PF amplia presença na Europa para combater tráfico internacional do PCC e União Europeia busca fortalecer cooperação
Brasil e União Europeia intensificam ações conjuntas contra narcotráfico, lavagem de dinheiro e expansão de facções criminosas
247 - A Polícia Federal (PF) ampliou sua estratégia de combate ao crime organizado internacional com a criação de um posto de representação em Bruxelas, na Bélgica, reforçando a cooperação entre o Brasil e a União Europeia no enfrentamento ao tráfico de drogas operado por facções como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). As informações foram publicadas originalmente pela Folha de São Paulo.
A iniciativa ocorre em meio ao interesse crescente da União Europeia em aprofundar a colaboração com países da América do Sul diante da expansão das redes criminosas que abastecem o mercado europeu de cocaína. O delegado Guilherme Monseff de Biagi assumiu neste ano a representação da PF em Bruxelas, com a missão de fortalecer investigações relacionadas aos principais pontos de entrada de drogas no continente europeu, especialmente os portos de Antuérpia, na Bélgica, e Roterdã, na Holanda.
Esses terminais são considerados estratégicos para o tráfico internacional de drogas provenientes da América do Sul, incluindo carregamentos que saem de portos brasileiros, principalmente o de Santos, em São Paulo.
PF planeja ampliar presença em países europeus
Em entrevista à Folha, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que a corporação pretende ampliar sua presença no continente europeu por meio da criação de novos postos de representação.
"Essa ampliação é parte de um dos pilares de enfrentamento ao crime, de cooperação internacional, prisão de lideranças e [de] retirar poder econômico das facções", declarou.
Segundo Rodrigues, além da atuação na Bélgica, a PF trabalha na instalação de representações na Holanda, com foco especial no porto de Roterdã, além da Suíça e da Alemanha.
O diretor-geral destacou ainda a importância da presença permanente de agentes brasileiros na Europa para acelerar a troca de informações e a coordenação de investigações.
"Essa presença física é fundamental para o desenvolvimento de ações", afirmou.
Além do trabalho operacional relacionado ao tráfico de drogas, o representante brasileiro em Bruxelas terá a responsabilidade de manter interlocução constante com autoridades da União Europeia e organismos de segurança do bloco.
Cresce preocupação com internacionalização das facções
Embora autoridades europeias manifestem, de forma reservada, divergências em relação à decisão dos Estados Unidos de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas, há consenso sobre o aumento da ameaça representada pela atuação internacional dessas organizações criminosas.
As autoridades brasileiras já identificaram atividades das duas facções em aproximadamente 30 países. Na Europa, a logística do tráfico ocorre tanto por rotas diretas quanto por intermédio de operações estabelecidas no norte da África, ampliando o alcance das organizações no mercado europeu.
Para representantes da União Europeia, o combate ao crime organizado exige fortalecimento institucional dos Estados, integração entre órgãos de segurança e Justiça e cooperação internacional contínua, em vez de estratégias baseadas em intervenções militares.
Cooperação entre União Europeia e América Latina ganha impulso
O tema ganhou relevância durante a cúpula realizada em novembro de 2025, em Santa Marta, na Colômbia, entre a União Europeia e a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac). No encontro, foi aprovada uma declaração conjunta voltada ao combate ao narcotráfico, à lavagem de dinheiro e às organizações criminosas transnacionais.
Entre as iniciativas consideradas prioritárias está o fortalecimento da Ameripol, a Comunidade de Polícia das Américas. A expectativa é que a entidade obtenha personalidade jurídica internacional após a entrada em vigor do Tratado de Brasília, o que poderá ampliar significativamente a cooperação com a Europol, agência policial da União Europeia.
Atualmente, policiais brasileiros já atuam junto à Europol em operações e intercâmbio de informações.
O Tratado de Brasília foi assinado por 14 países, mas ainda depende da ratificação de pelo menos três deles para entrar em vigor. Até o momento, Equador e Chile concluíram esse processo. No Brasil, segundo Andrei Rodrigues, a tramitação interna no governo federal foi concluída e o texto deverá ser encaminhado em breve ao Congresso Nacional.
Acordo Mercosul-União Europeia prevê ações conjuntas na área de segurança
Além dos aspectos econômicos e comerciais, o acordo firmado entre Mercosul e União Europeia prevê mecanismos de cooperação política e institucional voltados à segurança pública.
A proposta inclui iniciativas conjuntas de combate ao crime organizado, ao tráfico de drogas, à corrupção, à lavagem de dinheiro e ao tráfico de pessoas. A expectativa é que a estrutura criada pelo acordo facilite a implementação de canais permanentes de diálogo entre os dois blocos, promovendo o compartilhamento de informações, a aproximação entre autoridades policiais e judiciais e o financiamento europeu de projetos de segurança.
Inteligência e soberania orientam estratégia europeia
A abordagem defendida pela União Europeia difere da estratégia adotada pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Autoridades europeias defendem o fortalecimento da inteligência policial e da cooperação internacional, sem a realização de operações militares em território latino-americano.
O objetivo é preservar a soberania dos países envolvidos e respeitar as normas do direito internacional, priorizando o intercâmbio de informações e a coordenação entre instituições de segurança.
Uso de submarinos preocupa autoridades
Além das formas tradicionais de transporte de drogas por navios e contêineres, autoridades europeias relatam uma expansão acelerada do uso de submarinos pelo narcotráfico.
Segundo os órgãos de segurança, essas embarcações podem ser produzidas em poucas semanas com custos relativamente baixos e possuem capacidade para transportar grandes quantidades de entorpecentes entre continentes, tornando-se um desafio crescente para as operações de fiscalização.
Operação conjunta resultou em 187 prisões
Um exemplo recente da cooperação entre Europa e América Latina foi a Operação Centinela, realizada em dezembro de 2025 no âmbito do Comitê Latino-Americano de Segurança Interna (Clasi), mecanismo apoiado pela União Europeia.
A ação coordenada mobilizou diferentes países em operações simultâneas contra organizações criminosas ligadas ao tráfico de drogas e ao comércio ilegal de armas. O balanço da operação registrou 187 prisões, a apreensão de 343 armas de fogo e mais de 2.200 apreensões relacionadas ao tráfico de drogas, reforçando a aposta das autoridades internacionais em estratégias integradas para enfrentar o crime organizado transnacional.



