Trump escolhe extremista de direita para chefiar relação dos EUA com o Brasil
Escolha por Darren Beattie reacende tensões diplomáticas e mantém incertezas nas relações entre Washington e Brasília
247 - O governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, designou Darren Beattie para um posto estratégico com influência direta sobre a política norte-americana em relação ao Brasil, em uma decisão que pode impactar o equilíbrio diplomático entre os dois países. A informação foi divulgada pela agência Reuters nesta sexta-feira (27), com base em fontes familiarizadas com a nomeação.
De acordo com a Reuters, Beattie, que também exerce a função de secretário assistente interino de Estado para Assuntos Educacionais e Culturais, foi escolhido para atuar como assessor graduado responsável por supervisionar temas ligados ao Brasil. Um alto funcionário do Departamento de Estado confirmou que ele “atua atualmente como assessor sênior para a Política do Brasil”. O Ministério das Relações Exteriores brasileiro não se manifestou.
A indicação ocorre em um contexto de relações diplomáticas marcadas por avanços e recuos. Em agosto, Beattie provocou reação do governo brasileiro ao publicar na rede X críticas ao ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, a quem chamou de “o principal arquiteto do complexo de censura e perseguição dirigido contra [Jair] Bolsonaro”. Na ocasião, o Itamaraty convocou o principal diplomata dos Estados Unidos em Brasília para prestar esclarecimentos.
Moraes conduziu o processo criminal que resultou na condenação de Jair Bolsonaro por participação em uma trama golpista para anular o resultado da eleição presidencial de 2022. O ex-presidente cumpre pena de 27 anos de prisão. Meses antes, em julho, os Estados Unidos haviam aplicado sanções contra o ministro do STF, sob a alegação de autorizar detenções preventivas arbitrárias e restringir a liberdade de expressão em casos relacionados aos atos golpistas. Posteriormente, as sanções foram suspensas.
Após o anúncio das sanções, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro agradeceu publicamente a Beattie, também pela rede X. Já o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) aparece como principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa presidencial prevista para outubro.
Fontes do governo brasileiro ouvidas pela Reuters afirmaram que ainda não tinham conhecimento formal da nomeação e avaliaram que o impacto da escolha dependerá do grau de influência interna que Beattie exercerá no Departamento de Estado. As declarações públicas anteriores do assessor, contudo, geram apreensão.
As relações entre Brasília e Washington enfrentaram turbulências após a posse de Trump. Além das sanções a autoridades brasileiras, os Estados Unidos impuseram tarifas a produtos do Brasil, medida que Trump justificou como resposta ao que classificou como perseguição injusta contra Bolsonaro. O cenário começou a mudar após um encontro entre Lula e o presidente dos Estados Unidos durante a Assembleia-Geral da ONU, em Nova York, em setembro, quando Trump afirmou que ambos tiveram “uma química imediata”. No fim do ano, parte das tarifas foi reduzida.
O próximo momento decisivo pode ocorrer nas próximas semanas. Lula declarou que pretende viajar a Washington em março, o que poderá redefinir os rumos do diálogo bilateral.
Beattie acumula outras funções relevantes. Além do novo cargo relacionado ao Brasil, chefia interinamente o Escritório de Assuntos Educacionais e Culturais do Departamento de Estado e preside o Instituto da Paz dos EUA, organização financiada pelo Congresso dedicada à mediação de conflitos internacionais. Em dezembro, o governo Trump anunciou a mudança do nome da instituição para “Instituto da Paz Donald J. Trump”, embora haja questionamentos sobre a autoridade legal para a alteração.
Durante a campanha presidencial de 2024, Beattie afirmou que a comunidade de inteligência norte-americana poderia estar por trás de tentativas de assassinato contra Trump. Ele também foi alvo de críticas após escrever nas redes sociais que “homens brancos competentes devem estar no comando se você quiser que as coisas funcionem”.
A escolha de Beattie para a política voltada ao Brasil ocorre em meio a esse histórico de controvérsias e adiciona um novo elemento de incerteza à relação entre as duas maiores democracias do Hemisfério Ocidental, às vésperas de uma possível visita de Lula à capital norte-americana.


