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Quem é Reza Pahlavi, o herdeiro exilado que convoca iranianos a ocupar cidades

Filho do último xá do Irã abandona discurso moderado e passa a defender ações diretas contra o governo em meio à maior onda de protestos dos últimos anos

Reza Pahlavi (Foto: Reuters/Abdul Saboor)

247 - Durante décadas, Reza Pahlavi construiu a imagem de um opositor moderado do regime iraniano no exílio. Ex-piloto de caça e defensor declarado de uma transição pacífica para um Estado laico e democrático, ele costumava falar em resistência não violenta a partir dos Estados Unidos, onde vive desde a Revolução Islâmica de 1979. Nos últimos dias, porém, o tom mudou de forma radical.

A mudança de postura do herdeiro da antiga monarquia iraniana é detalhada em reportagem da emissora Al Jazeera, que relata como Pahlavi, hoje com 65 anos, passou a convocar a população a ações diretas contra o Estado. Em mensagens públicas, ele conclamou iranianos a ocupar centros urbanos e a se preparar para o que descreve como seu retorno iminente ao país, provocando forte reação das autoridades de Teerã.

Em uma declaração divulgada em sua conta na rede social X, Pahlavi afirmou: “Nosso objetivo não é mais apenas ir às ruas. O objetivo é nos prepararmos para tomar os centros das cidades e mantê-los". O chamado foi interpretado pela mídia estatal iraniana como incentivo a ataques armados, classificados pelo governo como ações terroristas.

De príncipe herdeiro ao exílio

Reza Pahlavi nasceu em Teerã, em 31 de outubro de 1960, sete anos após o golpe apoiado pelos Estados Unidos e pelo Reino Unido que derrubou o então primeiro-ministro Mohammad Mosaddegh, responsável pela nacionalização da indústria do petróleo iraniano em 1951. Aos sete anos, foi oficialmente nomeado príncipe herdeiro do Trono do Pavão, posição que parecia assegurar seu futuro como xá.

Esse destino foi interrompido pela Revolução Islâmica de 1979. Aos 17 anos, Pahlavi deixou o Irã para realizar treinamento como piloto de caça na Base Aérea de Reese, no Texas. Enquanto estava fora, a monarquia foi derrubada e o atual sistema político foi instaurado, impedindo seu retorno ao país.

Após concluir o treinamento militar, ele formou-se em ciência política pela Universidade do Sul da Califórnia. Durante a guerra Irã-Iraque, nos anos 1980, chegou a se oferecer para servir como piloto de combate, mas teve o pedido rejeitado pelas autoridades iranianas. Desde então, vive no exílio nos Estados Unidos com a esposa, Yasmine Pahlavi, e as três filhas do casal.

Convocações e promessa de retorno

Por mais de quatro décadas, Pahlavi defendeu a realização de um referendo e mudanças políticas por meios pacíficos. Nos últimos dias, no entanto, sua retórica se tornou mais agressiva. No sábado, ele pediu greves nacionais em setores estratégicos, como transporte, petróleo e gás, com o objetivo de “cortar as linhas financeiras do Estado”.

O opositor também fez um apelo direto a membros das forças de segurança e a jovens ligados à chamada Guarda Imortal, antiga força imperial, para que desertassem. Em outra mensagem, declarou: “Eu também estou me preparando para retornar à pátria para que, no momento da vitória da nossa revolução nacional, eu possa estar ao lado de vocês".

As convocações ocorrem em meio ao que observadores descrevem como os maiores protestos antigovernamentais em anos. Pahlavi incentivou seus apoiadores a erguerem a bandeira pré-1979 do “Leão e Sol”, símbolo do regime de seu pai, e a ocuparem espaços públicos a partir das 18h, no horário local.

Reação dura de Teerã

A resposta do governo iraniano foi imediata e contundente. No domingo, veículos de comunicação ligados ao Estado classificaram os protestos como uma “nova fase de insegurança” e chegaram a falar em uma “guerra armada interna”.

O jornal conservador Vatan-e Emrooz, citado pela agência Tasnim, afirmou que os apelos de Pahlavi serviriam de cobertura para a atuação de “núcleos terroristas” contra a polícia e as forças da Basij. O texto declarou: “Não se enganem; isto não foi apenas um tumulto… foram ataques terroristas armados”, alegando a morte de dezenas de agentes de segurança.

Autoridades iranianas também associaram a escalada à interferência externa, acusando diretamente os Estados Unidos e Israel. Segundo o governo, a instabilidade faria parte de um “Plano B” do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, após o fim da guerra de 12 dias entre Israel e Irã, ocorrida em maio do ano passado.

Divisões dentro da oposição

Apesar de ganhar visibilidade nas ruas, Reza Pahlavi enfrenta críticas crescentes dentro da própria oposição iraniana, historicamente fragmentada. O especialista em Irã Alireza Nader escreveu recentemente que a atuação política do herdeiro exilado tem se tornado fator de divisão.

Segundo Nader, críticos acusam o círculo próximo a Pahlavi de atacar outros dissidentes de destaque, como a vencedora do Prêmio Nobel da Paz Narges Mohammadi, rotulando-os de “esquerdistas” ou “terroristas”. O analista escreveu: “Pahlavi dobrou a aposta em seus assessores, apesar do desconforto de outros em relação a eles”, questionando se ele não teria se tornado “a oposição contra a oposição”.

Há ainda suspeitas de manipulação digital. Nader observa que parte do apoio online a Pahlavi pode ser impulsionada por exércitos cibernéticos ligados ao próprio governo iraniano, com o objetivo de semear divisões, levantando dúvidas sobre “quem está cooptando quem”.

Mesmo diante dessas fissuras, Reza Pahlavi segue como o rosto mais visível da atual onda de protestos. Com o governo Trump mantendo uma postura de distanciamento e afirmando que cabe aos iranianos escolher seus próprios líderes, o príncipe exilado parece apostar todas as fichas em uma última tentativa de recuperar o trono perdido há 47 anos.

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