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Petrolíferas dos EUA cobram garantias para investir na Venezuela

Empresas exigem proteção legal e financeira antes de aplicar bilhões no setor energético venezuelano

Petrolíferas dos EUA cobram garantias para investir na Venezuela (Foto: PDVSA)

247 - Grupos petrolíferos dos Estados Unidos passaram a condicionar grandes investimentos na indústria de petróleo da Venezuela à obtenção de garantias consideradas robustas por parte do governo norte-americano. A postura cautelosa do setor ocorre em meio à pressão exercida pelo atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para que as companhias apoiem sua estratégia de reconfiguração dos mercados globais de energia, com foco direto no país sul-americano.

Na quarta-feira (8), autoridades dos EUA realizaram reuniões decisivas com executivos do setor energético em Miami. Os encontros ocorreram enquanto Donald Trump intensificava ações de forte impacto geopolítico, incluindo a decisão de assumir o controle do setor petrolífero venezuelano e a ordem para que forças especiais norte-americanas capturassem um navio-tanque russo no Atlântico Norte.

Na sexta-feira (9), o presidente reuniu na Casa Branca executivos de algumas das maiores empresas de energia do país. Pessoas a par das conversas afirmam que os dirigentes devem pressionar o governo por garantias legais e financeiras claras antes de comprometer capital na Venezuela. No início da semana, Donald Trump declarou que as petroleiras poderiam ser “reembolsadas pelo governo ou por meio das receitas” caso investissem no país, mas o setor segue apreensivo diante da imprevisibilidade das decisões políticas.

Um investidor especializado em energia resumiu o cenário de incerteza ao afirmar que “ninguém quer entrar no país quando um tuíte aleatório pode mudar toda a política externa do país”. As discussões em Miami ocorreram poucas horas depois de Trump anunciar que a Venezuela entregaria milhões de barris de petróleo a navios fretados pelos Estados Unidos, destinados a refinarias no Golfo do México. Em seguida, a Casa Branca informou que Washington passaria a controlar o petróleo venezuelano “por tempo indeterminado”.

Analistas veem a iniciativa como parte de uma estratégia global mais ampla. Bill Farren-Price, do Oxford Institute for Energy Studies, afirmou que, após bombardeios no Irã e na Nigéria, “a Venezuela é o terceiro produtor da Opep a ser atacado pelos EUA no último ano”. Segundo ele, “trata-se de uma agenda global que tende a remodelar o comércio mundial de energia segundo os termos e condições dos Estados Unidos”.

Apesar do discurso oficial, o plano de Donald Trump para reativar o setor petrolífero venezuelano enfrenta ceticismo entre executivos norte-americanos. Riscos políticos e jurídicos, somados aos preços baixos do petróleo, são apontados como entraves relevantes. O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, reuniu-se com dirigentes da Chevron e da ConocoPhillips para transmitir a orientação de que as grandes petroleiras deveriam investir bilhões de dólares na indústria energética venezuelana.

Washington também sinalizou que pretende abrir espaço para empresas americanas de serviços petrolíferos atuarem no país e reduzir parte das sanções que travaram a economia venezuelana. Ainda assim, Wright reconheceu, durante conferência do Goldman Sachs em Miami, que as gigantes do setor não iriam “investir bilhões construindo nova infraestrutura na Venezuela na próxima semana”.

A Chevron, única empresa norte-americana com licença para exportar petróleo venezuelano, tenta renegociar seu acordo com o Departamento do Tesouro para ampliar os volumes comercializados. Em comentários reservados a investidores na terça-feira (6), a diretora financeira da companhia, Eimear Bonner, adotou um tom cauteloso e não indicou planos de expansão no curto prazo, segundo participantes da reunião.

Executivos de empresas como Chevron, ExxonMobil e ConocoPhillips estão entre os esperados para o encontro com Donald Trump na Casa Branca. Para Amos Hochstein, sócio da gestora TWG Global e ex-assessor do ex-presidente Joe Biden, investir na Venezuela envolve riscos elevados. “As empresas americanas precisam saber quem são seus interlocutores. Estão assinando contratos com o governo venezuelano? Esse governo é legítimo?”, questionou.

Hochstein acrescentou que, pelos próximos três anos, as companhias teriam de investir sem retorno imediato e que, quando os resultados começassem a aparecer, Trump já não seria mais presidente. Neil McMahon, cofundador da gestora Kimmeridge, afirmou que as empresas precisariam de garantias financeiras formais do governo antes de comprometer recursos. “Há muita preocupação com o arcabouço legal desses novos contratos, especialmente porque elas já foram prejudicadas muitas vezes no passado”, disse.

Um investidor de private equity afirmou que sua empresa está “pronta para começar a analisar oportunidades”, mas classificou a Venezuela como “o máximo em risco”. Segundo ele, “esse governo basicamente vai ter de garantir tudo”. E concluiu: “Sem algo desse tipo, nenhum investidor ou empresa de capital aberto pode aplicar recursos em um país que não tem segurança jurídica e confisca ativos”.

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