Jeffrey Sachs: "Estamos nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial"
Economista afirma que conflitos no Oriente Médio, Ucrânia e disputa global por energia já formam um cenário de guerra ampliada
247 - O economista e professor Jeffrey Sachs avaliou que o mundo está entrando nos estágios iniciais de uma terceira guerra mundial, em meio à ampliação dos conflitos no Oriente Médio, à continuidade da guerra na Ucrânia e ao agravamento da disputa entre grandes potências. Na entrevista, ele sustentou que o cenário atual combina instabilidade militar, crise energética e enfraquecimento das instituições internacionais.
A análise foi apresentada em entrevista ao canal de Glenn Diesen no YouTube, na qual Sachs também fez duras críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, à política externa de Washington, ao papel europeu no conflito e ao esvaziamento da Organização das Nações Unidas (ONU).
Para Sachs, a escalada já ultrapassou um conflito localizado. “Estamos provavelmente nos primeiros dias da Terceira Guerra Mundial, e a questão será saber se isso será contido”, disse. Na avaliação dele, a guerra já tem dimensão global, com frentes abertas ou interligadas no Oriente Médio, na Ucrânia e em outras regiões estratégicas, além de impactos diretos sobre o mercado de energia.
O economista afirmou que a atual ofensiva contra o Irã expôs desorganização e falta de clareza na condução da Casa Branca. “Estratégia é uma palavra forte quando se trata de Donald Trump. Eu não acho que exista uma estratégia”, declarou. Em seguida, reforçou sua crítica ao presidente dos Estados Unidos: “O único canal público que temos são as postagens de Donald Trump na Truth Social. Esses são os delírios de um louco”.
Ao comentar os riscos de expansão do conflito, Sachs disse que há sinais de uma guerra cada vez mais difícil de conter. Segundo ele, ataques, movimentações indiretas e alinhamentos entre potências já revelam uma crise que não se limita ao território iraniano. Também advertiu para o impacto econômico global dessa escalada, sobretudo no setor energético. “Estamos entrando também em uma crise mundial de energia que provavelmente será extremamente grave”, afirmou.
Na entrevista, Sachs argumentou que a política dos Estados Unidos busca controlar mercados e rotas estratégicas de energia, mas avalia que a própria dinâmica da guerra está desorganizando esse objetivo. Para ele, a destruição de infraestrutura e a insegurança regional tendem a aprofundar a instabilidade econômica, com efeitos severos sobre a Europa e países asiáticos.
O professor também sustentou que a guerra contra o Irã representa, ao mesmo tempo, um ataque ao sistema multilateral construído no pós-guerra. Segundo ele, o governo Trump despreza abertamente a ONU e age para enfraquecer seus instrumentos políticos e jurídicos. “O governo dos Estados Unidos sob Trump, mas eu diria de forma mais geral também, despreza a ONU, quer destruí-la”, disse. Em outro trecho, resumiu: “Os Estados Unidos estão simplesmente fora da lei ou decididos a destruir a ONU”.
Sachs afirmou ainda que a essência da Carta da ONU vem sendo ignorada por Washington e seus aliados europeus. Para ele, a proibição do uso ou da ameaça de força entre Estados foi esvaziada por uma lógica de poder. “Temos um presidente dos Estados Unidos que acredita que os Estados Unidos governam o mundo e que a violência é um instrumento central para governar o mundo”, declarou.
Ao tratar da Europa, o economista afirmou que o continente perdeu autonomia política e estratégica. Na visão dele, a União Europeia deixou de atuar como projeto de paz e passou a agir de forma subordinada aos interesses de Washington. “A Europa perdeu completamente qualquer identidade e qualquer senso”, disse. Em seguida, acrescentou: “O projeto europeu está se desfazendo como um vassalo dos Estados Unidos”.
A crítica se concentrou especialmente na Alemanha e na atual liderança do bloco. Sachs comparou os governantes atuais a antigos chanceleres alemães e afirmou que os padrões de liderança se deterioraram. Sobre o atual comando alemão, declarou: “Quando você olha para Merz, vê alguém que parece não saber nada de história moderna”. Também disse que a resposta europeia ao conflito com o Irã foi marcada por silêncio diante da ação militar de Estados Unidos e Israel e por acusações concentradas contra Teerã.
Em outro eixo da entrevista, Sachs afirmou que o Estado de direito nos Estados Unidos já vem sendo corroído há décadas por uma política externa conduzida por estruturas permanentes de segurança e inteligência. “Na minha opinião, a política externa está nas mãos da CIA há muitas décadas”, disse. Segundo ele, a aparência institucional de freios e contrapesos não impede a atuação de um aparato voltado a intervenções, mudanças de regime e operações sem transparência pública.
Ele também relacionou esse padrão histórico à recusa dos Estados Unidos em aceitar um mundo multipolar. Para Sachs, a resistência de Washington à perda de hegemonia ajuda a explicar a sucessão de guerras e confrontos com potências emergentes. “A ideia de que os Estados Unidos comandam o mundo, governam o mundo, dominam o mundo e podem fazer o que quiserem é uma loucura”, afirmou.
Ao reconstruir esse argumento, o economista disse que a visão de cooperação entre grandes potências, defendida por Franklin Roosevelt na criação da ONU, foi abandonada logo após a Segunda Guerra Mundial. Em sua leitura, os Estados Unidos substituíram a lógica de responsabilidade compartilhada por um projeto de dominação global, aprofundado depois do colapso da União Soviética.
Sachs também citou Israel como peça central na atual escalada. Segundo ele, a ofensiva contra o Irã está diretamente ligada à estratégia regional israelense e encontra respaldo em uma política externa norte-americana já moldada pela busca de hegemonia. “Israel mergulhou o mundo provavelmente na Terceira Guerra Mundial, mas certamente em uma crise econômica fenomenal”, declarou.
Mesmo ao destacar o peso de Washington e Tel Aviv, o economista afirmou que o desfecho da crise dependerá também da reação de outras potências. Na avaliação dele, China e Rússia aparecem como atores com maior capacidade de frear a escalada, embora a situação siga aberta e altamente perigosa. “Estamos em um momento extraordinariamente perigoso no mundo”, resumiu.


