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Partido Nacionalista volta ao poder em Bangladesh com vitória histórica

Partido Nacionalista de Bangladesh conquista maioria no Parlamento e promete reformas para recuperar estabilidade após crise política e econômica no país

Mobilização eleitoral em Bangladesh (Foto: Reuters)

247 - O Partido Nacionalista de Bangladesh (BNP), principal força de oposição no país, venceu as eleições parlamentares desta quinta-feira (12), com ampla vantagem e retornará ao poder após quase 20 anos. O resultado abre caminho para que Tarique Rahman, líder do partido e filho de antigos governantes do país, assuma o cargo de primeiro-ministro em um momento considerado decisivo para a reconstrução política e econômica de Bangladesh.

A apuração, divulgada pela Reuters, indica que o BNP e seus aliados garantiram ao menos 212 das 299 cadeiras em disputa, enquanto o partido islâmico Jamaat-e-Islami e seus parceiros conquistaram 70 assentos. A eleição é vista como um marco por ter sido considerada a primeira disputa realmente competitiva em anos, após meses de instabilidade e protestos que culminaram no colapso do governo da ex-primeira-ministra Sheikh Hasina, no ano passado.

Tarique Rahman, de 60 anos, é filho da ex-primeira-ministra Khaleda Zia e do ex-presidente Ziaur Rahman, assassinado. Segundo a agência, ele enfrentará desafios imediatos para restaurar a estabilidade institucional, recuperar a confiança do mercado e reerguer setores estratégicos da economia — em especial a indústria de vestuário, uma das principais fontes de exportação do país, que foi duramente afetada pela turbulência política.

Apesar da vitória expressiva, Rahman ainda não havia se pronunciado publicamente até mais de 12 horas após a tendência eleitoral se consolidar. O BNP, por sua vez, orientou seus apoiadores a evitarem comemorações de rua. Em comunicado, o partido declarou: "Apesar da vitória... por uma grande margem de votos, nenhuma passeata ou comício comemorativo será organizado", pedindo que a população realizasse orações especiais nesta sexta-feira.

Comissão eleitoral divulga números parciais e posse pode atrasar

A Comissão Eleitoral apresentou números oficiais preliminares diferentes dos dados apontados por emissoras locais. Segundo o órgão, o BNP obteve 181 cadeiras, o Jamaat-e-Islami ficou com 61, e outros partidos somaram 7 assentos, enquanto a contagem ainda seguia em andamento em diversas circunscrições.

A expectativa é de que o resultado final seja conhecido nas próximas horas, mas a formalização pode levar mais tempo. Isso porque, de acordo com a Constituição do país, o novo governo só pode tomar posse após a publicação oficial dos resultados no Diário Oficial — um processo que pode demorar alguns dias.

Enquanto isso, o Partido Nacional Cidadão (NCP), liderado por jovens ativistas que tiveram papel importante na derrubada do governo Hasina, obteve desempenho limitado: venceu apenas cinco das 30 cadeiras que disputou. O NCP integrava a aliança liderada pelo Jamaat-e-Islami.

Eleição é vista como decisiva para pacificar país de 175 milhões de habitantes

Bangladesh, nação de maioria muçulmana com cerca de 175 milhões de habitantes, atravessou meses de instabilidade e violência política que afetaram a rotina da população e prejudicaram a produção industrial. O país é o segundo maior exportador de roupas do mundo, e a paralisação de fábricas durante a crise gerou impactos econômicos relevantes.

Para o economista Selim Raihan, professor da Universidade de Dhaka, a maioria obtida pelo BNP pode permitir governabilidade imediata. 

O programa eleitoral do BNP incluiu promessas de geração de empregos, proteção a famílias de baixa renda e garantia de preços justos aos agricultores. Entre trabalhadores do setor têxtil, a expectativa principal é a retomada da estabilidade e da regularidade dos salários.

Primeiros líderes internacionais parabenizam vitória do BNP

A vitória do BNP também provocou rápida movimentação diplomática na região. Segundo a Reuters, o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, o primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, e o embaixador dos Estados Unidos em Bangladesh, Brent T. Christensen, estiveram entre os primeiros a enviar mensagens de congratulação a Tarique Rahman.

O cenário político do país, porém, segue atravessado por disputas geopolíticas. Índia, China e Estados Unidos disputam influência em Bangladesh, que ocupa posição estratégica no sul da Ásia. O embaixador norte-americano afirmou anteriormente à Reuters que Washington demonstrava preocupação com o avanço da influência chinesa no país.

As relações entre Nova Délhi e Dhaka se deterioraram desde a fuga de Hasina, afetando inclusive serviços consulares e laços esportivos, como os acordos relacionados ao críquete entre os dois países.

Jamaat-e-Islami reconhece derrota 

O Jamaat-e-Islami reconheceu a derrota ainda na noite de quinta-feira, quando os resultados preliminares já indicavam a vantagem do BNP. Mesmo assim, em comunicado divulgado nesta sexta-feira, o partido afirmou que "não está satisfeito” com o processo eleitoral e pediu que seus seguidores mantivessem a paciência.

Apesar da derrota, o partido registrou seu melhor desempenho histórico ao conquistar 70 cadeiras. A legenda voltou a disputar eleições pela primeira vez desde que havia sido banida em 2013, durante o governo de Sheikh Hasina. A proibição foi revogada após a queda da ex-primeira-ministra.

Participação eleitoral cresce e referendo sobre reformas ocorre junto com votação

A participação popular na eleição também chamou atenção. A Reuters aponta que a taxa de comparecimento superou os 42% registrados no pleito de 2024, com veículos locais estimando que cerca de 60% dos eleitores registrados votaram nesta quinta-feira.Mais de 2.000 candidatos participaram da disputa, incluindo muitos independentes, em uma eleição com número recorde de partidos — pelo menos 50 legendas. A votação em uma circunscrição precisou ser adiada após a morte de um candidato.

Paralelamente ao pleito, também foi realizado um referendo sobre reformas constitucionais. A emissora Jamuna TV informou que mais de 2 milhões de eleitores votaram "Sim" e mais de 850 mil votaram "Não", mas não havia confirmação oficial até o momento.

As reformas em debate incluem limites de dois mandatos para primeiros-ministros, fortalecimento da independência judicial e ampliação da representação feminina, além da previsão de governos interinos neutros durante períodos eleitorais e a criação de uma segunda câmara no Parlamento.

Com o BNP consolidando maioria expressiva e a expectativa de mudanças institucionais em discussão, Bangladesh entra agora em uma fase decisiva para definir se conseguirá estabilizar seu sistema político e recuperar o crescimento econômico após um dos períodos mais turbulentos de sua história recente.

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