Trump anuncia hoje 'conselho da paz' em Davos
Iniciativa do presidente dos Estados Unidos prevê órgão consultivo para reconstrução da Faixa de Gaza, mas enfrenta críticas
247 - O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anuncia nesta quinta-feira (22), durante cerimônia em Davos, o lançamento do chamado Conselho da Paz, uma nova estrutura internacional idealizada por seu governo com o objetivo declarado de atuar na manutenção da paz e na reconstrução da Faixa de Gaza. A proposta, apresentada como parte de um esforço diplomático mais amplo, já provoca controvérsia e desconfiança entre governos e especialistas em relações internacionais.
Segundo informações divulgadas pelo G1 e agências internacionais, o Conselho da Paz estava previsto na segunda fase do acordo de paz mediado pelos Estados Unidos e firmado em outubro do ano passado entre Israel e o grupo Hamas. O novo órgão terá caráter consultivo e deve assessorar o comitê responsável pela administração provisória da Faixa de Gaza, que iniciou seus trabalhos neste mês no Cairo, sob a liderança do ex-vice-ministro palestino Ali Shaath e de outros 14 integrantes.
De acordo com comunicado oficial da Casa Branca, o conselho foi concebido para “apoiar uma governança eficaz e a prestação de serviços de alto nível que promovam a paz, a estabilidade e a prosperidade do povo de Gaza”. Apesar do discurso oficial, a iniciativa foi recebida com reservas por parte da comunidade internacional e gerou críticas contundentes de analistas e diplomatas.
Uma das principais preocupações levantadas por diplomatas ouvidos pela agência Reuters é o impacto do novo órgão sobre o papel das Nações Unidas. Um representante europeu resumiu o receio ao classificar a proposta como uma “Nações Unidas de Trump” que ignora princípios fundamentais da Carta da ONU. O rascunho do estatuto do Conselho da Paz faz críticas ao sistema multilateral atual ao defender a necessidade de “um organismo internacional de consolidação da paz mais ágil e eficaz” e de “coragem de abandonar abordagens e instituições que falharam com demasiada frequência”.
O próprio Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, será o presidente inaugural do Conselho da Paz. O estatuto concede a ele amplos poderes, incluindo a palavra final em votações, a escolha dos países convidados e a possibilidade de revogar a participação de membros. O documento estabelece mandatos de três anos para os Estados participantes, com exceção daqueles que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão no primeiro ano. “Cada Estado-membro cumprirá um mandato de no máximo três anos a partir da data de entrada em vigor desta Carta, renovável pelo presidente. Este mandato de três anos não se aplicará aos Estados-membros que contribuírem com mais de US$ 1 bilhão em dinheiro para o Conselho da Paz no primeiro ano”, diz o texto.
A Casa Branca anunciou ainda os sete integrantes fundadores do conselho executivo: Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos; Tony Blair, ex-primeiro-ministro do Reino Unido; Steve Witkoff, enviado especial dos EUA para a Faixa de Gaza; Jared Kushner, genro de Trump; Ajay Banga, presidente do Banco Mundial; Marc Rowan, financista norte-americano; e Robert Gabriel, colaborador próximo de Trump no Conselho de Segurança Nacional. As atribuições específicas de cada membro ainda não foram detalhadas. Além disso, o major-general Jasper Jeffers foi designado para comandar a Força Internacional de Estabilização em Gaza.
Até o momento, 25 países já confirmaram participação no Conselho da Paz, entre eles Israel, Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Egito, Turquia e Hungria. Convites também foram enviados a cerca de 60 nações, incluindo Brasil, Rússia, China, França, Alemanha e Japão. Noruega, Suécia e Itália já recusaram formalmente o convite, enquanto outros governos afirmam estar avaliando a proposta.
No caso brasileiro, o convite é considerado diplomáticamente sensível. O presidente Lula defende publicamente a criação de um Estado palestino, posição que pode entrar em choque com a adesão ao conselho idealizado por Trump. Uma eventual aceitação poderia gerar cobranças por coerência, enquanto a recusa pode afetar a reaproximação recente entre Brasília e Washington após negociações comerciais.


