Sem citar os EUA, Lula fala em “tentações hegemônicas” da “maior potência militar do mundo”
Presidente defende integração latino-americana autônoma e critica fragilidade regional diante de unilateralismo e disputas externas
247 - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (28) que a América Latina atravessa um período de enfraquecimento político e institucional, marcado pela divisão interna e pela dificuldade de formular respostas conjuntas aos desafios internacionais. Ao participar da sessão inaugural do Fórum Econômico Internacional da América Latina, no Panamá, o chefe de Estado brasileiro destacou que os governantes da região não podem desperdiçar a oportunidade de debater temas estratégicos de interesse comum.
Durante o discurso no evento, Lula relembrou o simbolismo histórico do Panamá, palco, há 200 anos, do Congresso que reuniu jovens nações latino-americanas em busca de consolidar sua independência e definir seu lugar no mundo. Segundo o presidente, daquele encontro surgiram ideias que mais tarde seriam incorporadas ao direito internacional e à Carta da ONU, como a manutenção da paz, a solução pacífica de controvérsias, a igualdade jurídica entre os Estados e a garantia da integridade territorial.
Na avaliação de Lula, apesar da relevância histórica, esse legado foi insuficiente para a construção de instituições regionais efetivas. O presidente afirmou que, dois séculos depois, a América Latina vive “um dos momentos de maior retrocesso em matéria de integração”, com iniciativas frustradas e organismos enfraquecidos.
Lula citou a experiência da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) como exemplo de um projeto interrompido pela intolerância política, que inviabilizou a convivência entre diferentes visões. Para ele, a região voltou a se apresentar fragmentada e excessivamente voltada para fora, permitindo que conflitos e disputas ideológicas externas se imponham sobre as prioridades locais. Nesse cenário, segundo o presidente, ameaças como o extremismo político e a manipulação da informação passaram a integrar o cotidiano latino-americano.
O presidente também criticou o esvaziamento das instâncias multilaterais, afirmando que encontros regionais se transformaram em “rituais vazios”, frequentemente sem a presença dos principais líderes. Como consequência, a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), única organização que reúne todos os países da região, encontra-se paralisada. De acordo com Lula, o bloco não conseguiu sequer aprovar uma declaração conjunta contra intervenções ilegais que afetam a América Latina e o Caribe.
Ao abordar o contexto internacional, Lula afirmou que a ruptura da ordem liberal, somada ao avanço do protecionismo e do unilateralismo, expõe a insuficiência de antigos paradigmas como o pan-americanismo e o bolivarianismo. Para o presidente, modelos de integração que não refletem as necessidades regionais também não oferecem respostas adequadas. Ele defendeu que a União Europeia seja observada como referência, sem desconsiderar as diferenças históricas, econômicas e culturais.
Nesse ponto, Lula mencionou diretamente os Estados Unidos, ao afirmar que a proximidade geográfica com a “maior potência militar do mundo” é uma referência inevitável, seja pela presença ou pelo distanciamento, especialmente em um momento de recrudescimento de “tentações hegemônicas”. Segundo ele, falta às lideranças regionais convicção sobre os benefícios de um projeto mais autônomo de inserção internacional.
O presidente sustentou que os países latino-americanos deveriam concentrar esforços na mobilização de ativos políticos e econômicos ainda pouco explorados, capazes de fortalecer uma inserção competitiva na ordem global. Para Lula, a integração possível é aquela baseada na pluralidade de opções e guiada pelo pragmatismo, capaz de superar divergências ideológicas e construir parcerias sólidas dentro e fora da região. Segundo ele, manter a América Latina dividida apenas amplia a fragilidade coletiva diante dos desafios contemporâneos.

