os Estados Unidos usam seu veto no Conselho de Segurança da ONU para bloquear isso”, declarou.
Por fim, o quinto ponto seria o desarmamento de grupos armados da região após a criação do Estado palestino. “Hamas, Hezbollah e quaisquer outros grupos militantes serão desarmados”, afirmou. Segundo ele, isso ocorreria porque a própria região e o Conselho de Segurança passariam a exigir tal medida no contexto de uma solução política definitiva.
Segurança indivisível contra a lógica da hegemonia
Um dos eixos centrais da entrevista foi a ideia de “segurança indivisível”, defendida por Diesen e endossada por Sachs. O conceito parte do princípio de que a segurança de um país não pode ser construída à custa da insegurança de outro. Sachs disse que o fracasso em reconhecer esse princípio ajuda a explicar tanto a guerra no Oriente Médio quanto a guerra na Ucrânia.
“Se você quer paz, o que a maioria das pessoas normais no mundo quer, eu diria que todas as pessoas normais no mundo querem, então você reconhece os interesses de segurança de todos”, afirmou. No caso do Irã, ele resumiu esses interesses de forma direta: “Não ser bombardeado repetidamente por Israel e pelos Estados Unidos”.
Sachs comparou esse cenário ao conflito entre Rússia e Ucrânia, argumentando que a recusa do Ocidente em reconhecer as preocupações de segurança russas ajudou a produzir a guerra. “Como os interesses de segurança da Rússia nunca são reconhecidos, não há paz”, disse. Em seguida, acrescentou: “No Oriente Médio é a mesma coisa”.
Para ele, o problema central é a insistência dos Estados Unidos e de seus aliados em manter uma lógica de hegemonia total, em vez de diplomacia e compromisso. “Não precisamos discutir com o Irã. Só precisamos matá-los. É isso”, afirmou, ao resumir o que considera ser o pensamento dominante em Washington e Tel Aviv.
Sachs acusa EUA de delírio de poder e improvisação permanente
Ao analisar por que o Irã teria sido subestimado por Washington, Sachs apontou uma combinação de arrogância estratégica, improvisação e colapso dos mecanismos institucionais de formulação de política externa. Ele lembrou que erros semelhantes ocorreram na Guerra do Iraque, quando previsões triunfalistas fracassaram de forma completa.
“Toda previsão sobre a facilidade da guerra estava errada”, disse. Em seguida, recuperou uma frase que atribuiu a um alto funcionário da Casa Branca durante aquele período: “Nós criamos nossa própria realidade”. Para Sachs, essa mentalidade continua operando no centro do poder norte-americano.
Ele afirmou que o governo Trump atua sem planejamento consistente. “Trump não sabia o que faria depois da primeira hora, mas disse: vamos fazer funcionar”, declarou. Segundo o economista, os Estados Unidos vivem hoje um processo de improvisação contínua. “Estamos em modo de improviso. Temos um presidente psicologicamente instável”, disse.
Sachs foi além e afirmou que o Congresso norte-americano renunciou à própria responsabilidade constitucional, enquanto o aparato de segurança perdeu capacidade de reflexão estratégica. “Não temos sequer processos mínimos de pensamento”, declarou. E prosseguiu: “Não há relatórios, não há estudos, não há escrutínio cuidadoso, não há revisão. É improvisação, é ficar se debatendo”.
Na parte final da entrevista, ele resumiu sua visão sobre a conduta de Trump com uma crítica mordaz. “Meu Deus, uma criança de cinco anos mostraria mais autoconsciência e responsabilidade, francamente”, afirmou.
Guerra regional, energia e o temor de uma escalada sem controle
A entrevista também abordou a hipótese de um ataque ainda mais amplo envolvendo instalações energéticas no Golfo. Nesse cenário, Sachs concordou que o problema deixaria de ser apenas o bloqueio de uma rota estratégica e passaria a envolver a destruição da própria infraestrutura de produção e exportação de energia.
Esse ponto reforça o centro de sua argumentação: a guerra contra o Irã não é apenas uma crise militar localizada. Ela ameaça abastecimento energético, comércio internacional, estabilidade dos mercados e segurança global. Ao mesmo tempo, segundo Sachs, amplia o isolamento político dos próprios responsáveis pela escalada.
Sua avaliação final é de que a insistência em resolver conflitos por supremacia militar e mudança de regime conduz a uma espiral destrutiva. A saída, para ele, passa por diplomacia, reconhecimento mútuo de interesses de segurança, reativação de acordos internacionais e solução concreta para a questão palestina.
No conjunto, a entrevista projeta uma advertência severa: sem freios políticos e diplomáticos, a guerra contra o Irã pode se converter em um dos episódios mais perigosos da atual conjuntura internacional, com efeitos devastadores para o Oriente Médio e para o mundo.


