"Ou os BRICS param Estados Unidos e Israel ou haverá catástrofe global", diz Jeffrey Sachs
Economista afirma que guerra pode provocar crise econômica mundial e diz que apenas uma reação coordenada de grandes potências poderá deter a escalada
247 – O economista norte-americano Jeffrey Sachs afirmou que o mundo pode enfrentar uma grave crise global caso a guerra envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã continue a se intensificar. Em entrevista à CNBC, Sachs declarou que apenas uma ação coordenada das grandes potências — especialmente os países do BRICS — poderá deter a escalada militar e evitar consequências econômicas devastadoras.
A análise foi apresentada durante participação do economista em um programa da CNBC TV18, em meio à crescente tensão militar na Ásia Ocidental após ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã. Segundo Sachs, a continuidade da guerra ameaça desencadear uma crise energética global, com forte impacto nas economias da Ásia, da Europa e também dos próprios Estados Unidos.
Para o economista, o conflito não possui uma estratégia clara por parte de Washington e reflete objetivos geopolíticos mais amplos ligados ao domínio regional e ao controle da economia do petróleo.
“Os Estados Unidos não têm estratégia. Trump, sabemos por toda a experiência, é delirante. Ele é psicologicamente instável. Não consegue manter acordos e não tem uma estratégia de longo prazo”, afirmou Sachs.
Críticas à estratégia dos Estados Unidos e de Israel
Durante a entrevista, Sachs atribuiu a escalada militar à política do governo israelense liderado por Benjamin Netanyahu e ao alinhamento estratégico de Washington com Tel Aviv.
Segundo ele, Netanyahu busca há décadas derrubar o governo iraniano e eliminar qualquer força regional que apoie a causa palestina.
“Netanyahu declarou que esta guerra realiza o sonho de 40 anos de derrubar o Irã”, disse Sachs. “Em vez de aceitar um Estado palestino ao lado de Israel, ele quer que Israel domine todo o Oriente Médio.”
Na avaliação do economista, os Estados Unidos compartilham esse objetivo porque buscam manter sua hegemonia global.
“O objetivo dos Estados Unidos é o controle do mundo. Israel serve ao propósito de controlar o Oriente Médio”, afirmou.
Sachs lembrou que Washington mantém bases militares em diversos países do Golfo, incluindo Bahrein, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos, o que reforça a presença estratégica americana na região.
Ele também destacou que a rivalidade entre Estados Unidos e Irã tem raízes históricas profundas, que remontam ao golpe de 1953 apoiado pela CIA que derrubou o governo iraniano.
Risco de crise econômica global
Na avaliação do economista, a continuidade da guerra pode gerar uma crise econômica comparável aos choques do petróleo da década de 1970.
Sachs alertou que, caso o conflito avance, o Estreito de Ormuz — uma das principais rotas do comércio mundial de petróleo — pode ser fechado, provocando uma disparada nos preços da energia.
“Se a guerra continuar, duas coisas vão acontecer: o Estreito de Ormuz ficará efetivamente fechado e as infraestruturas petrolíferas do Golfo começarão a ser destruídas uma a uma”, disse.
Ele acrescentou que, nesse cenário, o preço do petróleo poderá ultrapassar rapidamente os 100 dólares por barril.
“Teremos uma grande crise econômica global”, afirmou.
Segundo Sachs, as economias mais afetadas seriam as da Ásia e da Europa, altamente dependentes das importações de petróleo do Oriente Médio.
Países do Golfo estariam em risco
O economista também alertou que os países do Golfo podem sofrer diretamente os efeitos da guerra, especialmente por abrigarem bases militares dos Estados Unidos.
Para Sachs, essa presença militar transforma essas nações em alvos potenciais.
“Esses países pensavam que os Estados Unidos eram sua segurança. Na verdade, os Estados Unidos são sua insegurança. Eles funcionam como um ímã que atrai bombas e drones para esses territórios”, disse.
Segundo ele, instalações petrolíferas, portos, refinarias e navios-petroleiros podem se tornar alvos vulneráveis caso a escalada militar continue.
Guerra não terminará em poucas semanas
Durante a entrevista, Sachs também contestou a previsão feita por Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, de que a operação militar poderia terminar em quatro ou cinco semanas.
“Não devemos ouvir Trump sobre isso. Lembrem-se de quando ele disse que acabaria com a guerra da Ucrânia com um telefonema ou que a guerra em Gaza terminaria rapidamente”, afirmou.
Para Sachs, conflitos dessa magnitude raramente terminam em prazos curtos.
Ele comparou a situação atual com outras guerras prolongadas envolvendo os Estados Unidos, como Vietnã, Iraque e Afeganistão.
“Essas pessoas são propagandistas. Não estão oferecendo nenhuma análise séria”, declarou.
BRICS podem impedir a escalada
Na avaliação de Sachs, a única saída realista para encerrar rapidamente o conflito seria uma pressão internacional coordenada contra Estados Unidos e Israel.
Ele afirmou que grandes potências como China, Índia, Rússia e Brasil — integrantes do BRICS — possuem peso suficiente para forçar uma mudança de rumo.
“Esta guerra pode terminar se os governos do mundo disserem a verdade aos Estados Unidos e a Israel: vocês precisam parar com essa agressão agora”, afirmou.
Sachs argumentou que os países do BRICS representam cerca de metade da população mundial e, portanto, possuem legitimidade política e econômica para contestar a escalada militar.
“Se eles se levantarem juntos e disserem ‘acabem com a guerra’, ela realmente acabará”, declarou.
Impacto político nos Estados Unidos
O economista também avaliou que a guerra pode gerar consequências políticas internas para Donald Trump.
Segundo Sachs, o presidente dos Estados Unidos prometeu aos eleitores do movimento MAGA que priorizaria a paz internacional.
“Trump vai perder as eleições de meio de mandato. Ele mentiu ao povo americano, mentiu sobre tarifas e sobre a economia”, afirmou.
Para Sachs, a popularidade do presidente tende a cair ainda mais à medida que os custos econômicos e políticos da guerra se tornarem mais evidentes.
“Sua aprovação já é baixa e continuará caindo”, disse.
Ordem internacional em disputa
Na conclusão de sua análise, Sachs defendeu que a comunidade internacional reforce o sistema de regras baseado na Carta das Nações Unidas para impedir ações unilaterais que possam desencadear crises globais.
Segundo ele, o mundo precisa reagir ao que considera uma escalada militar perigosa.
“Precisamos de um sistema baseado em regras sob a Carta da ONU. Não aceitamos esse tipo de ilegalidade”, afirmou.
Para o economista, o silêncio da comunidade internacional apenas prolongará a crise.
“Dizer a verdade sobre esse esforço ilegal e destrutivo é o mais importante neste momento”, concluiu.


