Sachs diz que EUA fracassarão em guerra com o Irã e acusa Israel de terrorismo
Economista Jeffrey Sachs critica ofensiva contra o Irã, fala em “mudança de regime” e alerta para escalada e custo político nos EUA
247 - A escalada militar envolvendo Irã, Estados Unidos e Israel voltou ao centro do debate geopolítico após novos ataques atribuídos por analistas à estratégia de pressão e confronto no Oriente Médio. Em meio ao agravamento do cenário, o economista e professor Jeffrey Sachs avaliou que a tentativa de impor uma “mudança de regime” em Teerã tende ao fracasso e pode produzir consequências “muito sérias” para a região e para o mundo.
As declarações foram dadas por Sachs em entrevista ao programa India and Global Left, publicado no YouTube, em que ele atribui a ofensiva a uma linha de ação de décadas conduzida por Washington e Tel Aviv e afirma que “este [novo] ataque também vai falhar”. Segundo ele, o objetivo central seria derrubar o governo iraniano “de um jeito ou de outro”, por meio de bombardeios, assassinatos e guerra econômica.
A tese de uma estratégia de longo prazo contra Teerã
Na conversa, Sachs descreve o que chamou de um “programa de longo prazo” envolvendo serviços de inteligência e governos aliados, com o Irã como “grande alvo”. Ele lista, como parte desse rastro de conflitos, episódios como a derrubada do governo na Líbia em 2011, a guerra no Iraque em 2003 e a operação iniciada em 2011 para derrubar o governo sírio, além de citar a ocupação e anexação da Cisjordânia e o que ele define como “genocídio em Gaza”.
Ao comentar a lógica do confronto, o economista sustenta que a dinâmica não se limitaria ao Irã, mas se conectaria ao projeto de hegemonia regional: “Os EUA e Israel miram a hegemonia no Oeste Asiático”, afirma, usando o termo que aparece na entrevista para se referir ao Oriente Médio.
“Israel é um Estado terrorista”, diz Sachs ao citar Gaza
Questionado sobre a natureza dos ataques e seus efeitos sobre civis, Sachs endureceu o tom ao abordar a guerra em Gaza e responsabilizar Israel por mortes em larga escala. “Israel cometeu um genocídio em Gaza. Matou dezenas de milhares de crianças. Então, Israel é um Estado terrorista”, disse, em uma das passagens mais contundentes da entrevista.
Ele também afirmou que ações como assassinatos e tentativas de atingir lideranças políticas extrapolam limites legais e elevam o risco de escalada. “Assassinar chefes de Estado estrangeiros é um comportamento extremamente perigoso, provocativo, imprudente e ilegal”, declarou, acrescentando que “vangloriar-se disso” seria “além do vulgar”.
“Ataques de decapitação” e a aposta frustrada em “mudança de regime”
Na avaliação do professor, uma ação de “decapitação” — termo usado na entrevista para descrever a tentativa de eliminar a cúpula de poder — não derrubaria o Estado iraniano, mas empurraria o país para uma lógica de guerra. Ele argumenta que o Irã é “uma política muito institucionalizada” e que a estrutura de comando tenderia a se reorganizar, com maior protagonismo do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica.
“Um ataque de decapitação, literalmente matando a cabeça do governo, não vai mudar o governo iraniano”, afirmou. Para Sachs, a ideia de que EUA e Israel conseguiriam impor uma transição política em Teerã seria “como tantas outras ações delirantes” e “essencialmente condenada ao fracasso”.
Bases militares no Golfo e o risco para aliados de Washington
Sachs também apontou os países do Golfo como parte vulnerável do tabuleiro, por abrigarem instalações militares norte-americanas. Segundo ele, isso transforma tais Estados em atores sem liberdade plena de decisão. “A região do Golfo não pode falar o que pensa e não fala o que pensa”, disse, ao sustentar que hospedar bases não significaria proteção, mas subordinação.
Na entrevista, ele cita uma máxima atribuída a Henry Kissinger para ilustrar o dilema: “Ser inimigo dos Estados Unidos é perigoso, mas ser amigo é fatal”. Em seguida, recomendou que países evitem sediar bases e, quando já existirem, busquem retirá-las para recuperar soberania.
Guerra de mísseis e limites de munição: semanas decisivas
Ao tratar do campo de batalha, Sachs afirma não ser “um especialista original” em assuntos militares, mas diz ouvir de fontes que o Irã teria mais mísseis do que EUA e Israel teriam capacidade de defesa antimísseis. Se essa leitura estiver correta, ele projeta uma guerra de atrito entre ataque e interceptação, com crescente vulnerabilidade israelense ao longo das semanas.
Ele também menciona a possibilidade de limitação de estoques de munição dos EUA na região. “Pelas contas militares que ouço, os EUA têm duas ou três semanas de munições na região para levar adiante esse bombardeio. Depois disso, quem sabe?”, afirmou, ao acrescentar que outras frentes — como a guerra na Ucrânia e a campanha israelense em Gaza — teriam pressionado inventários norte-americanos.
Trump, opinião pública e custo político interno
A entrevista aborda ainda o impacto doméstico da guerra nos Estados Unidos. Sachs afirma que pesquisas indicariam baixo apoio popular a um conflito e sustenta que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estaria se desgastando. “Trump é impopular e cada vez mais impopular”, disse, avaliando que a guerra “vai acelerar” a queda de sua popularidade caso não haja um “resultado” que ele considere vitorioso.
Ele prevê, ainda, que eventos como mortes de militares norte-americanos, aumento expressivo do preço do petróleo e falhas no sistema de defesa israelense podem transformar o tema em prioridade interna. “Se houver perda de vidas americanas… se houver uma grande disparada do preço do petróleo… isso vai dar uma urgência a esse tema”, afirmou.
Sachs cita também uma pesquisa da Gallup, mencionada na entrevista, como sinal de mudança de percepção pública: pela primeira vez, segundo ele, mais norte-americanos estariam do lado dos palestinos do que dos israelenses. “Israel está, na minha visão, cometendo uma espécie de suicídio político por suas práticas realmente fascísticas”, disse.
ONU dividida e o peso das alianças com os EUA
Ao narrar sua passagem pelo Conselho de Segurança da ONU, Sachs afirmou que foi impedido de depor e descreveu uma reunião marcada por divisão e pelo que considera inversão de responsabilidades. Ele relata que “a maioria dos países” teria culpado o Irã “por ter sido atacado”, e atribui esse comportamento à presença militar norte-americana em certos territórios.
Ele lista oito países — Bahrein, Colômbia, Dinamarca, Grécia, Letônia, Panamá, Reino Unido e Estados Unidos — como exemplos de Estados que, segundo sua avaliação, têm bases norte-americanas ou concedem direitos de uso e, por isso, adotariam a linha de Washington. Para Sachs, essa dinâmica enfraquece a defesa de princípios centrais da Carta da ONU, como a proibição do uso da força contra Estados soberanos.
Ao final, o economista afirmou que sua mensagem aos iranianos seria de solidariedade e oposição às guerras conduzidas, em suas palavras, por estruturas de poder e interesses internos. “As pessoas devem entender no Irã que, como americanos, somos contra o que está acontecendo… Essas não são guerras dos americanos. São guerras do complexo militar-industrial da América”, declarou.


