População da Groenlândia rejeita investida de Trump e teme influência dos EUA
Declarações do presidente dos Estados Unidos reacendem tensões no território autônomo dinamarquês e reforçam resistência local
247 - As recentes declarações de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, sobre a Groenlândia provocaram apreensão e reacenderam tensões no território autônomo ligado ao Reino da Dinamarca. O episódio levou o primeiro-ministro groenlandês a recomendar que a população mantivesse kits de emergência abastecidos, com água potável, alimentos não perecíveis e até armas de caça com munição, orientação que causou preocupação entre os cerca de 56 mil habitantes da ilha.
O G1 traz à tona opiniões contrárias à aquisição do território pelos EUA. Entre os críticos da investida dos Estados Unidos está o climatologista Birger Poppel, da Universidade da Groenlândia, que alertou para o choque de modelos sociais. “Nos desdobramos para garantir acesso gratuito à educação e à saúde. Olhando para os Estados Unidos e, principalmente, para o que quer Donald Trump, é um outro mundo. Eu não quero isso para mim”, afirmou.
O interesse de Trump pela ilha não é novo. Em 2019, ainda durante seu primeiro mandato, ele manifestou publicamente a intenção de comprar a Groenlândia, oferecendo cerca de US$ 100 milhões e prometendo investimentos, distribuição de riqueza e valorização da cultura local. A proposta foi amplamente rejeitada e comparada, pelo próprio Trump, à compra do Alasca, adquirida da Rússia em 1868 por US$ 7 milhões, em um acordo histórico para os Estados Unidos.
A ideia, no entanto, esbarra em princípios básicos do direito internacional. A Groenlândia é um território sob soberania dinamarquesa e, segundo seus líderes políticos, não está à venda. Ainda assim, relatos apontam que a nova estratégia defendida por Trump seria a realização de um referendo local para avaliar se a população aceitaria negociar. A reação foi imediata. “Nós não somos uma coisa que você possa ir lá e comprar. Nós somos um povo — esta é a nossa terra”, disse uma residente groenlandesa.
O interesse estratégico dos Estados Unidos cresce à medida que o degelo avança no Ártico. Trump sustenta que a Groenlândia é fundamental para a segurança nacional norte-americana, citando sua localização estratégica e a existência de minerais essenciais para indústrias de alta tecnologia, como baterias de veículos elétricos e equipamentos militares. Sob a camada de gelo, que derrete a um ritmo três vezes superior à média global, há reservas consideradas cruciais para a economia mundial nas próximas décadas.
O aquecimento acelerado também abre novas rotas marítimas e facilita o acesso a áreas de mineração, transformando o Ártico em um espaço de disputa geopolítica entre potências como China, Rússia, Canadá, países da OTAN e os próprios Estados Unidos. Para Washington, a ilha dinamarquesa ocupa uma posição central no controle dessas rotas emergentes.
A resistência da população local é reforçada por memórias históricas de colonização. Durante séculos, a Groenlândia foi tratada como colônia de exploração pela Dinamarca, com imposição de religião, apagamento de tradições inuítes e controle da economia, inclusive com lucros obtidos a partir da caça de baleias e focas. Essas marcas ainda influenciam o debate político e social na ilha.
Atualmente, cerca de metade do orçamento groenlandês depende de repasses do governo dinamarquês, que sustentam serviços públicos como saúde e educação gratuitas. Embora quatro dos cinco partidos do Parlamento defendam a independência total, há consenso de que a economia local ainda não permite esse passo. Nesse contexto, a proposta de Trump é vista por muitos como um retrocesso colonial, substituindo um tutor histórico por outro percebido como ainda mais distante culturalmente.


