Farinazzo: "é um erro da esquerda não dialogar com os militares e também dos militares não dialogar com a esquerda"
Comandante defende pacto nacional em torno da soberania, critica isolamento ideológico e alerta para riscos políticos em ano eleitoral
247 – O comandante Robinson Farinazzo afirmou que a polarização política brasileira compromete o debate estratégico sobre defesa e soberania nacional. Em entrevista à TV 247, aos jornalistas Leonardo Attuch e Joaquim de Carvalho, ele foi enfático ao defender a construção de pontes entre diferentes campos ideológicos: “É um erro da esquerda não dialogar com os militares e também dos militares não dialogar com a esquerda.”
Segundo Farinazzo, a ausência de interlocução cria um “vácuo de discurso” que pode ser ocupado por narrativas extremistas e por interesses externos. Para ele, a soberania nacional deve ser tratada como tema suprapartidário, especialmente em um contexto internacional de tensões crescentes.
Vácuo político e captura de narrativas
Ao comentar o cenário interno, o comandante avaliou que parte da sociedade foi capturada por discursos radicais justamente porque não se sentia representada no debate público. “Não existe vácuo de discurso. Quem não está sendo ouvido acaba sendo capturado por outro tipo de narrativa.”
Ele defendeu que partidos e lideranças progressistas ampliem o diálogo sobre temas estratégicos, como defesa e política externa, inclusive promovendo debates específicos voltados às Forças Armadas. “É preciso haver um diálogo nacional mais amplo sobre os temas que realmente interessam ao país.”
Farinazzo relatou que tem participado de conversas com lideranças políticas de diferentes campos e insistiu na necessidade de superar desconfianças históricas. Para ele, a construção de um consenso mínimo é condição para fortalecer o Estado brasileiro diante de pressões externas.
Defesa, soberania e modernização militar
Durante a entrevista, o comandante também abordou as fragilidades estruturais do Brasil no campo da defesa. Ele apontou limitações em áreas como sensoriamento por satélite, guerra eletrônica e produção de drones, além de atrasos em projetos estratégicos.
Na sua avaliação, a guerra contemporânea mudou profundamente. “A guerra mudou completamente.” Ele citou o caso do Irã como exemplo de como programas robustos de mísseis podem compensar a ausência de uma força aérea tradicional.
Farinazzo defendeu maior investimento na indústria nacional de defesa e destacou que projetos estruturantes tiveram impulso em governos anteriores, mas ainda carecem de continuidade e visão estratégica de longo prazo.
Influência externa e formação militar
Questionado sobre a formação de oficiais brasileiros nos Estados Unidos, ele afirmou que esse processo influencia a visão estratégica de parte da oficialidade. “É lógico que, se o oficial passa anos fazendo cursos nos Estados Unidos, ele tende a ter uma visão positiva daquele país.”
No entanto, ponderou que o cenário internacional está em transformação e que novas referências estratégicas devem ser consideradas. Ele citou a importância de observar experiências de países como Rússia, China, Índia e Turquia no campo da indústria bélica e da doutrina militar.
Ano eleitoral e risco de instabilidade
Farinazzo também alertou para o risco de instabilidade política no Brasil em ano eleitoral, especialmente diante de um ambiente internacional marcado por conflitos e disputas geopolíticas. Ele manifestou preocupação com a possibilidade de ingerências externas e episódios de violência política.
Para o comandante, o fortalecimento institucional passa necessariamente pelo diálogo e pela construção de uma agenda comum em defesa da soberania. “É preciso haver vontade de conversar.”
Um pacto em torno do interesse nacional
Ao longo da entrevista, Farinazzo reiterou que o debate sobre defesa não pode ser monopólio de um campo ideológico. Segundo ele, a soberania exige convergência mínima entre forças políticas, sociedade civil e instituições militares.
“A esquerda tem que conversar com os militares e os militares têm que conversar com a esquerda.”
Para o comandante, apenas com esse diálogo será possível enfrentar os desafios de um mundo cada vez mais instável e proteger os interesses estratégicos do Brasil.


